O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lança hoje, em São Paulo, o Desenrola 3.0, programa que promete comprar dívidas de famílias com desconto de até 90% para facilitar a quitação.
A nova etapa mira débitos atrasados entre 2 e 4,5 anos e pode alcançar milhões de brasileiros negativados, num momento em que o país se aproxima do primeiro turno das eleições marcado para 4 de outubro.
Como vai funcionar a compra das dívidas
O governo passa a atuar como comprador direto das carteiras de crédito inadimplidas de pessoas físicas. Em vez de o devedor negociar banco a banco, a União arremata os créditos em leilões e repassa o desconto integralmente às famílias.
“As pessoas antes tinham que procurar um banco. Agora, o governo vai comprar a dívida das pessoas”, afirma Lula, durante o anúncio. O presidente define o programa como uma versão mais robusta das iniciativas anteriores, porque coloca o Estado no centro da negociação com os credores.
O alvo inicial são dívidas de cartão de crédito rotativo e parcelado, além de crédito pessoal sem consignação em folha. Só entram no pacote débitos com atraso superior a 720 dias e inferior a 1.645 dias, o que corresponde a algo entre 2 e 4 anos e meio.
O Ministério da Fazenda calcula que o universo de dívidas elegíveis some cerca de R$ 300 bilhões. A intenção do governo é comprar aproximadamente metade desse montante, em torno de R$ 150 bilhões, condicionados ao apetite dos bancos e demais credores em aceitar grandes descontos.
Leilões em novembro e conta de R$ 15 bilhões
Os leilões devem começar em novembro. A execução pode ficar a cargo do Tesouro Nacional ou de uma instituição financeira federal, como Caixa Econômica Federal ou Banco do Brasil, com a possibilidade de uso de fundos de investimento em direitos creditórios para estruturar as operações.
Os credores disputarão os leilões oferecendo o maior deságio sobre a carteira. Para participar, terão de entregar a totalidade das dívidas de cada devedor contemplado, sem poder selecionar apenas os contratos mais vantajosos. Vence quem oferecer o maior desconto médio.
O governo projeta obter deságios da ordem de 90% sobre o valor original das dívidas adquiridas. Nesse cenário, o custo líquido estimado para os cofres públicos fica em torno de R$ 15 bilhões, distribuídos entre os orçamentos de 2027 e 2028.
“O Desenrola 3.0 terá impacto primário nas contas públicas. A despesa está sujeita às regras fiscais vigentes, sem qualquer exceção”, afirma o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti. Ele insiste que não haverá brecha fora do arcabouço fiscal para acomodar a medida.
Moretti admite que o tamanho final da operação ainda é uma incógnita. “O volume final da dívida negociada e o percentual exato de deságio só serão conhecidos após a realização do 1º leilão”, diz o ministro. A adesão dos bancos e de outras instituições financeiras será determinante para definir o alcance do programa.
Quem pode ser beneficiado e como será a renegociação
O desconto obtido pela União será repassado integralmente ao devedor. Quem tiver a dívida comprada poderá liquidá-la à vista com o mesmo deságio do leilão ou parcelar o saldo restante com juros mais baixos, em condições que ainda serão fixadas pelo Conselho Monetário Nacional.
O programa é voltado a dívidas bancárias e não bancárias de até R$ 10 mil, no valor original, e permitirá leilões segmentados por tipo de crédito ao longo de 2026, 2027 e 2028. Caberá ao Ministério da Fazenda definir critérios adicionais de renda e priorização, o que pode direcionar o foco para as faixas de menor renda.
Um levantamento do Tesouro Nacional indica que 83,9 milhões de pessoas estão negativadas por dívidas em atraso de até cinco anos, somando R$ 592 bilhões. Desses débitos, 55% não são bancários, como contas de água, luz, telefonia e varejo, e 20% se referem diretamente a serviços de água, luz e energia.
Na prática, o Desenrola 3.0 concentra a primeira rodada em dívidas bancárias de cartão e crédito pessoal, mas abre a porta para que contas de consumo e outros débitos não bancários também entrem nos leilões seguintes, caso as carteiras sejam ofertadas com deságios competitivos.
Efeito nas famílias, nos bancos e na política
Para as famílias, a principal promessa é a chance concreta de sair do cadastro de inadimplentes. Com descontos que podem chegar a 90%, dívidas que se tornaram impagáveis, especialmente as de cartão de crédito, voltam a caber no bolso de quem está há anos fora do mercado formal de crédito.
O governo sustenta que a medida tem forte impacto social e econômico. Ao reduzir o endividamento, a equipe econômica espera destravar o consumo e favorecer setores como comércio e serviços, que dependem da renda disponível das famílias para crescer.
O setor financeiro, por sua vez, abre mão de parte significativa do valor contábil das carteiras, mas ganha liquidez imediata. Créditos considerados de difícil recuperação retornam em forma de caixa, ainda que com forte perda. A decisão de aderir ou não aos leilões vai depender do cálculo individual de cada instituição.
Nos bastidores, já se prevê disputa em torno do tamanho dos descontos. Parte dos bancos tende a pressionar por deságios menores, enquanto o governo buscará empurrar o patamar o mais perto possível dos 90% estimados, para maximizar o benefício às famílias e reduzir o risco de desequilíbrio fiscal.
O anúncio ocorre a poucos dias do primeiro turno das eleições. Lula, ao dizer que “é o governo que vai comprar dívida e vai acertar a vida das pessoas”, reforça o caráter simbólico da medida num país em que o crédito caro e a inadimplência crônica se tornam tema cotidiano de campanha.
Críticos já levantam o debate sobre o chamado moral hazard, a possibilidade de que a expectativa de novos programas no futuro estimule parte dos consumidores a atrasar contas hoje. A equipe econômica responde que os critérios de elegibilidade e o foco em dívidas antigas, entre 2 e 4,5 anos de atraso, reduzem esse risco.
Nos próximos meses, o termômetro do programa será a participação dos bancos no primeiro leilão de novembro e a velocidade com que o desconto chegará, de fato, ao consumidor. A partir daí, ficará mais claro se o Desenrola 3.0 será lembrado como alívio estrutural para o endividamento ou como uma intervenção pontual em ano eleitoral.
Quem terá direito ao Desenrola 3.0?
O Desenrola 3.0 contempla pessoas físicas com dívidas bancárias e não bancárias de até R$ 10 mil, em valor original, com atraso entre 2 e 4,5 anos, incluindo cartão de crédito rotativo e parcelado e crédito pessoal sem consignação; critérios adicionais de renda e prioridade serão definidos pelo Ministério da Fazenda.
Como a dívida será renegociada pelo Desenrola 3.0?
No Desenrola 3.0, o governo compra a carteira em leilão com grandes descontos e repassa integralmente o deságio ao devedor, que poderá quitar o débito à vista com até 90% de abatimento ou parcelar o saldo restante com juros menores, em condições que o Conselho Monetário Nacional ainda vai estabelecer.