Foram poucos segundos entre perceber que algo estava errado e tomar uma decisão que poderia definir o desfecho de uma emergência aérea.
O piloto Gustavo Couto, de 29 anos, estava sozinho em um avião de pequeno porte quando percebeu que a aeronave havia perdido potência durante um voo entre Belo Horizonte e Bom Despacho. O avião estava em uma rota que passava pela região de Mateus Leme, na Grande BH.
Gustavo percebeu que não conseguiria manter o controle da aeronave e tomou uma decisão imediata: tirar o avião de cima da cidade.
“Tive uma perda de potência e quando vi que não teria mais controle da aeronave, tirei ela de cima da cidade de Mateus Leme e procurei um lugar melhor para um pouso de emergência.”, disse em entrevista
O avião acabou caindo em uma área de mata do Distrito de Serra Azul. Mas o pior ainda estava por vir: segundo o piloto, a aeronave começou a pegar fogo.

‘Vi que estava pegando fogo’
Gustavo tentou recuperar a potência antes de tomar a decisão mais extrema. Os procedimentos de emergência, porém, não resolveram o problema. Quando percebeu que não conseguiria evitar a queda, ele acionou o sistema de paraquedas da aeronave.
“Aí vi que estava pegando fogo, aciono o paraquedas e esperei o impacto no chão.”, conta
O equipamento reduziu a velocidade da descida e levou o avião até o solo. Assim que conseguiu chegar ao chão, Gustavo deixou a aeronave. Pouco depois, o avião foi tomado pelas chamas.
“Aí saí do avião e ele pegou fogo, porque ainda estava com muito combustível.”, disse
O piloto saiu sem ferimentos graves, mas havia respirado muita fumaça.
Sobrevivente pediu água a moradores
Depois de escapar da aeronave em chamas, Gustavo ainda precisou encontrar uma forma de conseguir ajuda. Moradores da região chegaram ao local e o levaram para atendimento médico.
O piloto conta que, naquele momento, não estava ferido, mas precisava de água por causa da fumaça e do susto.
“Eu pedi socorro não porque estava em perigo, mas para tomar água porque eu estava com a garganta seca.”, afirma
Os moradores deram água a ele, colocaram o piloto em um carro e o levaram para um posto de saúde. Depois, Gustavo foi transferido para o Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, onde permaneceu em observação por causa da inalação de fumaça. Ele recebeu alta e passa bem.
Medo e fé durante os segundos mais difíceis
Gustavo não esconde que teve medo. Dentro de uma aeronave com perda de potência, sem conseguir recuperar o controle e com um princípio de incêndio, ele precisou se concentrar nos procedimentos de emergência.
Nesse momento, conta que também se apegou à fé.
“Não é um sentimento gostoso não, é muito ruim. Toda hora pedindo a Deus para me lembrar do que precisava ser feito e para me guardar.”, disse
A decisão de mudar a trajetória antes da queda foi, segundo o próprio piloto, uma das prioridades durante a emergência. O objetivo era impedir que o avião atingisse casas ou outras áreas ocupadas.

Voo era para uma manutenção de rotina
O acidente aconteceu quando Gustavo seguia para Bom Despacho, a cerca de 160 quilômetros de Belo Horizonte. Ele havia decolado do Aeroporto da Pampulha para levar a aeronave para uma manutenção de rotina, incluindo a troca de óleo.
Segundo o piloto, outro avião fazia o mesmo trajeto e vinha logo atrás. O avião envolvido no acidente era um Cirrus SR22, de matrícula PR-VMI.
Durante o voo, houve a perda de potência. Na sequência, segundo informações preliminares, uma pequena explosão e um princípio de incêndio.
O piloto acionou o sistema de paraquedas e o avião caiu em uma área de mata em Serra Azul.
Treinamento fez diferença na hora da emergência
Gustavo trabalha com aviação há anos e recebeu a primeira habilitação para pilotar em 2015. Antes de se tornar piloto, passou por outras funções no setor. Ele também contou que recebeu treinamento específico para aquele modelo de aeronave durante meses.
“Foram vários meses voando com outro piloto do lado, fazendo todos os procedimentos, para ter esse êxito.”, explica
Foi justamente esse treinamento que ele precisou colocar em prática durante a emergência.
O acidente aconteceu às vésperas de uma data especial para Gustavo: o filho dele completa dois meses de vida nesta quarta-feira (26). Depois de receber alta, o piloto contou que estava ansioso para voltar para casa e reencontrar a família. “Estava doido para ver ele, ir lá e comemorar”, afirmou. Apesar do susto, Gustavo não pensa em deixar a aviação. Em tom de alívio, reforçou que pretende continuar voando: “E amanhã estamos pilotando de novo.”
Investigação vai apurar o que provocou a pane
A aeronave ficou destruída após a queda e o incêndio. A Força Aérea Brasileira (FAB) enviou investigadores ao local para descobrir o que provocou a perda de potência e o princípio de incêndio.
A apuração também deverá analisar as condições da aeronave e os procedimentos adotados durante a emergência.
Por enquanto, o que ficou foi o relato de um piloto que teve poucos segundos para escolher entre continuar sobrevoando a cidade ou procurar um lugar para cair — e que conseguiu sair vivo da aeronave em chamas.