O maestro Roberto Tibiriçá, um dos nomes centrais da música erudita brasileira, morre na madrugada deste sábado, em São Paulo, aos 72 anos, vítima de câncer. Regente titular e diretor musical da Orquestra Sinfônica do Paraná desde 2022, ele deixa um vazio imediato na principal orquestra do estado e no circuito sinfônico nacional.
O corpo é velado no Theatro Municipal de São Paulo, em cerimônia aberta ao público, com despedida no Salão Nobre e na Sala de Espetáculos. O sepultamento está previsto para o Cemitério São Paulo, em Pinheiros, e reúne familiares, músicos, gestores culturais e admiradores que formam ao longo do dia uma espécie de cortejo silencioso pela obra do maestro.
Velório aberto e luto no meio musical
A presença do público no Municipal confirma a dimensão rara da perda. Poucos maestros brasileiros alcançam o status de figura pública capaz de atrair plateias além dos círculos especializados. Tibiriçá constrói essa ponte ao longo de mais de quatro décadas, combinando rigor técnico, versatilidade de repertório e um discurso constante de aproximação com novos ouvintes.
O Centro Cultural Teatro Guaíra, a Orquestra Sinfônica do Paraná e a Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira se manifestam rapidamente. Em nota, o diretor-presidente do Teatro Guaíra, Cleverson Cavalheiro, resume o sentimento de colegas e músicos: “Perdemos um grande maestro, mas seu legado permanecerá vivo em cada músico, em cada concerto e em cada pessoa que foi tocada por sua música”.
O luto tem também um lado institucional concreto. A OSP perde não só o regente titular, mas o responsável por um ciclo recente de renovação artística, que coloca a orquestra em diálogo mais direto com a sociedade paranaense. Em maio, mais de 4,3 mil pessoas ocupam o auditório do Teatro Guaíra no concerto que celebra os 41 anos da orquestra, sob sua batuta.
Uma carreira erudita com vocação popular
Nascido em São Paulo, Tibiriçá inicia a trajetória como pianista aos 8 anos, antes de se afirmar como maestro. Forma-se sob a tutela de Eleazar de Carvalho, com quem trabalha por 18 anos na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Ganha projeção ao comandar algumas das principais orquestras do país e do exterior, entre elas a Metropolitana de Lisboa.
Entre 1984 e 1985, atua como regente assistente no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, experiência que consolida o trânsito internacional. Na volta ao Brasil, assume postos de liderança em sucessão: dirige as orquestras sinfônicas de Campinas, São Bernardo do Campo e Minas Gerais, e, entre 2000 e 2003, ocupa a direção artística e a regência titular da Orquestra Sinfônica Petrobrás Pró-Música.
A ligação com a Orquestra Sinfônica Brasileira é uma das marcas da carreira. Ele comanda a OSB em diferentes fases e volta a ela em projetos de formação de público. Em apresentações recentes do Projeto Aquarius, na Praça Mauá, no Rio, divide o palco com nomes como Lenine, Adriana Calcanhoto e Luedji Luna, sempre defendendo o encontro entre repertório erudito e música popular.
“Essa mistura é muito bem-vinda e importante para a formação de novos públicos. São duas cantoras extraordinárias, com timbres e estilos bem próprios. Mais para o fim do mês devemos ter um ensaio com elas, já estamos ansiosos por este contato, poder trocar com elas”, afirma o maestro, em uma de suas últimas entrevistas sobre o projeto, ao comentar o trabalho com cantoras da música popular.
Pioneirismo em gravações e momentos históricos
Desde a década de 1970, Tibiriçá acumula também o papel de diretor artístico em gravadoras brasileiras. Torna-se pioneiro na produção fonográfica de música clássica nacional, com destaque para o único LP gravado no Brasil pela pianista Guiomar Novaes dedicado exclusivamente a obras brasileiras, registrado no Museu de Arte de São Paulo. O álbum se torna referência para gerações de instrumentistas.
O maestro participa de várias edições do Projeto Aquarius, que leva grandes concertos gratuitos a espaços abertos. Um dos ápices vem na Missa Campal celebrada pelo Papa João Paulo II, no Aterro do Flamengo, em 1997, diante de um público estimado em 2 milhões de pessoas. A regência o projeta além do circuito especializado e simboliza sua capacidade de conduzir eventos de massa sem abrir mão da qualidade musical.
No fim dos anos 1980, funda em São Paulo a Orquestra Nova Filarmonia, que acompanha artistas como o tenor Luciano Pavarotti em apresentações que marcam a memória afetiva de parte do público brasileiro. Paralelamente, constrói uma sólida carreira acadêmica e institucional. Desde março de 2003, ocupa a cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Música e, desde 2018, é membro honorário da Academia Nacional de Música.
O reconhecimento formal vem cedo. Em 1995, a crítica especializada do Rio de Janeiro o elege Músico do Ano. No mesmo período, o governo fluminense concede o Prêmio Estácio de Sá pelo trabalho à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira. As distinções cristalizam uma reputação já consolidada entre músicos, regentes e produtores culturais.
Despedida em cena e desafio de sucessão
A última aparição pública de Tibiriçá no pódio ocorre em 16 de julho deste ano, em Londrina, com a Orquestra Sinfônica do Paraná, durante o 46º Festival Internacional de Música da cidade. O concerto integra o projeto Guaíra para Todos e reforça a vocação do maestro para a formação de novas plateias, ao aproximar a orquestra de públicos fora dos grandes centros.
O trabalho recente em Curitiba aprofunda essa linha. À frente da OSP desde 2022, ele aposta em programas que combinam repertório tradicional, compositores brasileiros e parcerias com artistas de outras áreas. A estratégia resulta em salas cheias e em uma relação mais direta com o público jovem, um dos pontos mais citados nas homenagens divulgadas hoje por instituições parceiras.
A morte do maestro abre uma disputa discreta, mas complexa, pela sucessão. A OSP precisa definir um novo regente titular em meio ao luto, tarefa que recai sobre a direção do Teatro Guaíra e os conselhos artísticos. A Academia Brasileira de Música, da qual Tibiriçá é membro, tende a ser ouvida nesse processo, dado o peso simbólico de sua cadeira.
Para além dos cargos, o impacto atinge escolas de música, projetos sociais e festivais que o tinham como referência. Muitos jovens regentes e instrumentistas enxergam na sua trajetória uma prova de que é possível conciliar excelência artística, abertura de repertório e compromisso com a democratização do acesso à música erudita no Brasil.
As próximas semanas devem ser marcadas por concertos em homenagem ao maestro, republicações de gravações históricas e debates sobre a preservação de seu acervo artístico. A forma como o país tratar essa herança ajudará a definir se o legado de Roberto Tibiriçá permanece como memória reverente ou se se converte em motor para uma nova fase da música sinfônica brasileira.
Quem foi Roberto Tibiriçá?
O maestro Roberto Tibiriçá, paulistano de 72 anos, foi um dos principais regentes brasileiros, com mais de quatro décadas de carreira, passagens por orquestras no Brasil e no exterior, pioneirismo em gravações de música clássica nacional e atuação decisiva na formação de público para a música erudita.
Qual o impacto da morte de Tibiriçá na Orquestra Sinfônica do Paraná?
A morte de Roberto Tibiriçá retira da Orquestra Sinfônica do Paraná seu regente titular desde 2022, interrompe um ciclo de renovação artística, impõe a escolha urgente de um sucessor e deixa músicos, direção e público diante do desafio de preservar, na prática, a qualidade e a abertura de repertório que marcaram sua gestão.
Quando foi a última apresentação do maestro?
A última apresentação de Roberto Tibiriçá ocorre em 16 de julho de 2026, em Londrina, quando ele rege a Orquestra Sinfônica do Paraná no 46º Festival Internacional de Música da cidade, dentro do projeto Guaíra para Todos, num concerto que reforça sua defesa da formação de novas plateias para a música erudita.