O jurista Miguel Reale Júnior, um dos responsáveis pelo pedido de impeachment que levou à saída de Dilma Rousseff (PT) da Presidência em 2016, declarou apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de 2026. A decisão vem acompanhada de uma ressalva: ele continua defendendo a destituição da ex-presidente e afirma não ter motivos para se arrepender.
Ex-ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Reale Júnior considera que a eleição de Flávio Bolsonaro (PL) representaria riscos às instituições democráticas.
Em uma carta divulgada nas redes sociais, intitulada “Cuidado com o precipício”, o advogado criticou o senador, suas propostas e a possibilidade de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023.
O posicionamento chama atenção pelo passado do jurista como um dos principais nomes jurídicos do impeachment de Dilma. Mas não representa uma aproximação inédita com Lula: em 2022, Reale Júnior já havia declarado voto no petista, então adversário de Jair Bolsonaro. Agora, ele reafirma a escolha diante de uma nova disputa presidencial.
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Quem é Miguel Reale Júnior, o jurista que ajudou a derrubar Dilma?
Professor de Direito Penal e ex-ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior construiu uma trajetória ligada ao debate jurídico e institucional brasileiro. Em 2002, assumiu o Ministério da Justiça durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, mas deixou o cargo poucos meses depois, em meio a divergências relacionadas à atuação federal no Espírito Santo diante de denúncias de crime organizado.
Seu nome ganhou projeção nacional durante a crise política do segundo mandato de Dilma Rousseff. Em 2015, Reale Júnior assinou, ao lado dos juristas Hélio Bicudo e Janaína Paschoal, a denúncia por crime de responsabilidade apresentada à Câmara dos Deputados.
O documento questionava medidas fiscais adotadas pelo governo, incluindo as chamadas pedaladas fiscais e a edição de decretos de crédito suplementar. A denúncia foi aceita pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e deu origem ao processo que terminou com o afastamento definitivo de Dilma, em agosto de 2016.
A ex-presidente e seus aliados sempre contestaram os fundamentos do impeachment, classificando a destituição como um golpe parlamentar. Os autores do pedido, por sua vez, sustentaram que havia fundamentos jurídicos para a responsabilização da presidente.

Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Nem arrependimento: por que Reale Júnior continua defendendo o impeachment de Dilma?
Dez anos depois da queda da petista, Miguel Reale Júnior mantém sua avaliação sobre o processo.
Em entrevista à coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, o jurista rejeitou a ideia de arrependimento e voltou a mencionar o cenário econômico e político enfrentado pelo Brasil durante o governo Dilma.
Entre os argumentos apresentados estão a recessão econômica daquele período e a condução do governo diante dos escândalos de corrupção. Para Reale Júnior, essas circunstâncias continuam justificando seu posicionamento de 2015 e 2016.
A defesa do impeachment, entretanto, não impediu que o advogado passasse a apoiar Lula em disputas presidenciais posteriores. A distinção feita por ele é entre a avaliação de um governo específico e a escolha que considera adequada diante dos candidatos apresentados ao eleitorado.
De crítico do PT a eleitor de Lula: a mudança que começou em 2022
Embora a declaração de 2026 provoque surpresa pelo histórico do jurista, Reale Júnior já havia apoiado Lula na eleição presidencial de 2022. Na ocasião, manifestou voto no petista ainda no primeiro turno, apesar de defender anteriormente a construção de uma alternativa à polarização entre PT e bolsonarismo.
O advogado justificou a decisão como uma forma de evitar o que considerava um risco maior à democracia brasileira. Seu posicionamento também refletia críticas ao então presidente Jair Bolsonaro, especialmente em questões relacionadas ao funcionamento das instituições.
Reale Júnior participou ainda de iniciativas favoráveis à responsabilização política de outros presidentes, entre eles Fernando Collor e Jair Bolsonaro. Ao comentar a própria trajetória, apresenta essas posições como decisões tomadas a partir de sua interpretação sobre a conduta de cada governante.
Assim, a declaração de voto em Lula em 2026 representa uma continuidade do posicionamento assumido quatro anos antes, e não uma reconciliação política com o governo Dilma.
Por que o autor do impeachment chama Flávio Bolsonaro de “precipício”?
Na carta divulgada nesta semana, Miguel Reale Júnior concentra suas críticas na candidatura de Flávio Bolsonaro. O jurista questiona a consistência das propostas apresentadas pelo senador e afirma que a possibilidade de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro é um dos pontos mais preocupantes de sua plataforma política.
Na avaliação do advogado, apoiar uma medida dessa natureza significaria enfraquecer a responsabilização pelos ataques às sedes dos Três Poderes. Trata-se de uma interpretação política e jurídica defendida por Reale Júnior, e não de uma consequência automática do voto no candidato do PL.
Outro alvo das críticas é a aproximação de Flávio com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O jurista questiona especialmente discussões envolvendo a eventual classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pelo governo norte-americano.
Reale Júnior também manifesta preocupação com referências ao modelo de segurança pública de El Salvador, marcado pelo encarceramento em massa e por denúncias de violações de direitos. Para ele, a adoção de medidas semelhantes poderia comprometer garantias legais no Brasil.
As declarações integram a avaliação do advogado sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Não significam que as medidas criticadas já tenham sido implementadas no país.
O que Miguel Reale Júnior diz sobre Lula e o desgaste do PT?
O apoio ao presidente não significa que Reale Júnior tenha abandonado suas críticas ao Partido dos Trabalhadores. O jurista reconhece o desgaste político de Lula e da legenda, mas considera que o petista oferece maiores garantias de preservação do Estado de Direito e da independência das instituições.
É justamente essa comparação que sustenta a escolha anunciada para o segundo turno. O advogado separa suas divergências históricas com o PT da avaliação sobre os riscos que atribui à candidatura adversária.
O posicionamento também mostra como a eleição de 2026 reorganiza apoios políticos. Enquanto partidos e lideranças de direita anunciam adesão a Flávio Bolsonaro, figuras que participaram de confrontos anteriores com o PT manifestam preferência por Lula.
Segundo turno coloca Lula e Flávio Bolsonaro frente a frente em 25 de outubro
A declaração de Miguel Reale Júnior ocorre depois de uma votação apertada no primeiro turno presidencial, realizado em 4 de outubro.
Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%. A diferença entre os candidatos foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos.
Com a nova votação marcada para 25 de outubro, as campanhas intensificam a busca por apoios de lideranças políticas e por eleitores que escolheram outros candidatos no primeiro turno.
Nesse cenário, a manifestação de Reale Júnior tem peso simbólico por partir de um dos responsáveis pelo processo de impeachment de Dilma Rousseff. Seu histórico, porém, revela que o apoio ao petista não surgiu agora: ele já havia feito a mesma escolha em 2022.
O contraste permanece como a principal marca de sua posição em 2026: o jurista continua defendendo o impeachment de Dilma, mas considera Lula a alternativa preferível na disputa contra Flávio Bolsonaro.