O USS Abraham Lincoln, um dos principais porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos, passou mais de 270 dias consecutivos no mar em uma missão que colocou a tripulação diante de problemas que vão muito além do combate.
Durante meses sem uma parada em porto para descanso, os cerca de 5 mil marinheiros e fuzileiros navais a bordo enfrentaram relatos de falta de comida, banheiros quebrados, chuveiros com mofo e problemas na lavanderia.
A situação teria sido agravada depois que uma importante base americana no Bahrein foi atingida por ataques iranianos e o apoio logístico precisou ser deslocado para Diego Garcia, no oceano Índico.
270 dias longe de um porto
O USS Abraham Lincoln deixou San Diego em 21 de novembro de 2025.
Desde então, a embarcação permaneceu em operação durante meses, ultrapassando a marca de 270 dias consecutivos no mar.
Para uma tripulação que vive em um ambiente fechado e com milhares de pessoas, o período prolongado sem uma parada em terra representa um desgaste considerável.
Familiares de militares relataram problemas na rotina diária, incluindo refeições insuficientes, banheiros que não funcionavam adequadamente, chuveiros com mofo e dificuldades para lavar roupas.
Danielle Rappa, mãe de um marinheiro, afirmou que o filho descreveu a situação como algo semelhante a uma cena de American Horror Story.
Os relatos ganharam repercussão justamente porque o navio não enfrentava apenas as dificuldades naturais de uma longa missão militar. A estrutura de apoio à tripulação também teria começado a apresentar sinais de desgaste.
Ataque ao Bahrein complicou a logística
Um dos principais fatores por trás da longa permanência no mar foi a situação no Oriente Médio.
Em 28 de fevereiro, uma base naval americana no Bahrein foi atingida por mísseis e drones iranianos. A instalação abriga a sede da Quinta Frota dos Estados Unidos e funciona como um importante centro de operações americanas na região.
Relatos indicaram danos significativos na estrutura.
Segundo informações divulgadas na imprensa americana, a sede de comando, pelo menos 12 prédios e dois terminais de comunicação por satélite foram atingidos.
Não houve mortes entre os militares americanos, e as operações não teriam sido interrompidas de forma significativa. Ainda assim, grande parte do pessoal precisou deixar a instalação.
Suprimentos passaram a vir de milhares de quilômetros
Com a infraestrutura no Bahrein comprometida, parte do apoio logístico foi transferida para Diego Garcia, uma ilha administrada pelo Reino Unido localizada no oceano Índico.
O problema é a distância.
O novo ponto de apoio fica a aproximadamente 3.200 quilômetros do Bahrein, tornando o abastecimento do porta-aviões mais complexo.
Na prática, comida, equipamentos e outros materiais necessários para manter milhares de pessoas durante uma missão prolongada passaram a depender de uma cadeia logística mais distante.
É nesse ponto que a longa permanência no mar começa a pesar sobre a rotina da tripulação.
Até Diego Garcia foi atingida
A mudança de logística também não eliminou completamente o risco de ataques.
Em 20 de março, Diego Garcia foi alvo de dois mísseis iranianos de alcance médio.
Um deles foi interceptado por um navio de guerra americano. O outro caiu no oceano Índico.
O episódio mostrou a dimensão da tensão militar na região e reforçou a necessidade de manter as forças americanas em constante estado de alerta.
Marinha contesta relatos sobre as condições
Os relatos sobre as dificuldades enfrentadas pelos militares foram contestados pelo governo americano.
Em 13 de agosto, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que as condições a bordo do Lincoln estavam sendo apresentadas de maneira distorcida.
A Marinha também sustenta que a permanência prolongada faz parte de uma operação militar e que o navio continua cumprindo sua missão.
A situação, portanto, envolve versões diferentes: de um lado, familiares relatam problemas no cotidiano dos militares; de outro, autoridades americanas afirmam que as condições estão sendo exageradas.
O porta-aviões está voltando para casa
Depois de mais de nove meses em operação, o USS Abraham Lincoln está retornando aos Estados Unidos.
A previsão é que o porta-aviões chegue a San Diego nas próximas semanas.
O governo americano afirma que a volta faz parte de uma rotação planejada e que a tripulação cumpriu sua missão.
Enquanto o Lincoln retorna, o USS George Washington passou a atuar na região do Oriente Médio em uma missão programada.
A substituição permite que os Estados Unidos mantenham um porta-aviões em sua área de operações sem prolongar ainda mais a permanência do Lincoln.
Entenda o contexto
A longa missão do USS Abraham Lincoln mostra como uma operação militar moderna depende não apenas de aviões, navios e armamentos, mas também de uma gigantesca estrutura logística capaz de manter milhares de pessoas durante meses longe de casa.
O ataque à base americana no Bahrein complicou esse sistema ao obrigar os Estados Unidos a deslocar parte do apoio para Diego Garcia, aumentando as distâncias e as dificuldades de abastecimento. Ao mesmo tempo, a permanência prolongada no mar expôs a tripulação a problemas de rotina que normalmente seriam amenizados por paradas periódicas em portos.
A Marinha e autoridades do governo contestam parte dos relatos sobre as condições a bordo, enquanto familiares de militares descrevem uma realidade mais difícil. Agora, com o Lincoln voltando para San Diego e o George Washington assumindo a operação, a Marinha tenta encerrar uma das missões mais longas do porta-aviões nos últimos anos.