O delegado da Polícia Civil de São Paulo, Erivan Vera Cruz, titular da Delegacia de Jaguariúna e responsável também por plantões em Mogi Guaçu, passou a ser alvo de uma nova apuração após um episódio ocorrido no último sábado (22), no interior paulista. Segundo relatos reunidos pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), o delegado chegou cerca de cinco horas atrasado ao expediente, apresentou inicialmente uma justificativa que depois admitiu ser falsa e se recusou a realizar o teste do bafômetro e a fornecer uma amostra de sangue.
O caso chama atenção porque ocorreu enquanto Vera Cruz já era investigado pelo MPSP por reclamações de policiais de cinco cidades da região, que relatam dificuldades para apresentar presos em flagrante nas unidades onde o delegado deveria prestar atendimento.
Segundo a apuração, em algumas situações o delegado teria demorado a comparecer ou deixado de atender as equipes, obrigando policiais militares e guardas civis municipais a permanecerem por mais tempo nas delegacias ou a transportar presos para unidades mais distantes.
O episódio que colocou o delegado novamente no centro da investigação
No sábado, policiais militares chegaram à Delegacia de Mogi Guaçu para apresentar um homem preso em flagrante por suspeita de furtar uma escola. A unidade funciona como plantão e o atendimento dependia da presença do delegado.
De acordo com as informações divulgadas sobre o caso, a equipe teria chegado pela manhã e aguardado a presença de Vera Cruz. O delegado apareceu somente horas depois.
Quando questionado sobre o atraso, inicialmente afirmou que estava envolvido em uma ocorrência grave em Jaguariúna, cidade onde também é titular de uma delegacia.
A explicação, porém, não se sustentou.
Após uma consulta aos sistemas de rastreamento, o delegado teria admitido que não havia deixado o município onde mora. A mudança de versão passou a fazer parte dos elementos que serão analisados na apuração.
Suspeita de embriaguez e recusa ao bafômetro
Durante o atendimento, um promotor de Justiça e um oficial da Polícia Militar teriam desconfiado de que o delegado pudesse estar sob efeito de álcool.
Segundo as informações divulgadas sobre o episódio, Vera Cruz recusou-se a fazer o teste do bafômetro e também não aceitou fornecer sangue para exame.
A recusa, por si só, não permite afirmar que o delegado estivesse alcoolizado. O que existe, neste momento, é o relato de que autoridades presentes levantaram essa suspeita e que ele não concordou em realizar os exames.
O episódio será analisado pelas autoridades responsáveis pela apuração administrativa e investigativa.
O que o MPSP já investigava
O novo episódio ganhou peso porque Vera Cruz já estava no radar do Ministério Público.
A investigação anterior nasceu de reclamações de integrantes das forças de segurança de cinco municípios paulistas. Segundo a apuração, policiais e guardas municipais relataram situações em que teriam sido desestimulados a apresentar presos em flagrante ao delegado.
Em determinados casos, conforme os relatos, a demora para o atendimento faria com que as equipes precisassem levar os presos para outras delegacias.
A situação pode gerar impacto direto no trabalho policial: enquanto uma equipe permanece aguardando atendimento ou precisa percorrer uma distância maior para apresentar uma ocorrência, policiais deixam de estar disponíveis para o patrulhamento das ruas.
Mogi Guaçu e Jaguariúna estão a cerca de 45 quilômetros de distância, e Vera Cruz atua nas duas estruturas.
MPSP vai abrir novo procedimento
O promotor Rodrigo Lopes afirmou que o episódio de sábado será investigado.
“Com este novo episódio, acompanhamos e vamos instaurar um procedimento investigatório.”
A Corregedoria da Polícia Civil também acompanha o caso. A Secretaria da Segurança Pública informou que situações que demandem apuração são encaminhadas para as providências cabíveis.
A defesa de Erivan Vera Cruz foi procurada para comentar os episódios, mas não havia apresentado manifestação até a publicação das informações utilizadas nesta reportagem. O espaço permanece aberto para esclarecimentos.
Um episódio anterior também envolveu o delegado
O nome de Erivan Vera Cruz já havia aparecido em uma investigação noticiada pela Ponte Jornalismo em 2021, também em Jaguariúna.
Na ocasião, o delegado decidiu inserir em um boletim de ocorrência possíveis crimes atribuídos a um policial militar após uma ocorrência que envolveu a morte de um homem e uma pessoa ferida. Entre as suspeitas registradas estavam fraude processual, usurpação de função pública e prevaricação.
O policial tentou posteriormente impedir o andamento do inquérito na Justiça, argumentando, entre outros pontos, que a investigação deveria ocorrer no âmbito militar. O delegado, ouvido no processo, afirmou que o registro tinha como objetivo apurar os fatos e possíveis crimes e sustentou que o fato de o policial estar na ativa não impediria a abertura de investigação pela Polícia Civil quando se tratasse de possíveis crimes comuns.
Esse episódio é anterior à atual investigação do MPSP e não deve ser apresentado como prova de irregularidade cometida por Vera Cruz. Ele serve como registro de uma atuação anterior do delegado em uma investigação policial.
A questão que agora precisa ser esclarecida
A nova apuração terá de responder a uma série de perguntas: por que o delegado chegou horas depois ao plantão? Por que apresentou inicialmente uma versão sobre o local onde estava? O que aconteceu durante o período em que deveria estar na delegacia? E quais foram exatamente as circunstâncias que levaram às suspeitas de consumo de álcool?
Também será necessário verificar se o episódio de sábado possui relação com o padrão de comportamento apontado nas reclamações que deram origem à investigação do MPSP.
Por enquanto, são apurações em andamento, e não há conclusão definitiva sobre eventual crime ou falta funcional cometida pelo delegado.
Entenda o contexto
Erivan Vera Cruz é delegado da Polícia Civil de São Paulo e atua como titular da Delegacia de Jaguariúna, além de responder por plantões em Mogi Guaçu.
O MPSP passou a investigá-lo após relatos de policiais e guardas municipais de cinco cidades que apontaram supostas dificuldades para apresentar presos e registrar ocorrências em unidades sob sua responsabilidade.
Em algumas situações, segundo a apuração, a demora ou ausência do delegado teria obrigado as equipes a procurar outras delegacias. No sábado (22), um novo episódio colocou o policial novamente no centro das atenções: ele teria chegado horas atrasado ao plantão, inicialmente apresentado uma justificativa que depois admitiu não ser verdadeira e recusado o bafômetro e uma coleta de sangue após autoridades levantarem suspeita de que ele poderia estar alcoolizado.
O MPSP anunciou que vai instaurar um novo procedimento para apurar o caso, enquanto a Corregedoria da Polícia Civil também acompanha a situação.