Lula levou a eleição para a ONU e transforma soberania em argumento eleitoral. Na reta final da campanha, o discurso internacional do presidente encontrou uma disputa doméstica: de um lado, Lula apresenta a soberania como linha de defesa do Brasil; do outro, a aproximação de Eduardo Bolsonaro com o governo Trump alimenta a narrativa de interferência externa. Nos bastidores, até a campanha de Flávio demonstra preocupação com o efeito eleitoral dessa pressão.
O discurso do presidente Lula na Assembleia Geral da ONU não foi de política externa. Foi de campanha eleitoral com endereço certo.
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Entenda o que aconteceu
Já se esperava que o tema da interferência estrangeira chegaria ao púlpito de Nova York, e chegou. Lula não pronunciou o nome de Trump, mas o recado foi suficientemente alto para não precisar.
O contexto é conhecido nos bastidores: Eduardo Bolsonaro, foragido da Justiça brasileira nos Estados Unidos, esteve reunido com autoridades do Departamento de Estado americano para pedir a aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do STF, notadamente Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes.
O argumento de Eduardo Bolsonaro sobre a eleição
O argumento construído por Eduardo é que, em caso de não reconhecimento de uma eventual vitória de seu irmão, Flávio Bolsonaro, o governo Trump teria carta branca para não reconhecer o resultado eleitoral e aplicar sanções individuais aos integrantes da Corte.
A rachadura dentro do campo bolsonarista
O que os bastidores revelam com mais precisão é a rachadura dentro do próprio campo bolsonarista. Na contramão do irmão, Flávio Bolsonaro rechaçou publicamente a ideia de interferência externa e negou tratativas com Washington sobre o pleito.
A campanha do presidenciável teme, segundo fontes do entorno, que a ofensiva de Eduardo contamine a estratégia de aproximação com o STF que vem sendo construída nos bastidores. Pedir sanção a ministros do tribunal enquanto se disputa uma eleição que passa pelo crivo desse mesmo tribunal é um risco político de difícil gestão.
Lula aproveita a janela aberta por Eduardo
Lula leu a janela e entrou por ela. No discurso da Assembleia Geral, o presidente defendeu a soberania brasileira e criticou o que chamou de investidas neocoloniais, arrancando aplausos da plateia.
A narrativa é simples e eficaz para o eleitorado petista: de um lado, um presidente que defende o Brasil no fórum mais representativo do multilateralismo; do outro, um adversário cujo irmão circula em Washington pedindo punições estrangeiras a membros do Judiciário nacional.
A aposta calculada da campanha petista
A campanha petista aposta no relacionamento construído entre Lula e Trump para conter medidas mais concretas de interferência. O movimento é calculado: explorar o ruído sem escalar o conflito a ponto de provocar uma resposta americana que fuja do controle narrativo.
A aposta eleitoral de Lula é que a equação “defensor do Brasil versus quem serve ao imperialismo americano” ressoa melhor do que qualquer argumento programático. Se vai colar no eleitorado que ainda oscila, os bastidores políticos terão a resposta nas urnas de outubro.
Entenda o contexto
O embate ocorre durante a 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, cujo Debate Geral começou em 22 de setembro, em Nova York. Como ocorre tradicionalmente, o Brasil abriu os discursos dos Estados-membros, seguido pelos Estados Unidos.
A defesa da soberania entrou no centro da manifestação brasileira em um momento de tensão entre instituições do país e integrantes do governo norte-americano. No discurso, Lula associou ataques à soberania, interferências em assuntos internos e sanções unilaterais ao enfraquecimento do multilateralismo e das instituições democráticas.
O pano de fundo é a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O deputado passou a defender publicamente medidas contra autoridades brasileiras e buscou interlocução em Washington em meio ao confronto entre aliados de Jair Bolsonaro e integrantes do Supremo Tribunal Federal.
A Lei Magnitsky, citada nesse movimento, é uma legislação dos Estados Unidos que permite ao governo norte-americano impor sanções a estrangeiros, incluindo restrições financeiras e migratórias, em determinadas situações envolvendo acusações de corrupção ou graves violações de direitos humanos.
A ofensiva também passou a ter impacto na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Enquanto Eduardo mantém a pressão sobre autoridades brasileiras a partir dos Estados Unidos, Flávio procura separar sua candidatura de qualquer possibilidade de interferência estrangeira no processo eleitoral.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, a discussão sobre soberania deixou de ficar restrita às relações diplomáticas e passou a integrar diretamente a disputa de narrativas entre governo e oposição.