Com 131.673 votos, Jessica Ramos Moreno, a Jessicão (PL), chega à Assembleia Legislativa do Paraná como deputada estadual mais votada do estado em 2026 e reforça a presença de uma bancada alinhada ao bolsonarismo, especialmente no Norte paranaense. Aos 33 anos, ela leva para o parlamento estadual a mesma agenda conservadora que marcou sua atuação na Câmara Municipal de Londrina.
Vereadora mais votada de Londrina à ALEP
Nascida em Londrina, Jessicão está no segundo mandato como vereadora e construiu sua base principalmente entre eleitores conservadores e do meio rural. Em 2020, foi eleita para a Câmara Municipal com 2.523 votos. Na reeleição, tornou-se a mulher mais votada da cidade, com 15.057 votos. Em 2022, obteve 33.376 votos como candidata a deputada federal e ficou como suplente
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Agora, ao conquistar 131.673 votos para deputada estadual, ela é a mulher mais votada para a Assembleia e fica atrás apenas de Paulo Melo (PL) na contagem geral de votos para o Legislativo paranaense. O desempenho ajuda a consolidar o PL como uma das maiores bancadas na Casa, ao lado do PSD, ambos com 14 cadeiras cada.
Projetos que marcaram a atuação em Londrina
Nos seis anos em que ocupou uma cadeira na Câmara de Londrina, Jessicão participou de 73 projetos de lei, sendo 12 em conjunto com outros vereadores. A atuação é marcada por propostas de forte apelo moral e ideológico junto ao eleitorado conservador.
O primeiro projeto que virou lei municipal foi o que proibiu a chamada linguagem neutra na grade curricular e no material didático de instituições de ensino da cidade, além de concursos públicos. A norma acabou declarada inconstitucional pela Justiça, após manifestação do Ministério Público do Paraná.
Em outra frente, a vereadora teve aprovado um projeto que proíbe a exigência de cartão de vacinação em Londrina, medida defendida por ela durante o período pós-pandemia. Também virou lei municipal a proibição da venda, em instalações externas, de alimentos com formato de órgãos genitais.
Nem todas as iniciativas, porém, se restringem a temas de costumes. Em 2025, um dos projetos promulgados de Jessicão garantiu matrícula prioritária para estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em escolas municipais próximas da residência ou do local de trabalho dos responsáveis.
Polêmica com atleta transexual e reação do STF
Um dos episódios de maior repercussão envolvendo o nome de Jessicão ocorreu em fevereiro deste ano, quando ela apresentou, em regime de urgência, um requerimento na Câmara de Londrina para impedir a participação da jogadora de vôlei Tifanny Abreu, atleta transexual, na semifinal da Copa Brasil de Vôlei Feminino disputada na cidade.
A tentativa de barrar a atleta foi contestada e acabou derrubada por decisão do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a participação de Tifanny. O caso ampliou a projeção nacional da vereadora e a colocou no centro do embate entre grupos conservadores e movimentos de defesa de direitos LGBTQIA+.
Entenda o contexto
Jessicão se apresenta ao eleitorado como defensora de pautas conservadoras ligadas ao PL e ao bolsonarismo. Em publicações nas redes sociais, ela lista como prioridades “segurança pública; defesa das crianças e adolescentes; educação de qualidade; saúde para todos; agro forte; combate à corrupção; valorização dos idosos; e infraestrutura e desenvolvimento”.
Ao mesmo tempo, afirma não compactuar com “o PT e o comunismo” e “ideologia de gênero nas escolas”. Também se manifesta contra aborto, “privilégios da classe política”, “ativismo judicial que atrapalha o Brasil”, criminalidade e impunidade. A retórica reforça a aproximação com a base mais fiel do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A vereadora conta com apoio público de Bolsonaro e de Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência e correligionário no PL. A dupla aparece em materiais de campanha e nas redes destacando Jessicão como representante de uma agenda de segurança pública rígida, defesa da família tradicional e fortalecimento do agronegócio.
Impactos da eleição e cenário na Assembleia
A chegada de Jessicão à Assembleia tende a fortalecer a articulação de projetos ligados a costumes, religião e combate ao que ela classifica como “ideologia de gênero” em escolas. A atuação no parlamento estadual deve reproduzir iniciativas já testadas em Londrina, como tentativas de restringir participação de pessoas trans em competições esportivas e de limitar o uso de linguagem inclusiva em ambientes educacionais.
Entidades de direitos humanos, movimentos LGBTQIA+ e organizações ligadas à educação pública acompanham com preocupação essa agenda, sobretudo diante de decisões recentes da Justiça e do STF que derrubaram medidas semelhantes consideradas inconstitucionais ou discriminatórias. A tendência é de continuidade da judicialização de projetos que avancem sobre direitos de minorias ou entrem em conflito com garantias constitucionais.
Ao mesmo tempo, o reforço da bancada conservadora dá mais peso a demandas de setores rurais e do agronegócio, bandeiras centrais do PL no estado. A expectativa é que temas como incentivos ao agro, infraestrutura no interior e segurança no campo ganhem espaço na pauta legislativa.
Com um discurso duro contra o PT, o comunismo e o chamado ativismo judicial, a nova deputada entra no plenário estadual como uma das vozes mais estridentes desse campo ideológico, em um cenário que já nasce marcado por forte polarização entre blocos conservadores e progressistas na próxima legislatura.