Lula transforma discurso na ONU em arma eleitoral contra aproximação de Eduardo Bolsonaro

Presidente defendeu soberania na Assembleia Geral, enquanto Eduardo pede sanções da Lei Magnitsky contra ministros do STF e Flávio Bolsonaro tenta se distanciar da ofensiva do irmão
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Lula levou a eleição para a ONU e transforma soberania em argumento eleitoral. Na reta final da campanha, o discurso internacional do presidente encontrou uma disputa doméstica: de um lado, Lula apresenta a soberania como linha de defesa do Brasil; do outro, a aproximação de Eduardo Bolsonaro com o governo Trump alimenta a narrativa de interferência externa. Nos bastidores, até a campanha de Flávio demonstra preocupação com o efeito eleitoral dessa pressão.

O discurso do presidente Lula na Assembleia Geral da ONU não foi de política externa. Foi de campanha eleitoral com endereço certo.

LEIA MAIS:

Lula na ONU defende soberania e reage a pressões externas

Entenda o que aconteceu

Já se esperava que o tema da interferência estrangeira chegaria ao púlpito de Nova York, e chegou. Lula não pronunciou o nome de Trump, mas o recado foi suficientemente alto para não precisar.

O contexto é conhecido nos bastidores: Eduardo Bolsonaro, foragido da Justiça brasileira nos Estados Unidos, esteve reunido com autoridades do Departamento de Estado americano para pedir a aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do STF, notadamente Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes.

O argumento de Eduardo Bolsonaro sobre a eleição

O argumento construído por Eduardo é que, em caso de não reconhecimento de uma eventual vitória de seu irmão, Flávio Bolsonaro, o governo Trump teria carta branca para não reconhecer o resultado eleitoral e aplicar sanções individuais aos integrantes da Corte.

A rachadura dentro do campo bolsonarista

O que os bastidores revelam com mais precisão é a rachadura dentro do próprio campo bolsonarista. Na contramão do irmão, Flávio Bolsonaro rechaçou publicamente a ideia de interferência externa e negou tratativas com Washington sobre o pleito.

A campanha do presidenciável teme, segundo fontes do entorno, que a ofensiva de Eduardo contamine a estratégia de aproximação com o STF que vem sendo construída nos bastidores. Pedir sanção a ministros do tribunal enquanto se disputa uma eleição que passa pelo crivo desse mesmo tribunal é um risco político de difícil gestão.

Lula aproveita a janela aberta por Eduardo

Lula leu a janela e entrou por ela. No discurso da Assembleia Geral, o presidente defendeu a soberania brasileira e criticou o que chamou de investidas neocoloniais, arrancando aplausos da plateia.

A narrativa é simples e eficaz para o eleitorado petista: de um lado, um presidente que defende o Brasil no fórum mais representativo do multilateralismo; do outro, um adversário cujo irmão circula em Washington pedindo punições estrangeiras a membros do Judiciário nacional.

A aposta calculada da campanha petista

A campanha petista aposta no relacionamento construído entre Lula e Trump para conter medidas mais concretas de interferência. O movimento é calculado: explorar o ruído sem escalar o conflito a ponto de provocar uma resposta americana que fuja do controle narrativo.

A aposta eleitoral de Lula é que a equação “defensor do Brasil versus quem serve ao imperialismo americano” ressoa melhor do que qualquer argumento programático. Se vai colar no eleitorado que ainda oscila, os bastidores políticos terão a resposta nas urnas de outubro.

Entenda o contexto

O embate ocorre durante a 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, cujo Debate Geral começou em 22 de setembro, em Nova York. Como ocorre tradicionalmente, o Brasil abriu os discursos dos Estados-membros, seguido pelos Estados Unidos.

A defesa da soberania entrou no centro da manifestação brasileira em um momento de tensão entre instituições do país e integrantes do governo norte-americano. No discurso, Lula associou ataques à soberania, interferências em assuntos internos e sanções unilaterais ao enfraquecimento do multilateralismo e das instituições democráticas.

O pano de fundo é a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O deputado passou a defender publicamente medidas contra autoridades brasileiras e buscou interlocução em Washington em meio ao confronto entre aliados de Jair Bolsonaro e integrantes do Supremo Tribunal Federal.

A Lei Magnitsky, citada nesse movimento, é uma legislação dos Estados Unidos que permite ao governo norte-americano impor sanções a estrangeiros, incluindo restrições financeiras e migratórias, em determinadas situações envolvendo acusações de corrupção ou graves violações de direitos humanos.

A ofensiva também passou a ter impacto na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Enquanto Eduardo mantém a pressão sobre autoridades brasileiras a partir dos Estados Unidos, Flávio procura separar sua candidatura de qualquer possibilidade de interferência estrangeira no processo eleitoral.

Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, a discussão sobre soberania deixou de ficar restrita às relações diplomáticas e passou a integrar diretamente a disputa de narrativas entre governo e oposição.

Carregar Comentários