A ofensiva do PL contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) pode se transformar em um risco político para Flávio Bolsonaro (PL) na reta final do segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A avaliação foi feita pelos analistas políticos Luiz Armando e Davidson Cavalcante durante o NC News Acontece desta terça-feira (6).
O debate ocorreu após o partido de Flávio rejeitar a possibilidade de um entendimento político com integrantes do Supremo e indicar que pretende manter, a partir de 2027, a pressão por processos de impeachment contra Alexandre de Moraes e Flávio Dino. O PL calcula ter 49 votos favoráveis ao afastamento de Moraes no próximo Senado, enquanto uma eventual condenação exige 54 votos.
Os analistas também discutiram a decisão de Alexandre de Moraes que autorizou a progressão de regime de Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como Débora do Batom. Questionado se a medida poderia ter relação com o novo cenário político após as eleições, Luiz Armando afastou essa interpretação e ressaltou que a progressão de pena é um direito previsto na legislação.
PL rejeita “acordão” com STF e mira impeachment de Moraes e Dino em 2027
Luiz Armando vê risco de interferência entre Poderes
Para Luiz Armando, a nova composição do Congresso fortalece politicamente a direita, mas isso não significa que um eventual processo para afastar ministros do Supremo seja simples de executar.
O analista destacou que a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário deve respeitar o sistema de freios e contrapesos e criticou a possibilidade de a maioria parlamentar ser utilizada para ampliar a interferência sobre outros Poderes.
Na avaliação de Luiz Armando, mesmo com uma bancada numericamente favorável, parlamentares também estariam sujeitos à reação da opinião pública caso uma ofensiva contra o Supremo avançasse.
“Essa engenharia teria que ter o aval da população. Se a população começar a criticar essa engenharia, certamente os políticos que dependem do voto não encampariam assim tão facilmente o afastamento de ministros do STF.”
O analista também criticou o tom adotado nas articulações envolvendo o Supremo e afirmou que um confronto institucional pode prejudicar a estabilidade democrática.
Davidson pede cautela a Flávio durante segundo turno
Davidson Cavalcante também avaliou que a campanha de Flávio Bolsonaro precisa medir os efeitos políticos de um novo enfrentamento com o Supremo.
Segundo ele, o segundo turno começou com uma diferença estreita entre os candidatos. Flávio terminou a primeira etapa com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma distância de pouco mais de 2,2 milhões de votos.
Para Davidson, esse cenário exige que o candidato do PL priorize propostas e temas diretamente ligados ao cotidiano dos brasileiros em vez de concentrar a campanha em disputas institucionais.
“É bom falar de Brasil, falar de propostas, falar do que ele pretende fazer para melhorar a economia, melhorar a rentabilidade do brasileiro, tratar de coisas mais concretas nessa altura.”
O analista argumentou que um confronto com o STF pode acrescentar um novo elemento de desgaste em uma eleição que permanece aberta e na qual as duas campanhas ainda tentam conquistar eleitores que votaram em outros candidatos ou não compareceram às urnas no primeiro turno.
Economia deve ocupar centro da campanha
Na segunda parte da análise, Davidson afirmou que Flávio tende a explorar temas econômicos e críticas ao governo Lula durante as próximas semanas. Para ele, inflação percebida pelo consumidor, juros e poder de compra devem aparecer com força na estratégia eleitoral.
O analista também destacou o peso de São Paulo. Tarcísio de Freitas, reeleito governador no primeiro turno, passou a atuar diretamente na campanha de Flávio e pode assumir papel importante na tentativa de ampliar a votação do candidato no maior colégio eleitoral do país.
Lula, por outro lado, iniciou uma reorganização de sua campanha depois de terminar o primeiro turno atrás do adversário. Entre os desafios apontados estão a mobilização da militância, a revisão da comunicação e a recuperação de votos em regiões onde o desempenho ficou abaixo do esperado.
“Nessa reta final, quem errar menos ganha a eleição. Praticamente tem que ser erro zero de um lado e de outro.”
Luiz Armando vê dois projetos econômicos em disputa
Luiz Armando também destacou que a eleição coloca frente a frente visões diferentes sobre a condução da economia. Na avaliação dele, o governo Lula prioriza políticas sociais e manutenção da renda mesmo diante das pressões fiscais, enquanto o campo político de Flávio Bolsonaro tende a defender maior controle dos gastos públicos.
O analista ponderou, porém, que Lula também enfrenta dificuldades que precisam ser reconhecidas durante a campanha e citou a situação fiscal como um dos pontos de atenção.
Para os dois analistas, as próximas semanas devem ser marcadas por uma disputa entre estratégias distintas: de um lado, Flávio tentando preservar a vantagem conquistada no primeiro turno e ampliar alianças; do outro, Lula buscando reorganizar a campanha e recuperar terreno até a votação de 25 de outubro.