Kim Jong-un deixa isolamento de lado e vira peça-chave no jogo entre Rússia, China e Estados Unidos

Ao fornecer armas e tropas para Moscou, reformar a cúpula militar e manter aberta a porta para Donald Trump, líder norte-coreano amplia o poder de barganha de Pyongyang em um cenário cada vez mais tenso
Redação NC News
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Kim Jong-un já não ocupa apenas o papel de líder de um dos países mais isolados do mundo. A Coreia do Norte passou a ter um peso maior nas disputas entre Rússia, China e Estados Unidos, principalmente depois de ampliar sua cooperação militar com Moscou e estreitar os contatos estratégicos com Pequim. Ao mesmo tempo, Pyongyang mantém seu programa de mísseis e armas nucleares como instrumento de pressão sobre Washington e Seul.

A mudança ganhou um novo capítulo neste domingo (30), quando Kim promoveu uma remodelação importante na cúpula militar norte-coreana. Kim Song-gi foi nomeado ministro da Defesa no lugar de No Kwang-chol, enquanto o veterano Pak Jong-chon voltou à vice-presidência da Comissão Militar Central. A troca aconteceu durante uma reunião comandada pelo próprio Kim Jong-un e coincidiu com homenagens a cientistas envolvidos no desenvolvimento de novos sistemas de armas.

 

 

Da guerra na Ucrânia ao novo peso de Pyongyang

A Coreia do Norte continua sendo um dos países mais pobres e fechados do planeta, mas sua capacidade militar ganhou valor estratégico justamente porque Rússia, China e Estados Unidos estão envolvidos em uma disputa cada vez mais ampla. A guerra na Ucrânia transformou o arsenal de Pyongyang em uma moeda de troca importante para o regime de Kim.

Desde 2023, a Coreia do Norte fornece munições e outros equipamentos militares à Rússia. Estimativas de inteligência e estudos sul-coreanos apontam que os envios incluem milhões de projéteis de artilharia e mísseis balísticos de curto alcance. A inteligência militar ucraniana chegou a estimar que os armamentos norte-coreanos representam aproximadamente metade dos projéteis de artilharia utilizados pela Rússia em determinados períodos do conflito.

O envolvimento também passou do fornecimento de armas para a presença de tropas. Avaliações sul-coreanas citadas por especialistas indicam que cerca de 16 mil militares norte-coreanos já foram enviados para a região russa de Kursk, enquanto autoridades e serviços de inteligência discutem a possibilidade de novos contingentes. Em agosto, estimativas internacionais chegaram a apontar que Pyongyang poderia enviar dezenas de milhares de soldados adicionais para apoiar Moscou.

Para Kim, a parceria tem valor que vai muito além do campo de batalha. Um estudo do Instituto de Estratégia de Segurança Nacional da Coreia do Sul estimou que armas e tropas fornecidas à Rússia entre agosto de 2023 e dezembro de 2025 poderiam representar entre US$ 7,67 bilhões e US$ 14,4 bilhões em valor. O cálculo inclui principalmente munições e a participação de militares norte-coreanos, e não significa que todo esse montante tenha sido pago em dinheiro.

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Moscou se aproxima e Pequim precisa reagir

A aproximação com Vladimir Putin alterou uma relação que durante décadas foi dominada pela dependência econômica da China. Pequim continua sendo essencial para a sobrevivência do regime norte-coreano, mas Moscou passou a oferecer a Kim algo que vai além de alimentos, energia e comércio: acesso a recursos, tecnologia militar e uma parceria estratégica construída em torno da guerra.

O resultado é uma posição diplomática mais confortável para Pyongyang. Kim não precisa escolher entre Moscou e Pequim. Ao contrário, pode explorar a competição entre os dois países para buscar vantagens simultâneas.

A relação com a Rússia também elevou o valor político de Kim. O líder norte-coreano passou a receber maior atenção de grandes potências e conseguiu transformar sua capacidade militar, antes vista principalmente como uma ameaça regional, em um instrumento de negociação internacional.

Esse movimento não significa que a Coreia do Norte tenha deixado de depender da China. O país continua economicamente vulnerável e sujeito a sanções internacionais. A novidade é que Kim ganhou uma segunda fonte relevante de apoio estratégico justamente no momento em que Moscou precisa de munições e pessoal para sustentar uma guerra prolongada.

 

 

Trump reduz exercícios, mas a tensão não desaparece

Do outro lado do tabuleiro está Donald Trump. O presidente americano ordenou neste mês que o Pentágono reduzisse significativamente os exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul, citando o custo das operações e sua relação positiva com Kim Jong-un. O tradicional exercício Ulchi Freedom Shield foi encurtado de 11 para cinco dias.

Trump também afirmou que pretende voltar a se encontrar com Kim ainda neste ano. O presidente americano disse que recebeu uma resposta às suas tentativas de aproximação e voltou a destacar que possui uma boa relação pessoal com o líder norte-coreano.

O gesto, porém, não produziu uma abertura diplomática clara. Kim Yo-jong, irmã do líder norte-coreano e uma das principais figuras políticas do regime, afirmou que desconhecia qualquer comunicação recente entre os dois governos e deixou claro que a política considerada hostil por Pyongyang continua sendo um problema. Ao mesmo tempo, reconheceu que a relação pessoal entre Trump e Kim é positiva.

Na prática, Pyongyang parece disposto a preservar a possibilidade de diálogo sem abrir mão de sua estratégia militar. É justamente essa combinação que torna a posição de Kim mais difícil de administrar para Washington: o líder norte-coreano pode manter o canal político aberto enquanto continua ampliando seu arsenal.

 

 

Washington arma Seul e envia uma mensagem ao Norte

Enquanto Trump reduz parte das manobras militares, os Estados Unidos continuam fortalecendo a capacidade de defesa da Coreia do Sul. Em agosto, Washington aprovou uma possível venda de US$ 125 milhões em equipamentos que incluem 103 mísseis AIM-9X Sidewinder Block II e dez unidades de orientação, além de peças, treinamento e suporte.

A decisão provocou uma reação imediata de Pyongyang. O Ministério das Relações Exteriores norte-coreano classificou a venda como uma nova ameaça ao ambiente de segurança e prometeu uma resposta considerada séria e poderosa. O governo de Kim também voltou a acusar Washington de manter uma política hostil contra o país.

A aparente contradição é reveladora. Washington tenta abrir espaço para uma conversa direta com Kim, mas simultaneamente reforça a capacidade militar de Seul. Para os Estados Unidos, as duas estratégias podem coexistir: diplomacia para tentar limitar o programa nuclear e dissuasão militar para impedir uma escalada enquanto as negociações não avançam.

 

 

Kim troca o ministro da Defesa e reforça o complexo militar

A remodelação anunciada em Pyongyang neste domingo mostra que Kim Jong-un não está diminuindo a prioridade dada às Forças Armadas. Kim Song-gi, que comandava o Gabinete Político Geral do Exército Popular da Coreia, foi escolhido como novo ministro da Defesa. No Kwang-chol, que ocupava o cargo, foi transferido para uma posição de alto escalão no Departamento da Indústria de Munições do Partido dos Trabalhadores.

A mudança é especialmente significativa porque o antigo ministro não simplesmente deixou o governo. Ele foi deslocado para uma estrutura diretamente ligada ao setor de munições, enquanto Kim promoveu cientistas e pesquisadores responsáveis pelo desenvolvimento de novos sistemas de armas.

O veterano Pak Jong-chon também voltou a ocupar a vice-presidência da Comissão Militar Central, reforçando a presença de um dos principais estrategistas militares do regime na estrutura de comando. A agência estatal norte-coreana descreveu a reunião como parte de uma reorganização destinada a melhorar e desenvolver as capacidades de defesa do país.

O movimento sugere que a modernização militar continua no centro da estratégia de Kim. Em vez de usar a aproximação com Moscou como motivo para reduzir a tensão regional, Pyongyang parece aproveitar os novos recursos e relações para ampliar sua capacidade de defesa e de dissuasão.

 

 

O jogo de Kim é maior do que a Coreia

A importância de Kim Jong-un aumentou porque os interesses das três grandes potências passaram a se cruzar ao redor da Coreia do Norte. A Rússia precisa de munições e soldados para sustentar sua guerra contra a Ucrânia. A China busca preservar sua influência sobre Pyongyang sem permitir que Moscou ocupe completamente esse espaço. E os Estados Unidos tentam impedir que a aproximação entre Rússia, China e Coreia do Norte se transforme em um bloco militar ainda mais coordenado na Ásia.

O próprio cenário militar da região mostra como essa disputa está longe de uma solução. Mesmo depois da redução do principal exercício americano-sul-coreano, Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão anunciaram uma nova edição do exercício trilateral Freedom Edge para setembro. A operação deve envolver atividades marítimas, aéreas e de defesa contra mísseis, mostrando que a cooperação militar entre Washington e seus aliados continua ativa.

Isso significa que a estratégia de Trump não eliminou a lógica de contenção. Apenas mudou parte de sua forma. Ao mesmo tempo em que tenta construir uma relação pessoal com Kim, Washington mantém alianças e equipamentos militares capazes de responder a uma eventual escalada.

 

Quem ganha com esse novo equilíbrio?

No curto prazo, Kim Jong-un parece ser um dos principais beneficiados. A Coreia do Norte continua submetida a sanções e enfrenta graves limitações econômicas, mas passou a ter algo que pode vender ou negociar com diferentes parceiros: capacidade militar.

A Rússia ganha munições, mísseis e tropas para sua guerra. A Coreia do Norte recebe recursos, acesso a tecnologias e maior relevância diplomática. A China mantém sua influência sobre Pyongyang, mas precisa lidar com a presença crescente de Moscou. E os Estados Unidos são obrigados a administrar simultaneamente a ameaça nuclear norte-coreana, a segurança da Coreia do Sul e a aproximação entre Pyongyang e Moscou.

O risco está justamente nessa sobreposição de interesses. Quanto mais a Coreia do Norte se integra ao esforço militar russo e quanto mais sofisticado fica seu arsenal, maior tende a ser o preço político de qualquer negociação futura.

Para Kim, entretanto, esse pode ser exatamente o objetivo. Um país mais armado é um país com mais poder de barganha. E um líder que consegue conversar com Washington enquanto mantém relações militares com Moscou e vínculos estratégicos com Pequim passa a ter mais opções para escolher de onde virá sua próxima concessão.

O desafio para os próximos meses será saber até onde esse jogo pode avançar sem provocar uma reação maior. Novos testes de mísseis, mais cooperação militar com a Rússia e uma eventual retomada do contato direto entre Trump e Kim podem colocar a Península Coreana novamente no centro da diplomacia internacional.

 

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Entenda o contexto

A Coreia do Norte passou décadas isolada diplomaticamente e submetida a amplas sanções por causa de seu programa nuclear e de mísseis. A guerra entre Rússia e Ucrânia, porém, criou uma oportunidade inédita para Kim Jong-un transformar sua capacidade militar em influência internacional.

Desde 2023, Pyongyang fornece munições e outros equipamentos para Moscou e, posteriormente, enviou tropas para apoiar as forças russas. Estudos recentes estimam que o valor dos armamentos e da participação militar norte-coreana pode chegar a dezenas de bilhões de dólares, embora grande parte das transações ocorra por meio de trocas e benefícios indiretos.

Ao mesmo tempo, Kim mantém relações estratégicas com a China e tenta preservar a possibilidade de negociação com os Estados Unidos. Donald Trump sinaliza interesse em um novo encontro, mas Pyongyang não abandonou sua política de fortalecimento militar e continua tratando a presença americana na região como uma ameaça.

A remodelação da cúpula militar anunciada em 30 de agosto reforça essa tendência. A troca do ministro da Defesa, o retorno de Pak Jong-chon à Comissão Militar Central e a valorização de pesquisadores de armas indicam que Kim pretende continuar usando o poder militar como uma das principais ferramentas de sobrevivência e negociação do regime.

O resultado é um cenário no qual a Coreia do Norte deixou de ser apenas um problema regional da Península Coreana. A guerra na Ucrânia, a disputa entre Estados Unidos e China e a necessidade russa de apoio militar fizeram de Kim Jong-un um personagem cada vez mais relevante no equilíbrio estratégico da Eurásia.

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