A superfície dos oceanos do planeta atinge 21,1°C de média diária e registra o maior valor já observado desde o início das medições por satélite, em 1979. O recorde, medido em 22 de agosto pelo serviço europeu Copernicus, é impulsionado pelo desenvolvimento de um Super El Niño e pelo aquecimento global causado por atividades humanas.
O marco acende um alerta imediato para pesquisadores e autoridades porque ocorre fora do período em que normalmente se observam os picos anuais de calor nos mares, entre março e abril. Especialistas descrevem o cenário como uma anomalia climática de grande escala, com repercussões diretas sobre o clima, a economia costeira e a segurança de milhões de pessoas.
Recorde histórico e oceano sob pressão
Os dados do conjunto ERA5, mantido pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, mostram que a média global entre 60 graus norte e 60 graus sul supera o recorde anterior, de 21,09°C, registrado em março de 2024. A diferença de centésimos de grau, aparentemente pequena, representa um salto expressivo quando se considera a imensidão dos oceanos.
Especialistas envolvidos no monitoramento afirmam que o planeta cruza um limiar inédito. “É provável que tenhamos registrado a temperatura mais alta do mar em 125.000 anos”, avaliam. Outro grupo ligado ao centro europeu resume o diagnóstico: “Este recorde é outro sinal claro de um oceano sob crescente pressão. El Niño está adicionando calor ao sistema, mas está fazendo isso além de décadas de aquecimento causado pelo ser humano. À medida que as temperaturas dos oceanos continuam a subir, os riscos para os ecossistemas marinhos e as comunidades costeiras também aumentam.”
O pano de fundo é a função dos mares como amortecedores do aquecimento global. Estima-se que 91% do calor excedente acumulado pelo sistema climático seja absorvido pelos oceanos. Esse processo vem elevando de forma constante tanto os picos quanto o “piso” de temperatura da água, o que torna eventos extremos mais fáceis de ocorrer e mais difíceis de reverter.
Super El Niño turboalimenta aquecimento
O novo recorde ocorre enquanto um Super El Niño se organiza no Pacífico tropical e tende a se intensificar nos próximos meses. As principais agências meteorológicas apontam 95% de probabilidade de que o fenômeno atinja categoria muito forte até o fim do ano e 69% de chance de se tornar histórico, superando eventos anteriores registrados desde meados do século passado.
O El Niño é um fenômeno natural que aquece anormalmente as águas superficiais do Pacífico equatorial e altera a circulação atmosférica global. Quando se soma ao aquecimento de fundo provocado pelas emissões de gases de efeito estufa, o resultado é um empurrão extra sobre o termômetro dos oceanos e sobre a frequência de extremos climáticos. A combinação atual, segundo climatologistas, explica por que a temperatura média do mar dispara em um momento em que, em décadas passadas, o normal seria uma fase mais fria.
Esse excesso de calor na superfície oceânica intensifica a transferência de energia e umidade para a atmosfera. Na prática, cria combustível adicional para ondas de calor, tempestades mais intensas, chuvas torrenciais em algumas regiões e secas agravadas em outras, num efeito dominó que se espalha por continentes inteiros.
Impactos no Brasil: costas mais vulneráveis
No Brasil, o aquecimento dos oceanos já se traduz em preocupação reforçada nas áreas costeiras. Estados como Santa Catarina e Rio de Janeiro, diretamente influenciados pelas condições do Atlântico Sul, observam maior risco de ressacas, elevação do nível do mar em episódios de maré alta, alagamentos e deslizamentos em encostas ocupadas.
O calor extra na água empurra mais vapor para a atmosfera, o que pode intensificar temporais de verão e episódios de chuvas concentradas em curtos períodos. Ao mesmo tempo, altera a distribuição das chuvas em outras regiões do país, com possibilidade de estiagens prolongadas no interior, afetando reservatórios, agricultura e abastecimento.
Setores econômicos ligados ao mar sentem os efeitos de forma direta. A pesca artesanal e industrial enfrenta mudanças na distribuição de cardumes, enquanto a aquicultura lida com maior estresse térmico sobre espécies cultivadas. Recifes de coral e prados de ervas marinhas, que sustentam cadeias alimentares inteiras, sofrem com episódios de branqueamento e mortalidade, reduzindo estoques pesqueiros e a resiliência dos ecossistemas.
Pressão global e corrida por adaptação
Organismos como a Organização Meteorológica Mundial e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos veem o novo recorde como peça central de um quadro mais amplo de emergência climática. Temperaturas tão altas nos mares alteram rotas de tempestades, interferem na formação de ciclones tropicais e modulam ondas de calor em continentes, com reflexos na segurança alimentar, na saúde pública e na infraestrutura.
O avanço do aquecimento oceânico também pressiona negociações internacionais sobre clima. Países costeiros vulneráveis cobram compromissos mais ambiciosos de redução de emissões e financiamento para adaptação, enquanto grandes emissores são instados a acelerar a transição energética. O recorde de 21,1°C torna mais difícil sustentar a ideia de que ainda há tempo para medidas graduais.
Governos nacionais e locais são empurrados para decisões imediatas em planejamento urbano, ocupação de encostas, proteção de manguezais e recifes, fortalecimento da defesa civil e criação de sistemas de alerta precoce. A janela para reduzir riscos sem custos sociais exorbitantes se estreita à medida que o oceano, aquecido, devolve à atmosfera o calor acumulado ao longo de décadas.
Os próximos meses, com a provável intensificação do Super El Niño, são decisivos para medir a extensão dos impactos desse novo patamar térmico dos oceanos. Cientistas alertam que o número de extremos climáticos tende a aumentar nesse período. A questão que se coloca para autoridades e sociedade é se as respostas institucionais e econômicas conseguirão acompanhar a velocidade com que o mar, silenciosamente, muda de estado.
Como o fenômeno El Niño está influenciando a temperatura dos oceanos atualmente?
O El Niño atualmente em desenvolvimento no Pacífico tropical aquece anormalmente as águas superficiais dessa região, adicionando calor a um oceano que já está mais quente por causa das emissões humanas e elevando a temperatura média global dos mares para o recorde de 21,1°C medido em 22 de agosto.
Quais regiões do Brasil estão mais afetadas pelo aumento da temperatura do mar?
As regiões costeiras de Santa Catarina, Rio de Janeiro e outros trechos do litoral brasileiro estão mais afetadas pelo aumento da temperatura do mar, com maior risco de ressacas, alagamentos, deslizamentos e mudanças na distribuição de peixes, além de impactos em atividades ligadas ao turismo, à pesca e à aquicultura.
Por que especialistas dizem que essa pode ser a temperatura mais alta do mar em 125.000 anos?
A marca de 21,1°C na média diária dos oceanos, registrada em 22 de agosto, supera todos os valores medidos desde 1979 e, cruzada com dados paleoclimáticos, leva especialistas a afirmar que é provável estarmos diante da temperatura mais alta do mar em cerca de 125.000 anos, período sem registros de calor semelhante.
Quais os impactos do aquecimento recorde dos oceanos para o clima global?
O aquecimento recorde dos oceanos para 21,1°C aumenta a transferência de calor e umidade à atmosfera, intensifica ondas de calor, tempestades, chuvas extremas e secas, altera rotas de ciclones, afeta ecossistemas marinhos e pressiona cadeias produtivas, com reflexos diretos em segurança hídrica, produção de alimentos, saúde pública e infraestrutura.
Como a temperatura do mar no Atlântico e no Pacífico está se comportando diante do El Niño extremo?
A temperatura do mar no Pacífico tropical sobe de forma anormal por causa do El Niño, enquanto o Atlântico também registra aquecimento acima do padrão recente, e a combinação desses dois oceanos mais quentes empurra a média global para 21,1°C, reforçando extremos climáticos e aumentando riscos em costas como as do Brasil.