Flávio supera votação do pai em todas as classes sociais; Lula perde espaço na classe média e ganha entre ricos

Análise da Folha mostra avanço do candidato do PL em todas as faixas de renda na comparação com 2022, enquanto o presidente mantém vantagem entre os mais pobres e cresce entre os mais ricos.
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O senador Flávio Bolsonaro (PL) recebeu, no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, uma proporção maior de votos do que a registrada pelo pai, Jair Bolsonaro, em 2022, em todas as faixas de renda analisadas. O levantamento, publicado pela Folha de S.Paulo nesta terça-feira (13), também aponta uma mudança no perfil do eleitorado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que perdeu apoio principalmente entre os brasileiros de renda média e média baixa, mas avançou entre os mais ricos.

A análise cruza os resultados das urnas de 4 de outubro com dados de renda do Censo de 2022, considerando aproximadamente 468 mil setores censitários do país. Nos setores de menor renda, Lula alcançou até 76% dos votos, enquanto Flávio apresentou maior participação eleitoral nas faixas intermediárias e superiores. O estudo permite identificar mudanças geográficas no comportamento do voto, mas não determina individualmente a renda de cada eleitor.

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Flávio Bolsonaro amplia votação do pai em todas as classes de renda

O estudo da Folha mostra que Flávio Bolsonaro conseguiu ampliar a participação eleitoral do PL em todas as classes sociais, na comparação com o desempenho de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022.

O crescimento foi mais expressivo entre os eleitores de renda média e baixa, segmentos nos quais Lula registrou suas maiores perdas.

Na divisão por classes econômicas, o avanço de Flávio em relação à votação do pai foi de 4,9 pontos percentuais na classe C, 4,5 pontos na classe D e 4,3 pontos na classe E.

O resultado indica uma mudança na distribuição dos votos entre os dois principais grupos políticos que disputam a Presidência, embora não permita concluir que todos os votos adicionais tenham vindo diretamente de antigos eleitores de Lula.

Lula perde mais votos na classe média, mas cresce entre os ricos

O presidente Lula apresentou redução na participação eleitoral em grande parte das faixas de renda, quando comparado ao primeiro turno de 2022.

A maior queda ocorreu na classe C, na qual o petista perdeu 5,1 pontos percentuais. Na classe D, a redução foi de 3,9 pontos, enquanto na classe E chegou a 3,2 pontos.

Entre os grupos de maior renda, entretanto, o comportamento foi diferente.

Na classe B, Lula avançou 0,4 ponto percentual. Já na classe A, o crescimento foi de 1,6 ponto.

A análise mais detalhada dos setores censitários também identificou aumento da votação do presidente entre os 4% mais ricos da população.

Apesar desse crescimento, Flávio Bolsonaro manteve uma proporção maior de votos nos segmentos de renda mais elevada.

Lula alcança 76% entre os mais pobres

O levantamento aponta que a renda continua sendo um fator importante na distribuição dos votos presidenciais.

Nos setores censitários em que o responsável pelo domicílio recebe, em média, cerca de 0,7 salário mínimo, equivalente a aproximadamente R$ 1,1 mil, Lula obteve 76% dos votos.

A participação eleitoral do presidente diminui gradualmente conforme aumenta a renda média das localidades.

Na análise territorial detalhada, Lula apresenta maior votação nos setores mais pobres, especialmente naqueles com renda média de até aproximadamente 1,6 salário mínimo.

Acima desse patamar, Flávio Bolsonaro registra maior participação nos votos, segundo os dados apresentados pela Folha.

É importante observar que os percentuais representam os resultados das urnas em localidades agrupadas por renda média, e não necessariamente a escolha individual de todos os moradores de cada faixa econômica.

Flávio chega a 56% em setores de renda intermediária

Entre os setores censitários com renda média de aproximadamente 2,9 salários mínimos, equivalentes a R$ 4,7 mil mensais, Flávio Bolsonaro conquistou 56% dos votos.

Esse foi um dos pontos de maior participação eleitoral do senador na distribuição por renda apresentada pelo levantamento.

Na faixa mais elevada analisada, correspondente a uma renda média de cerca de 16,2 salários mínimos, ou aproximadamente R$ 26,2 mil, Flávio recebeu 50% dos votos, enquanto Lula alcançou 39%.

O desempenho mostra que, embora o presidente tenha ampliado sua participação entre os mais ricos em relação a 2022, o candidato do PL permaneceu com maior votação nesse segmento no primeiro turno de 2026.

Veja como cada candidato se saiu nas classes sociais

Além da divisão dos setores censitários em grupos de renda, a Folha analisou o comportamento eleitoral a partir de uma classificação econômica baseada em critérios da FGV Social.

Nesse recorte, os resultados foram:

  • Classe A: Flávio Bolsonaro recebeu 50% dos votos;
  • Classe B: Flávio Bolsonaro alcançou 53%;
  • Classe C: Flávio Bolsonaro registrou 52%;
  • Classe D: Lula recebeu 68%;
  • Classe E: Lula alcançou 76%.

A classificação considera faixas de renda familiar e utiliza uma metodologia diferente daquela aplicada à divisão dos setores censitários em 100 grupos.

Por isso, os resultados dos dois recortes não devem ser interpretados como se representassem exatamente os mesmos conjuntos de eleitores.

Por que a classe média mudou seu comportamento eleitoral?

Especialistas ouvidos pela Folha apontam que a melhora de indicadores econômicos, como emprego e renda, não necessariamente se traduz em uma percepção positiva sobre as condições de vida.

Entre os fatores mencionados estão os juros elevados, o endividamento das famílias e as dificuldades de acesso ao consumo.

O economista Marcelo Neri, pesquisador da FGV Social, destacou que o mercado de trabalho apresentou resultados positivos, mesmo diante da insatisfação observada em parte do eleitorado.

“O brasileiro está trabalhando, está gerando renda, o governo está transferindo renda — obviamente cobrando imposto do outro lado, que vai um pouco na direção oposta —, mas o brasileiro segue endividado”, afirmou Neri à Folha.

O pesquisador também relacionou parte das dificuldades financeiras das famílias ao crescimento das apostas eletrônicas.

Segundo ele, a mudança nas aspirações de consumo e a influência das redes sociais são outros elementos que precisam ser considerados para compreender o comportamento dos eleitores.

Essas interpretações representam hipóteses apresentadas pelos especialistas e não demonstram, isoladamente, a causa das mudanças registradas nas urnas.

Resultado muda conforme o estado

A distribuição dos votos por renda também apresenta diferenças importantes entre as unidades da Federação.

Em Minas Gerais, o comportamento eleitoral acompanha, de maneira geral, o padrão identificado nacionalmente: maior participação de Lula nas localidades mais pobres e crescimento relativo de Flávio conforme a renda aumenta.

Na Bahia, entretanto, Lula recebeu mais votos em todos os grupos de renda analisados. A diferença em relação ao adversário diminui nas localidades mais ricas.

No Paraná, ocorreu o movimento inverso. Flávio Bolsonaro obteve maior votação em todos os segmentos, com vantagem mais expressiva entre os grupos de renda elevada.

As diferenças regionais mostram que a renda não é o único fator associado à distribuição do voto. Características políticas, econômicas e sociais de cada estado também precisam ser consideradas.

Como foi feita a análise da Folha?

O levantamento foi produzido pela equipe DeltaFolha, com base no cruzamento dos resultados eleitorais do primeiro turno de 2026 com informações do Censo Demográfico de 2022.

Foram considerados aproximadamente 468 mil setores censitários, que representam pequenas divisões territoriais utilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Esses setores foram organizados em 100 grupos de renda, utilizando o rendimento médio mensal do responsável pelo domicílio.

Para relacionar os resultados eleitorais às localidades, a reportagem utilizou informações sobre os locais de votação fornecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além de bases geográficas e de endereços.

Como o voto é secreto, o método não permite identificar a renda individual de quem escolheu cada candidato. Os resultados mostram a associação entre a renda média de uma região e os votos registrados nos locais de votação correspondentes.

O estudo também não deve ser confundido com uma pesquisa de intenção de voto. Trata-se de uma análise de resultados eleitorais já registrados no primeiro turno.

Disputa entre Lula e Flávio continua no segundo turno

No primeiro turno das eleições presidenciais, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%.

Como nenhum candidato alcançou mais da metade dos votos válidos, a eleição será decidida em segundo turno, marcado para 25 de outubro.

O levantamento sobre renda ajuda a compreender como os votos foram distribuídos na primeira etapa da disputa, mas não permite determinar como os eleitores votarão no segundo turno.

Até a nova votação, as campanhas seguem buscando apoio em diferentes regiões e segmentos sociais, enquanto pesquisas eleitorais acompanham as intenções de voto dos brasileiros.

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