Mancuso é acusado de vender licenças falsas a astros do futebol

Ex-volante é suspeito de liderar esquema de venda de certificados falsos para treinadores de futebol.
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Alejandro Mancuso, ex-volante de Flamengo e Palmeiras, é acusado de intermediar a venda de licenças falsas de treinador da Associação de Técnicos de Futebol Argentino (ATFA) para ex-jogadores brasileiros e sul-americanos por cerca de R$ 100 mil, em um esquema que hoje coloca sob suspeita a transição de várias estrelas dos gramados para a carreira de técnico.

Segundo a apuração da jornalista Joanna de Assis, Mancuso se apresentava como “diretor internacional da ATFA” e oferecia um “trâmite urgente” para que atletas com carreira consolidada recebessem, pelo correio e em poucos dias, certificados das licenças C, B, A e PRO sem passar pelos cursos e avaliações oficiais exigidos na Argentina. Os documentos são considerados falsos pela própria ATFA, que nega qualquer vínculo com o ex-jogador.

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Quem é Alejandro Mancuso e qual sua relação com o Flamengo?

Alejandro Mancuso é um ex-volante argentino que ganhou projeção no Brasil ao defender Flamengo e Palmeiras nos anos 90. Ídolo de parte da torcida rubro-negra pelo estilo aguerrido em campo, ele mantém até hoje forte ligação afetiva com o clube carioca e costuma lembrar a passagem com orgulho.

Em conversa recente com Joanna de Assis, Mancuso abriu a câmera de vídeo exibindo uma camisa 5 do Flamengo enquadrada atrás de si e disparou: “Olha aqui o que eu tenho, que coisa linda, a 5 do Flamengo”, numa tentativa de retomar o passado nos tempos em que jogava no Maracanã. Foi a partir dessa imagem de ex-jogador carismático e bem relacionado no Brasil que ele teria se aproximado de diversos atletas para oferecer as licenças de treinador.

Como funcionava a oferta das licenças falsas

De acordo com mensagens e áudios obtidos pela reportagem, Mancuso abordava diretamente jogadores e ex-jogadores brasileiros e de outros países sul-americanos e prometia facilitar o acesso às licenças oficiais da ATFA. Entre os nomes citados estão Thiago Silva, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Paulinho, Luiz Gustavo, Dejan Petkovic, Diego Lugano, Paolo Guerrero e Roberto Assis.

Ele dizia ter um acordo com dirigentes da ATFA e garantia que, para “feras” do futebol, seria possível pular etapas do processo normal de formação. Em um dos áudios, Mancuso afirma: “Esses feras que jogaram futebol, damos um jeito para que eles não façam esse curso online”. O pacote oferecido incluía do nível C ao PRO, o topo da carreira de treinador na estrutura argentina.

O custo relatado pelos atletas gira em torno de R$ 100 mil, valor que, segundo o material reunido por Joanna de Assis, seria pago para que Mancuso providenciasse toda a papelada. Depois do acerto, diplomas e carteirinhas chegavam às casas dos jogadores. Muitos posavam orgulhosos com os documentos e enviavam as fotos de volta a Mancuso, que as usava como vitrine para atrair novos interessados.

Alguns dos ex-jogadores admitiram ter embarcado no atalho por acreditarem que a experiência de alto nível em campo poderia ser “homologada” como formação. Outros desconfiaram. Felipe Melo, por exemplo, relatou: “Retirei os documentos das redes sociais e consegui recuperar o dinheiro”. Roberto Assis disse que foi procurado, mas afirmou: “Não me lembro se cheguei a fazer algum depósito”.

Entenda o contexto

A formação oficial de treinadores na ATFA é progressiva e inclui cursos teóricos, avaliações e atividades práticas. A entidade aceita ex-profissionais, mas a carreira como jogador não dispensa as etapas formais. Na versão de Mancuso, os atletas que tiveram problemas não teriam concluído “a parte presencial” do curso.

Ocorre que, segundo a apuração junto à estrutura acadêmica da ATFA, não há registros de matrícula desses jogadores no sistema oficial. Mesmo assim, eles receberam diplomas e carteirinhas supostamente emitidos pela associação, o que motivou desconfianças e, depois, uma investigação policial na Argentina.

A polícia argentina chegou a cumprir buscas na sede da ATFA e em endereços ligados ao caso em 2025, para apurar a possível emissão irregular de certificados de nomes como Diego Lugano, Felipe Melo, Petkovic, Paolo Guerrero, Roberto Assis e Roberto Carlos. O Ministério Público pediu o arquivamento e a Justiça Federal Criminal e Correcional encerrou o processo em dezembro de 2025 por inexistência de crime, mas o episódio acendeu um alerta no meio do futebol profissional.

O que dizem Mancuso e a ATFA

Em conversas com Joanna de Assis, Mancuso tentou se afastar da acusação de venda de documentos falsos. Ele afirmou que apenas orientava atletas interessados na formação argentina e que os jogadores deveriam tratar diretamente com a federação para concluir o processo. “Só estou ajudando os caras”, disse o ex-volante, ao justificar sua atuação.

Áudios reunidos na investigação jornalística, porém, mostram Mancuso apresentando nomes de clientes e falando de “esquema” para obtenção das licenças. Em uma das gravações, ele diz que só não conseguiu concluir o processo com alguns atletas muito famosos porque a visibilidade teria gerado problemas internos.

Do outro lado, a ATFA publicou nota oficial em que afirma que não reconhece qualquer acordo paralelo para facilitar a vida de ex-jogadores.

“Os fatos descritos em sua mensagem já foram objeto de investigação pela Justiça Federal Criminal e Correcional da República Argentina durante o ano de 2025”, diz o texto.

A associação registra ainda que:

“Mancuso não integra sua diretoria, não ocupa cargo de autoridade, não tem vínculo contratual com a instituição e não possui autorização para representá-la”.

A entidade considera todos os certificados emitidos fora de seus canais formais como falsos e avalia a adoção de medidas legais pelo uso indevido de seu nome e da imagem de dirigentes. A ATFA também reforça que nenhum atalho dispensa cursos, provas e práticas previstas no regulamento interno.

Como os astros do futebol brasileiro se envolveram na compra

O grupo de jogadores que procurou Mancuso ou foi procurado por ele reúne nomes de peso. A lista inclui campeões por seleção brasileira e por grandes clubes europeus e sul-americanos. Em comum, todos estavam em transição de carreira ou já planejavam a vida fora das quatro linhas, interessados em se qualificar para o comando de equipes.

Thiago Silva, por meio de sua assessoria, confirmou ter recebido o material, mas declarou: “Nunca utilizei os documentos”. Roberto Carlos, também via assessoria, afirmou: “Nunca utilizei os documentos porque não completei o curso”. Dejan Petkovic disse: “Não completei a parte presencial do processo”. Em todos os casos, a suposta necessidade de uma etapa final presencial é usada por Mancuso para justificar os problemas com as licenças.

Felipe Melo relatou que, ao perceber inconsistências, apagou qualquer referência às licenças e conseguiu reaver o dinheiro pago. Outros atletas, que preferiram não se identificar, admitiram ter visto na oferta de Mancuso uma forma “legalizada” de acelerar o processo, confiando no prestígio do ex-volante e na promessa de que tudo seria avalizado pela ATFA.

Joanna de Assis conta que investiga a atuação de Mancuso como uma espécie de “despachante de licenças” há cerca de dois anos. A primeira conversa direta entre os dois ocorreu em 25 de setembro, quando o próprio argentino a procurou para tentar “explicar a situação” depois de saber que vinha sendo investigado. Segundo a repórter, as respostas foram evasivas e cheias de contradições.

Qual o impacto das licenças falsas de Mancuso no futebol brasileiro?

O impacto imediato é a desconfiança sobre qualquer certificado de treinador obtido por jogadores brasileiros via supostos atalhos na Argentina, especialmente aqueles intermediados por Mancuso. Como os documentos são considerados falsos pela ATFA, eles não servem como base para registro regular em federações e confederações, o que pode travar ou atrasar planos de carreira de ex-atletas.

Clubes e entidades que exigem qualificação formal para técnicos e auxiliares precisam checar agora, caso a caso, a origem das licenças apresentadas. Na prática, qualquer diploma vinculado ao nome de Mancuso tende a ser reavaliado, o que abre margem para insegurança jurídica em contratos já firmados e em futuras contratações.

Para os jogadores que desembolsaram cerca de R$ 100 mil acreditando estar dentro da legalidade, o prejuízo é duplo: financeiro e de imagem. Muitos relutam em falar publicamente sobre o tema por vergonha de terem entrado em um atalho que, hoje, é classificado como fraude documental pela entidade argentina.

O caso expõe ainda uma fragilidade estrutural: a falta de orientação e de canais oficiais claros para atletas em fim de carreira que desejam virar técnicos. O espaço aberto por essa lacuna foi ocupado por ofertas como a de Mancuso, que prometiam certificados rápidos, sem burocracia e com o selo, agora desmentido, da ATFA.

Mesmo com o arquivamento da investigação criminal na Argentina, o episódio deixou marcas na imagem institucional da associação de técnicos e acendeu um alerta em federações do continente. A expectativa é que a repercussão leve a mais fiscalização e transparência nos processos de formação, além de desencorajar esquemas parecidos direcionados a ex-jogadores em busca da prancheta.

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