O número de casos de “justiça com as próprias mãos” aumentou 25% no Rio de Janeiro nos primeiros três meses de 2026. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), foram registradas 504 ocorrências de exercício arbitrário das próprias razões entre janeiro e março, contra 402 no mesmo período do ano passado.
O crescimento acontece em meio à investigação de um caso que chocou Copacabana, na Zona Sul do Rio. O ciclista Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, morreu depois de ser espancado por um grupo que o acusou, sem provas, de ter roubado uma bicicleta.
Dois dos envolvidos trabalhavam como seguranças na região. A Polícia Civil também investiga se eles e outros profissionais atuavam de forma irregular pelas ruas do bairro.
Seguranças circulavam pelas ruas com porretes
Imagens obtidas pela imprensa mostram homens que atuavam como seguranças fazendo rondas pelas ruas de Copacabana com porretes e outros objetos usados como armas.
A atuação chamou a atenção porque os profissionais não estariam apenas dentro dos estabelecimentos para os quais foram contratados. Eles circulavam por vias públicas e abordavam pessoas consideradas suspeitas.
Segundo a regulamentação da Polícia Federal, empresas de segurança privada não podem simplesmente assumir o patrulhamento de ruas. A vigilância privada possui regras específicas e deve ocorrer dentro dos limites previstos para cada modalidade de serviço.
A exceção inclui situações regulamentadas, como segurança pessoal, escolta armada e transporte de valores.
O caso que colocou os grupos na mira da polícia
A atuação desses grupos ganhou ainda mais atenção depois da morte de Cláudio Rafael Landeiro.
Na noite de 11 de agosto, o homem estava com uma bicicleta que pertencia à irmã quando foi abordado após ser acusado, sem provas, de ter cometido um furto.
A abordagem evoluiu para uma sequência de agressões. Segundo as investigações, Cláudio foi cercado por homens e recebeu socos, chutes e mais de 30 golpes de porrete.
Ele foi socorrido e levado para um hospital, mas morreu em decorrência dos ferimentos.
A investigação apontou a participação de dois seguranças e dois entregadores. Os quatro suspeitos foram presos.
A polícia apura agora não apenas a responsabilidade de cada um pela morte, mas também como funcionava o serviço de segurança que era prestado na região.
Polícia investiga quem contratava os seguranças
A Polícia Civil também passou a investigar os comerciantes que contratavam os profissionais.
Segundo o delegado Ângelo Lages, titular da 12ª DP, os investigadores já identificaram pelo menos uma pessoa responsável pela contratação de homens que prestavam serviços de segurança em Copacabana.
A suspeita é de que os seguranças fossem contratados por estabelecimentos comerciais ou grupos de comerciantes para atuar na região.
O problema é que, segundo especialistas, proteger um comércio é diferente de patrulhar uma rua inteira.
“Patrulhamento de via pública é atribuição de polícia e não pode ser terceirizado ao setor privado.” A avaliação é de Victor Solla Jorge, advogado e integrante da Comissão Especial de Segurança Privada da OAB-SP.
Moradores relatam episódios de violência
A presença desses grupos também é alvo de reclamações de moradores.
Relatos apontam que homens contratados para fazer a chamada segurança de estabelecimentos circulavam pelas ruas com porretes e outros equipamentos, principalmente durante a noite.
Um morador ouvido na apuração chegou a comparar a estrutura com uma espécie de segurança paralela. Outro relato aponta episódios de agressões contra jovens na região.
As denúncias, porém, ainda precisam ser individualizadas e investigadas pelas autoridades. A atuação irregular de um grupo não significa que todos os profissionais de segurança que trabalham em Copacabana estejam envolvidos em crimes.
Número de casos cresce no estado
Os dados do Instituto de Segurança Pública mostram que o problema vai além de Copacabana.
Entre janeiro e março de 2026, o Rio de Janeiro registrou 504 ocorrências de exercício arbitrário das próprias razões, contra 402 nos primeiros três meses de 2025.
Na prática, o aumento representa 102 casos a mais em apenas um ano. A média chegou a aproximadamente 5,6 ocorrências por dia.
Em todo o ano passado, foram registrados 1.609 casos desse tipo no estado. O crime está previsto no Código Penal e envolve situações em que alguém tenta fazer valer uma suposta razão ou direito pelas próprias mãos, em vez de recorrer aos meios legais.
Entenda o contexto
O crescimento das ocorrências de “justiça com as próprias mãos” acontece ao mesmo tempo em que a Polícia Civil investiga grupos de segurança que atuavam nas ruas de Copacabana. O caso ganhou repercussão após a morte do ciclista Cláudio Rafael Landeiro, espancado depois de ser acusado, sem provas, de roubar uma bicicleta. Entre os envolvidos estavam dois homens que trabalhavam como seguranças na região. A polícia agora investiga tanto a participação dos suspeitos no homicídio quanto a possível atuação clandestina dos grupos de vigilância e quem contratava esses profissionais.
O que acontece agora?
A Polícia Civil deve continuar investigando quem contratava os seguranças, como o serviço era organizado e se outros comerciantes ou grupos participavam da estrutura.
Também deverá ser analisada a existência de outros episódios de violência relacionados à atuação desses grupos.
O caso de Cláudio segue como o principal exemplo da gravidade que uma abordagem feita fora dos limites legais pode alcançar: uma suspeita sem provas terminou em uma sequência de agressões que matou um homem.
Ao mesmo tempo, os números do ISP mostram que o fenômeno da chamada “justiça com as próprias mãos” não está restrito a um único bairro. Foram mais de 500 ocorrências no estado apenas nos três primeiros meses de 2026.