China amplia produção de frango e ameaça disputar mercado dominado pelo Brasil

País asiático aumentou a produção em mais de 9% no primeiro semestre de 2026 e avança nas exportações, mas continua entre os principais compradores da carne brasileira.
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A China está ampliando a produção e as exportações de carne de frango, movimento que pode transformar um dos maiores clientes do agronegócio brasileiro em concorrente no mercado internacional. A produção chinesa cresceu mais de 9% no primeiro semestre de 2026, enquanto a demanda interna por determinados cortes avançou em ritmo menor, abrindo espaço para a venda de excedentes a outros países.

O cenário representa um novo desafio para o Brasil, maior exportador mundial da proteína. Apesar da expansão chinesa, os dois países ainda mantêm uma relação comercial importante: entre janeiro e setembro deste ano, a China comprou aproximadamente 420,4 mil toneladas de frango brasileiro, movimentando US$ 1,15 bilhão, o equivalente a cerca de R$ 5,73 bilhões.

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China aumenta produção e ganha espaço nas exportações

O crescimento da indústria avícola chinesa vem ocorrendo em ritmo acelerado. Segundo dados do Rabobank, instituição financeira especializada no agronegócio, a produção de carne de frango no país aumentou mais de 9% no primeiro semestre de 2026, depois de registrar expansão de aproximadamente 7% em 2025.

Com uma oferta maior do que a demanda por determinados produtos no mercado doméstico, empresas chinesas passaram a buscar compradores no exterior. A estratégia inclui tanto produtos industrializados quanto cortes de carne in natura.

Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que a China exportou 546 mil toneladas de carne de frango entre janeiro e maio de 2026, volume 51% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.

Em 2025, os embarques chineses superaram 1 milhão de toneladas, colocando o país na quinta posição entre os maiores exportadores mundiais de carne de frango.

O Brasil, por sua vez, exportou aproximadamente 5,3 milhões de toneladas no ano passado, mais de cinco vezes o volume comercializado pela China. A diferença demonstra que a liderança brasileira permanece expressiva, embora o avanço chinês possa modificar a concorrência em mercados específicos.

Peito de frango impulsiona vendas chinesas

Uma das explicações para o crescimento das exportações está nos hábitos alimentares da população chinesa. Enquanto consumidores brasileiros costumam comprar peito, coxa e sobrecoxa, os chineses valorizam especialmente cortes como pés e asas.

Essa diferença faz com que parte da produção de peito de frango na China encontre maior demanda no exterior.

Entre janeiro e maio de 2026, o país exportou 257,1 mil toneladas desse corte, crescimento de 59,6% em comparação com o mesmo intervalo de 2025, segundo dados da alfândega chinesa.

O peito representou 63,3% do volume considerado nas estatísticas alfandegárias de exportação por cortes, evidenciando sua importância na estratégia comercial do setor.

De acordo com Chenjun Pan, especialista em proteínas animais do Rabobank, o avanço da produção chinesa pode intensificar a concorrência com fornecedores tradicionais, incluindo o Brasil.

Entre os mercados em que essa disputa poderá se tornar mais relevante estão países do Oriente Médio, da Ásia e da África, regiões que já compram volumes significativos de carne de frango brasileira.

Por que a China continua comprando frango brasileiro?

Mesmo com o aumento da produção doméstica, a China permanece entre os principais destinos das exportações brasileiras de frango. A explicação está na preferência dos consumidores por cortes diferentes daqueles que concentram a oferta destinada à exportação.

Os pés de frango, por exemplo, têm grande valor comercial no mercado chinês. O produto é consumido como petisco, utilizado em sopas e caldos e também comercializado em embalagens individuais, inclusive em lojas de conveniência.

No Brasil, o mesmo corte tem participação menor nos hábitos de consumo, o que permite à indústria exportá-lo para mercados onde alcança preços mais elevados.

Em 2025, as vendas brasileiras de pés de frango para a China renderam aproximadamente US$ 221 milhões. Segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o preço pode chegar a cerca de US$ 3 mil por tonelada, dependendo das características do produto.

Essa complementaridade comercial ajuda a explicar por que a China pode ampliar suas exportações sem necessariamente deixar de importar carne brasileira.

China comprou mais de 420 mil toneladas do Brasil em 2026

Os números mostram que a relação comercial entre os dois países continua relevante para a indústria avícola brasileira.

De janeiro a setembro de 2026, as exportações de carne de frango do Brasil para a China somaram aproximadamente 420,4 mil toneladas, com receita de US$ 1,15 bilhão.

Durante boa parte do ano, os chineses ocuparam a liderança entre os compradores do produto brasileiro. O país foi o principal destino em fevereiro, abril, maio, junho, julho e agosto.

Em setembro, a China passou à terceira posição, com 40,9 mil toneladas importadas. Os Emirados Árabes Unidos lideraram as compras, com 45,9 mil toneladas, seguidos pela União Europeia, com 43,5 mil toneladas.

No mesmo mês, o Brasil exportou 500,3 mil toneladas de carne de frango para todos os destinos, crescimento de 3,7% em relação a setembro de 2025. A receita alcançou US$ 984,2 milhões, alta de 14,7% na comparação anual, segundo dados da ABPA.

No acumulado dos nove primeiros meses do ano, as exportações brasileiras chegaram a aproximadamente 4,4 milhões de toneladas, demonstrando a força do setor no comércio internacional.

Concorrência pode pressionar indústria brasileira

O avanço da China representa um desafio principalmente porque aumenta a oferta internacional de carne de frango em mercados que também são atendidos pelos exportadores brasileiros.

Se a produção chinesa continuar crescendo, empresas dos dois países poderão disputar compradores com maior intensidade, especialmente nos segmentos em que comercializam cortes semelhantes.

Essa concorrência pode influenciar negociações comerciais e preços internacionais, mas seus efeitos dependerão de fatores como custos de produção, exigências sanitárias, tarifas de importação e capacidade logística.

O Brasil mantém vantagens importantes, entre elas a experiência no comércio internacional de proteína animal, a escala de produção e a presença consolidada em diferentes destinos.

Por outro lado, a expansão da indústria chinesa mostra que o mercado global está passando por mudanças e que países tradicionalmente importadores podem aumentar sua participação como fornecedores.

O que esperar dos próximos anos?

A China ainda está distante de alcançar o volume exportado pelo Brasil, mas seu crescimento já chama a atenção de especialistas do setor. A combinação entre aumento da produção, mudanças no consumo doméstico e busca por novos mercados pode ampliar a presença chinesa no comércio mundial de carne de frango.

Para a indústria brasileira, o desafio será preservar a competitividade e ampliar a diversificação dos destinos comerciais, reduzindo a exposição a mudanças na demanda de grandes compradores.

Ao mesmo tempo, a preferência dos consumidores chineses por determinados cortes deve continuar sustentando parte das importações de carne brasileira.

Assim, a relação entre Brasil e China no setor avícola tende a ganhar uma característica cada vez mais complexa: os dois países poderão continuar sendo parceiros comerciais enquanto disputam espaço nas exportações para outras regiões do mundo.

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