30 anos sem Renato Russo

Renato Manfredini Júnior morreu em 11 de outubro de 1996, aos 36 anos. Três décadas depois, músicas como “Tempo Perdido”, “Pais e Filhos” e “Eduardo e Mônica” continuam entre as mais ouvidas de sua obra
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ESPECIAL – Quando Renato Russo morreu, na madrugada de 11 de outubro de 1996, a Legião Urbana estava no auge de uma trajetória que havia transformado um grupo surgido no circuito punk de Brasília em uma das bandas de maior alcance do país.

O cantor tinha apenas 36 anos. Trinta anos depois, as músicas que escreveu continuam tocando em rádios, shows e plataformas digitais e passaram para gerações que nem haviam nascido quando a banda terminou.

Um levantamento divulgado pelo Ecad em 2025 ajuda a medir essa permanência. Renato acumulava 157 obras e 327 fonogramas registrados. “Tempo Perdido” aparecia como sua composição mais executada no Brasil nos cinco anos anteriores e também como a mais regravada, com 83 versões identificadas. Na sequência entre as mais tocadas estavam “Será”, “Pais e Filhos”, “Quase sem Querer”, “Por Enquanto” e “Eduardo e Mônica”.

A lista não esgota o repertório que transformou Renato em uma das figuras centrais do rock brasileiro dos anos 1980 e 1990. “Faroeste Caboclo”, “Que País É Este”, “Índios”, “Ainda É Cedo”, “Monte Castelo”, “Há Tempos”, “Perfeição”, “Vento no Litoral” e “O Teatro dos Vampiros” também atravessaram as décadas.

Em 2024, por exemplo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá reuniram mais de 3 mil pessoas em Belo Horizonte em uma apresentação dedicada ao repertório da Legião.

 

O Renato do Rio para Brasília

Renato Manfredini Júnior nasceu no Rio de Janeiro, em 27 de março de 1960, em uma família de classe média. Aos seis anos, mudou-se com os pais para Nova York, onde aprendeu inglês e teve contato direto com a cultura americana. A família voltou ao Brasil e se instalou em Brasília em 1973.

A adolescência teve um período de isolamento forçado. Renato desenvolveu epifisiólise, doença que afeta o osso da coxa, passou por cirurgias e ficou mais de um ano com dificuldades para andar. Depois da recuperação, aproximou-se do punk que começava a se formar entre jovens da capital federal. A experiência desembocaria no Aborto Elétrico, banda que antecedeu a Legião Urbana.

Apartamento onde Renato Russo morou em Ipanema, na rua Nascimento Silva, 378 | Foto: Acervo Renato Russo/Divulgação
Cômodo do apartamento 201 com estantes repletas de livros e discos preservado. O local foi onde Renato Russo criava as letras de suas canções | Foto: Acervo Renato Russo/Divulgação

A Legião surgiu no início dos anos 1980 e encontrou no vocalista uma combinação pouco comum para o rock nacional daquele momento: letras políticas, referências literárias, histórias de amor, religião, angústia juvenil e observações sobre a vida cotidiana.

Renato também construía no palco uma relação intensa com o público. Não se limitava a cantar. Falava longamente, discutia comportamento, política e o próprio sentido das músicas.

Foi essa capacidade de conversar diretamente com uma geração que alimentou a dimensão que a banda ganhou. A TV Globo registrou, em um especial de 1988 que reuniu Legião Urbana e Paralamas do Sucesso, sucessos como “Será”, “Faroeste Caboclo”, “Tempo Perdido” e “Que País É Este”. Renato e Herbert Vianna também dividiram os vocais.

A banda Capital Inicial, reconhecendo o legado de Renato Russo regravou “Que País É Este” que foi lançada no álbum e projeto especial Especial Aborto Elétrico, em 2005. Ao Grupo Norte de Comunicação, Dinho Ouro Preto, o artista conta sobre a importância da trajetória de Renato Russo para a música brasileira, assista:

“[…] a beleza da voz dele, sabe? Com melodistas, as coisas que saíam da cabeça eram inacreditáveis. Ele, inclusive, acho que fala disso numa letra dele ‘Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas?’. Então isso é muito comum, de você conseguir tirar do nada palavras e sentimentos universais, mas que raramente são compartilhados”, relembra.

Um compositor entre a política e a vida privada

As letras de Renato se moviam entre dois campos que, em sua obra, muitas vezes apareciam misturados. De um lado estavam o país, as instituições e a frustração política. Do outro, relações amorosas, solidão, sexo, família e perda. “Eduardo e Mônica” virou uma pequena narrativa sobre um casal improvável.

Renato Russo marcou uma geração de fãs, e tinha presença marcante principalmente entre os jovens que sonhavam por um Brasil melhor | Foto: Acervo Renato Russo/Divulgação

“Faroeste Caboclo” levou às rádios uma história com vários minutos de duração e dezenas de personagens e acontecimentos. “Pais e Filhos” partiu de anotações que Renato mantinha em pequenos cadernos, segundo relato do amigo Marcelo Beré.

A mudança de tom ao longo dos discos também explica parte da longevidade da banda. A piauí, ao revisitar a obra de Renato, chamou atenção para as sucessivas transformações do compositor.

O punk e a crítica política dos primeiros anos deram lugar, em determinados momentos, a letras mais íntimas, espirituais e românticas, sem que os temas anteriores desaparecessem.

Essa combinação nem sempre era recebida sem resistência. Renato ganhou fama de messiânico, uma espécie de porta-voz involuntário de parte da juventude. A própria Folha, em textos dos anos 1990, registrava o poder que suas falas exerciam sobre o público, mas também apontava exageros, discursos longos e uma relação por vezes difícil com os palcos.

De acordo com o músico e produtor cultural, Fernando França, a obra de Renato Russo combina a rebeldia herdada do punk rock com referências literárias, uma característica que ajudou a consolidar o artista como um dos principais poetas da música brasileira contemporânea, assista:

“Justamente essa qualidade de texto que vai diferenciá-lo dos seus pares nessa época, vai alçá-lo para fora do movimento exclusivo do rock nacional dos anos 80 e 90 e colocá-lo no lugar de grande artista da música brasileira”, analisa Fernando França.

Declarações públicas, sexualidade e drogas

Renato também tratou publicamente de assuntos que, naquele período, ainda eram cercados por forte preconceito. Falou de sua sexualidade, lançou em 1994 “The Stonewall Celebration Concert”, projeto associado à memória da revolta de Stonewall e às pautas de direitos de homossexuais, e abordou relações entre homens em entrevistas e canções.

Artista em piscina na capital baiana | Foto: Acervo Renato Russo/Divulgação

Ao mesmo tempo, sua vida privada carregava contradições. Renato teve períodos de abuso de álcool e drogas e passou por tratamento. Em uma entrevista concedida à Folha em 1994, publicada posteriormente pelo jornal, descreveu a decisão de procurar ajuda dizendo que estava se destruindo e decidiu interromper aquele processo.

No ano seguinte, ao falar sobre o disco solo “Equilíbrio Distante”, apresentou uma versão mais serena de si mesmo. “Tô mais tranquilo, não bebo mais, não uso mais drogas”, disse à Folha em dezembro de 1995.

A franqueza, porém, tinha limites. Renato falava abertamente sobre dependência química, depressão e sexualidade, mas decidiu preservar do público o diagnóstico que teria peso decisivo em seus últimos anos. O Globo registra que ele não revelou publicamente que vivia com HIV, embora a doença já comprometesse sua saúde.

O show que terminou em pancadaria

A relação de Renato com o público também produziu episódios de tensão. O mais conhecido aconteceu em 18 de junho de 1988, quando a Legião voltou a Brasília para um show no estádio Mané Garrincha diante de cerca de 50 mil pessoas.

A apresentação durou apenas 58 minutos. Um homem conseguiu subir ao palco e agarrou Renato. A situação se deteriorou, o cantor discutiu com a plateia e o espetáculo acabou depois de oito músicas. Segundo levantamento reconstituído pelo Metrópoles, houve cerca de 400 feridos, 70 detenções e 64 ônibus depredados.

O episódio se tornou uma das marcas da carreira da banda. Em análise publicada pela piauí, Michel Laub recordou que Renato passou a tratar a noite como uma espécie de ponto de ruptura em sua trajetória. O texto também observa que reações explosivas do cantor diante de objetos arremessados ou provocações do público voltariam a ocorrer em outros shows.

Renato, portanto, nunca coube inteiramente na imagem posterior do poeta contemplativo que algumas releituras construíram. Era culto e articulado, mas podia ser agressivo; falava em responsabilidade diante do público, mas entrava em confronto com ele; denunciava o uso de drogas enquanto enfrentava a própria dependência. Parte de sua força pública vinha justamente dessa exposição de conflitos que também apareciam nas músicas.

Os últimos meses

Em 1996, a saúde do cantor já estava bastante debilitada. “A Tempestade ou O Livro dos Dias”, último álbum de estúdio da Legião lançado enquanto ele estava vivo, chegou às lojas poucas semanas antes de sua morte. Renato praticamente não participou da divulgação.

Último show de Renato Russo realizado em 14 de janeiro de 1995, na cidade de Santos (SP) | Foto: TV Globo/Divulgação

O Globo reconstituiu anos depois seus últimos meses. Renato estava recluso em seu apartamento na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, e recebia amigos próximos. O pai deixou Brasília para ficar com ele no Rio. Dado Villa-Lobos, Denise Bandeira e outros amigos também o visitaram.

O cantor havia utilizado o então novo coquetel contra a Aids, mas interrompeu o tratamento diante dos efeitos adversos e da falta de resposta esperada.

Nos últimos dias, a estrutura de atendimento foi levada para dentro de casa. A Folha relatou à época que enfermeiros se revezavam durante 24 horas e que Renato recusara a internação hospitalar. Ele morreu em casa, na madrugada de 11 de outubro de 1996, por complicações decorrentes da Aids. Seu corpo foi cremado no Rio.

A notícia surpreendeu boa parte do público porque o cantor nunca havia anunciado que estava doente. Rádios passaram a tocar o repertório da Legião de forma contínua, fãs procuraram os discos e a MTV ampliou a exibição dos videoclipes.

CD Acústico MTV by Legião Urbana gravado em 1999, com destaques para os sucessos “Hoje à noite não tem luar” e “Pais e filhos” | Crédito: Acervo Renato Russo/Divulgação

Poucos dias depois, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá formalizariam o encerramento da banda. Para os dois, continuar sem Renato não fazia sentido.

Uma obra que sobreviveu ao próprio tempo

A dimensão de Renato depois da morte não ficou restrita à nostalgia dos anos 1980. Livros, filmes, peças, exposições, reedições de discos e turnês dedicadas à Legião mantiveram a obra em circulação. “Faroeste Caboclo” e “Eduardo e Mônica” chegaram ao cinema.

Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá continuaram apresentando o repertório, embora façam questão de dizer que a Legião Urbana acabou com a morte do vocalista.

O ator Marco Nanini, que se tornou amigo de Renato, contou ao Estadão que o músico frequentava sua casa e o descreveu como extremamente carinhoso. Renato também se envolveu com a campanha de Betinho contra a fome.

Segundo o jornal O Globo, Renato Russo se tornou um dos grandes doadores privados da Ação da Cidadania na primeira metade dos anos 1990.

Três décadas depois, a permanência talvez seja medida de forma mais simples pelo repertório. Jovens continuam chegando a “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica” ou “Pais e Filhos” sem precisar conhecer o contexto político da redemocratização ou o circuito de bandas de Brasília dos anos 1980.

Renato Russo teria 66 anos em 2026. Morreu antes de envelhecer e deixou uma obra marcada justamente pela obsessão com a passagem do tempo, o amadurecimento, o medo, a perda e a necessidade de encontrar algum sentido para a vida adulta. Em outubro, quando sua morte completa 30 anos, a Legião Urbana já pertence a um período histórico distante.

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