O polo sul da Lua tornou-se um dos territórios mais cobiçados da nova corrida espacial. EUA e China concentram missões e planos de longo prazo na região, onde cientistas encontraram evidências de gelo de água em áreas permanentemente sombreadas.
O interesse vai muito além de chegar primeiro. Se puder ser extraída em quantidades suficientes, a água lunar poderá servir para consumo humano e produção de oxigênio e, depois de separada em hidrogênio e oxigênio, contribuir para a fabricação de propelentes. Isso poderia reduzir a quantidade de recursos que futuras bases precisariam transportar da Terra.
A disputa ganhou ainda mais importância em 2026. Enquanto os Estados Unidos avançam com o programa Artemis, a China prepara missões robóticas destinadas a estudar diretamente o polo sul e estabelecer as bases científicas e tecnológicas para uma presença de longo prazo na Lua.
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Por que o polo sul da Lua é tão importante?
A resposta está principalmente nas características ambientais da região.
Por causa da pequena inclinação do eixo lunar, algumas crateras próximas aos polos possuem áreas que praticamente nunca recebem luz direta do Sol.
Essas chamadas regiões permanentemente sombreadas estão entre os locais mais frios da Lua e podem preservar gelo de água e outros materiais congelados há bilhões de anos.
A NASA afirma que diferentes missões já encontraram evidências desses materiais, embora a quantidade, a distribuição e a facilidade de extração ainda precisem ser determinadas.
Para a ciência, estudar esse gelo também pode ajudar a reconstruir a história da Lua e entender como a água e outros compostos se espalharam pelo Sistema Solar.

Água pode virar recurso estratégico
Para futuras bases humanas, a importância é ainda maior.
Transportar grandes quantidades de água da Terra é caro e exige espaço e capacidade de carga nos foguetes.
Se futuras missões conseguirem extrair e processar o gelo existente no solo lunar, parte dessa dependência poderia ser reduzida.
A água poderia ser usada diretamente pelos astronautas. Também poderia fornecer oxigênio respirável e componentes utilizados na produção de combustível para foguetes.
Na prática, uma infraestrutura capaz de utilizar recursos disponíveis na própria Lua poderia facilitar missões mais longas e, no futuro, ajudar na exploração de destinos mais distantes, incluindo Marte.
China prepara Chang’e-7 para procurar gelo
A missão Chang’e-7 foi projetada especificamente para estudar o ambiente da região e procurar água congelada.
O complexo sistema inclui orbitador, módulo de pouso, rover e outros veículos destinados a trabalhar conjuntamente na exploração do terreno.
Documentos da Administração Espacial Nacional da China (CNSA) apontam que um dos principais objetivos científicos é investigar o ambiente e a presença de gelo de água no solo da região polar.
Os dados também deverão contribuir para os planos chineses de construção da futura Estação Internacional de Pesquisa Lunar.

Estados Unidos querem estabelecer base no polo sul
Do outro lado da disputa, a NASA também escolheu a região para concentrar a próxima fase da exploração humana da Lua.
O programa Artemis não pretende simplesmente repetir as missões Apollo.
A estratégia americana prevê desenvolver uma presença de longa duração, com sistemas de energia, mobilidade, comunicação e aproveitamento de recursos encontrados no próprio satélite.
A NASA descreve oficialmente o polo sul como a região escolhida para sua futura base lunar.
Entre as tecnologias em desenvolvimento estão equipamentos para extrair recursos locais, produzir água e oxigênio e construir estruturas como áreas de pouso e barreiras de proteção.
Energia também entra na disputa
Ter água não resolve sozinho o problema de manter uma base funcionando.
Uma instalação lunar precisa de energia constante para sustentar sistemas de suporte à vida, comunicações, equipamentos científicos, veículos e processamento de recursos.
Algumas áreas próximas ao polo apresentam condições de iluminação consideradas interessantes para geração de energia solar.
Ao mesmo tempo, Estados Unidos e China também estudam sistemas nucleares para operações lunares.
NASA e Departamento de Energia dos Estados Unidos anunciaram planos para desenvolver um sistema de energia por fissão destinado à superfície da Lua até 2030.
A vantagem seria produzir eletricidade continuamente, inclusive durante períodos sem luz solar.
Quem chegar primeiro pode ser dono da região?
Não. O Tratado do Espaço Sideral, de 1967, estabelece que a Lua e outros corpos celestes não podem ser apropriados por um país por reivindicação de soberania, ocupação ou outros meios.
Isso significa que Estados Unidos, China ou qualquer outra nação não podem simplesmente declarar uma parte da Lua como território nacional.
O cenário fica mais complexo quando a discussão passa da soberania territorial para a utilização dos recursos encontrados no local.
Os Estados Unidos defendem, por meio dos Acordos Artemis, princípios para permitir atividades de exploração e utilização de recursos espaciais respeitando o Tratado do Espaço Sideral.
A China não integra os Acordos Artemis e desenvolve, ao lado de parceiros internacionais, seu próprio projeto de pesquisa lunar.

Locais adequados para bases são limitados
Esse é um dos fatores que tornam a corrida particularmente estratégica.
Nem todos os pontos do polo sul oferecem simultaneamente condições adequadas de iluminação, acesso potencial a gelo, comunicação com a Terra e terreno apropriado para pousos e operações.
Assim, mesmo sem existir legalmente uma corrida para “tomar posse” de território lunar, diferentes missões podem acabar interessadas em áreas próximas.
Quanto mais infraestrutura for instalada — módulos, equipamentos científicos, sistemas de energia, antenas e zonas de pouso — maior será a necessidade de coordenação entre países e empresas.
China e EUA têm estratégias diferentes
Os dois países também adotam modelos distintos para chegar à superfície.
Os Estados Unidos utilizam uma combinação entre programas da NASA e contratos com empresas privadas. SpaceX e Blue Origin estão entre as companhias envolvidas no desenvolvimento de sistemas lunares.
A China mantém uma estrutura mais centralizada, com seu programa espacial coordenando foguetes, espaçonaves, módulos de pouso e missões robóticas.
Em ambos os casos, o objetivo de longo prazo deixou de ser apenas colocar uma bandeira na superfície.
A meta é desenvolver capacidade para permanecer e operar na Lua.
Lua pode se tornar ponto de partida para Marte
O polo sul também é estratégico porque a Lua pode funcionar como laboratório para tecnologias necessárias a futuras missões humanas a Marte.
Produção de água e oxigênio, geração contínua de energia, construção de habitats, proteção contra radiação e utilização de recursos locais precisam ser dominadas antes de missões de longa duração ainda mais distantes da Terra.
Por isso, a disputa entre Estados Unidos e China não envolve apenas quem colocará astronautas novamente na superfície lunar.
A capacidade de estabelecer infraestrutura, explorar recursos e definir padrões de operação na Lua poderá influenciar a próxima fase da exploração espacial — e as regras que serão utilizadas quando a presença humana permanente fora da Terra deixar de ser apenas um projeto.