Uma holding que movimentava recursos pelo sistema bancário formal é apontada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro como uma peça central no suposto esquema financeiro ligado à organização criminosa atribuída ao contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho. Segundo a investigação, a estrutura teria sido usada para ocultar a origem de dinheiro e abastecer uma rede suspeita de financiar operações criminosas, incluindo homicídios.
O rastreamento das contas levou os investigadores a centenas de depósitos em espécie, transferências para pessoas apontadas como integrantes da organização e movimentações consideradas incompatíveis ou sem justificativa econômica aparente. Adilsinho nega as acusações e afirma, por meio da defesa, que desconhece a empresa e as transações mencionadas pela investigação.
Holding é apontada como “motor financeiro” do esquema
De acordo com o relatório final da investigação sobre o assassinato do advogado Rodrigo Marinho Crespo, a Fictor Holding teria desempenhado um papel importante na circulação de recursos associados à organização investigada.
A Polícia Civil analisou movimentações realizadas entre janeiro de 2023 e 31 de maio de 2024. Segundo os investigadores, a empresa recebeu mais de 200 depósitos em dinheiro, principalmente em agências bancárias localizadas em Duque de Caxias e Belford Roxo, na Baixada Fluminense.
A maioria dos depósitos era inferior a R$ 10 mil. Para a polícia, o padrão pode indicar o chamado “smurfing”, prática em que grandes quantias são divididas em depósitos menores para dificultar a identificação da origem e do destino final dos recursos.
O ponto central da investigação é o caminho percorrido pelo dinheiro depois da entrada no sistema bancário. Os investigadores afirmam ter identificado transferências para pessoas ligadas, segundo a apuração, à estrutura operacional da organização criminosa.
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Transferências chegam a homens investigados por homicídios
Um dos nomes citados no rastreamento é o de Evandro Marques da Silva, conhecido como Magrinho. Segundo a Polícia Civil, ele recebeu R$ 1,186 milhão da holding durante o período analisado.
A investigação aponta que parte dos recursos movimentados teria sido utilizada para manter a estrutura logística de homicídios atribuídos à organização. Da conta de Magrinho também saíram mais de R$ 330 mil destinados a uma distribuidora de bebidas que, segundo a polícia, pode ter sido utilizada como mais uma etapa para circulação e ocultação de dinheiro.
Outro nome citado é Uanderson Costa de Souza, conhecido como PQD. A apuração aponta que ele recebeu pelo menos R$ 38,8 mil da holding entre janeiro de 2023 e maio de 2024 e posteriormente devolveu parte dos recursos em transações que, segundo os investigadores, não apresentavam justificativa clara.
A Polícia Civil aponta PQD como um dos integrantes do núcleo de execução da organização investigada. As acusações e suspeitas ainda fazem parte das apurações e devem ser analisadas no andamento dos processos e investigações.
Dinheiro também teria passado por bares e empresas
Os investigadores identificaram ainda movimentações envolvendo estabelecimentos comerciais de menor porte. Um bar localizado na Avenida Perimetral, em Duque de Caxias, por exemplo, teria recebido mais de R$ 500 mil em créditos em 2023, apesar de apresentar faturamento mensal médio estimado em cerca de R$ 20 mil.
Para a Polícia Civil, a diferença entre o volume movimentado e a atividade econômica aparente levantou suspeitas de que o estabelecimento pudesse funcionar como uma “conta de passagem”, expressão usada para descrever empresas utilizadas apenas como intermediárias na circulação de recursos.
A investigação trabalha justamente com a hipótese de uma estrutura fragmentada, em que diferentes empresas e pessoas físicas receberiam, transfeririam e redistribuiriam valores, tornando mais difícil identificar a origem inicial do dinheiro.
Investigação conecta esquema ao assassinato de advogado
O aprofundamento da análise financeira ocorre no contexto da investigação sobre a morte do advogado Rodrigo Marinho Crespo, assassinado a tiros no Centro do Rio em fevereiro de 2024.
O Ministério Público do Rio denunciou Adilsinho e outros investigados pelo crime. A acusação sustenta que o contraventor teria ordenado o assassinato, hipótese negada por sua defesa. Adilsinho se tornou réu no processo, mas isso não representa condenação definitiva.
Segundo o Ministério Público, o assassinato teria relação com interesses econômicos ligados ao mercado de apostas. A investigação trata o crime como parte de uma disputa envolvendo negócios e a atuação da organização criminosa atribuída ao grupo.

Policiais e seguranças aparecem no caminho do dinheiro
O relatório também aponta pagamentos a pessoas que teriam exercido funções de segurança para integrantes da organização. Entre os nomes citados está um policial militar que teria recebido valores relacionados a diárias, escalas e despesas logísticas.
Outro investigado mencionado é Rafael do Nascimento Dutra, conhecido como Sem Alma, ex-policial militar expulso da corporação e alvo de investigações por homicídios. Segundo a apuração, ele recebeu recursos que teriam passado pela estrutura financeira investigada.
A Polícia Civil tenta agora estabelecer com precisão qual era a função de cada pessoa no caminho do dinheiro e se todas as movimentações tinham relação direta com crimes investigados. O rastreamento financeiro é uma das principais frentes para identificar quem administrava, recebia e distribuía os recursos.
Defesas contestam as acusações
A defesa de Adilsinho afirmou que o contraventor desconhece a empresa citada na investigação e as transações financeiras relacionadas ao caso. Em nota, o advogado Ricardo Braga declarou que o cliente considera as acusações infundadas e reafirma inocência.
A Fictor informou que os pagamentos mencionados ocorreram entre 2023 e 2024 por meio do sistema bancário regular e no contexto das relações mantidas pela companhia com os respectivos beneficiários. A empresa também afirmou que adotava procedimentos de compliance aplicáveis às operações.
Até a conclusão das investigações e o julgamento dos processos, os envolvidos têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
O caso agora amplia a pressão sobre os investigadores para responder a uma pergunta central: se a estrutura empresarial apontada no relatório era realmente usada para dar aparência de legalidade ao dinheiro, quem controlava cada etapa desse caminho financeiro?
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Entenda o contexto
Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, é apontado por investigações como uma das lideranças da chamada nova cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro e também aparece em apurações relacionadas ao comércio ilegal de cigarros e à lavagem de dinheiro.
Nos últimos meses, diferentes operações passaram a investigar a estrutura financeira atribuída ao grupo. Documentos apreendidos, planilhas e movimentações bancárias levaram investigadores a analisar empresas que poderiam ter sido utilizadas para movimentar recursos e ocultar sua origem.
O novo relatório da Polícia Civil concentra atenção na Fictor Holding e no caminho percorrido por valores que, segundo os investigadores, chegaram a pessoas apontadas como integrantes da organização. A suspeita mais grave é que parte dessa estrutura financeira tenha ajudado a custear a logística de homicídios.
A investigação continua, e as conclusões apresentadas pela polícia ainda podem gerar novos desdobramentos criminais e financeiros. As acusações são contestadas pelas defesas dos envolvidos e deverão ser submetidas ao contraditório e às decisões da Justiça.
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