Guterres condena invasão israelense a centro da ONU em Jerusalém Oriental

ONU denuncia ação das forças israelenses em Jerusalém Oriental como violação grave do direito internacional.
Redação NC News
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O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou nesta terça-feira (25) a entrada e a permanência de forças israelenses no Centro de Treinamento Qalandiya, administrado pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), em Kafr Aqab, Jerusalém Oriental ocupada.

A operação resultou na expulsão dos funcionários da agência e na tomada do complexo por forças israelenses. O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, participou da ação e afirmou que havia começado uma operação para retirar a UNRWA do local.

Guterres classificou a entrada como ilegal e exigiu que Israel cesse imediatamente a interferência nas instalações, desocupe o centro e devolva suas estruturas às Nações Unidas.

Invasão, expulsão de funcionários e bandeira israelense

A operação acontece na terça-feira (25), quando forças israelenses entram no complexo de Qalandiya, localizado entre o bairro de Kafr Aqab e o campo de refugiados de Qalandiya.

Mais de 50 agentes de segurança participam da operação, segundo relatos divulgados pela imprensa internacional. Funcionários da UNRWA são retirados do local e recebem ordem para não retornar. Autoridades israelenses também iniciam trabalhos para esvaziar o complexo.

Uma bandeira de Israel é hasteada dentro da instalação. Ben-Gvir, que acompanha a operação, celebra a tomada do espaço e afirma que “não há lugar” para a UNRWA em Jerusalém e em Israel.

Fontes palestinas relatam ainda que cerca de 40 funcionários e outras pessoas presentes no centro foram detidos e interrogados durante a operação.

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Guterres cobra devolução do centro à ONU

A reação de António Guterres é imediata. O porta-voz do secretário-geral, Stéphane Dujarric, afirma que a ONU está profundamente alarmada com a ação e ressalta que a operação prejudica diretamente jovens palestinos que dependem da formação profissional oferecida pela agência.

Segundo a ONU, o Centro de Treinamento Qalandiya é uma propriedade das Nações Unidas e suas instalações são protegidas contra interferências. A organização considera a entrada de forças armadas sem autorização ou consentimento da ONU inaceitável.

Guterres exige que o governo israelense interrompa imediatamente as ações contra a UNRWA, desocupe o complexo e devolva as instalações à organização.

A posição israelense é oposta. O Ministério das Relações Exteriores afirma que a Prefeitura de Jerusalém começou a trabalhar na transformação da propriedade em um complexo educacional e comunitário destinado a moradores palestinos de Kafr Aqab, com previsão de escolas, mesquita, áreas esportivas e centros de saúde.

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Centro atende centenas de jovens palestinos

O Centro de Treinamento Qalandiya não é uma instalação abandonada. Criado em 1952, ele é o mais antigo centro de formação profissional da UNRWA e oferece treinamento técnico a cerca de 340 jovens refugiados palestinos por ano.

A unidade oferece 16 especializações, incluindo eletromecânica, mecatrônica automotiva, carpintaria, alvenaria, telecomunicações e design de interiores. Segundo a própria UNRWA, cerca de 90% dos formandos conseguem emprego depois de concluir os cursos.

O complexo ocupa aproximadamente oito hectares e reúne oficinas, salas de aula, dormitórios e prédios administrativos. A agência afirma que os ativos existentes no local valem mais de US$ 5 milhões e que houve investimentos significativos na renovação das instalações nos últimos anos.

A tomada do centro, portanto, não representa apenas uma disputa patrimonial. A interrupção das atividades afeta diretamente a formação profissional de centenas de jovens palestinos.

Disputa entre Israel e UNRWA se intensifica

A operação ocorre em meio a uma escalada de medidas israelenses contra a UNRWA. Desde o início de 2026, forças israelenses já haviam entrado no Centro de Treinamento Qalandiya diversas vezes. A agência informou, no início de agosto, que aquela era sua última instalação ainda em funcionamento em Jerusalém Oriental.

Em julho, uma incursão anterior havia reunido e confinado funcionários e estudantes durante a operação, segundo a própria UNRWA. A organização classificou o episódio como uma violação da inviolabilidade das instalações das Nações Unidas.

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A agência também afirma que Israel aprovou medidas que restringem sua atuação em Jerusalém e que seis escolas da UNRWA na região foram fechadas pelas autoridades israelenses em maio de 2025, afetando cerca de 800 crianças.

O governo israelense, por sua vez, acusa a UNRWA de ter vínculos com atividades terroristas e defende a retirada da organização da região. Ben-Gvir voltou a sustentar essa posição durante a operação de terça-feira.

ONU teme precedente para outras instalações

A tomada do centro aumenta a tensão entre Israel e as Nações Unidas e abre uma disputa sobre a proteção jurídica das propriedades da organização em território palestino ocupado.

A UNRWA sustenta que o Centro de Treinamento Qalandiya permanece sob proteção das regras internacionais aplicáveis às instalações da ONU. Em comunicado anterior, a agência afirmou que qualquer fechamento ou expropriação do complexo teria impacto direto sobre a população de refugiados palestinos e levantaria sérias questões sobre as obrigações de Israel perante o direito internacional.

Para a ONU, o episódio vai além de uma disputa por um imóvel. A questão central é se forças de um Estado podem entrar, ocupar e alterar uma instalação das Nações Unidas sem o consentimento da própria organização.

A resposta de Guterres deixa clara a posição da entidade: Israel deve deixar o complexo, devolvê-lo à ONU e interromper novas interferências. Enquanto isso, o governo israelense mantém sua política de restringir a atuação da UNRWA.

O Centro de Treinamento Qalandiya tornou-se, assim, mais um ponto de choque entre Israel, a ONU e os palestinos — desta vez, em um espaço dedicado à formação profissional de jovens.

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