Morre Sílvio Barsetti aos 61 anos após batalha contra o câncer e jornalismo esportivo perde referência na cobertura da CBF

Jornalista foi referência na cobertura da CBF e da seleção brasileira, acumulou quase quatro décadas de carreira e ficou conhecido pelas perguntas incisivas a técnicos e dirigentes.
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Sílvio Barsetti, um dos principais nomes do jornalismo esportivo na cobertura dos bastidores da CBF e da seleção brasileira, morreu aos 61 anos na madrugada desta terça-feira (13), vítima do agravamento de um câncer, deixando um vácuo raro em uma área em que perguntas duras e investigações persistentes já são exceção.

Repórter de bastidores e perguntas incômodas

Formado pela Faculdade Hélio Alonso em 1988, Barsetti construiu quase quatro décadas de carreira em redações como Jornal dos Sports, Jornal do Brasil, O Dia, Estado de S. Paulo — onde trabalhou por cerca de 20 anos — e no portal Terra. Especializou-se em acompanhar de perto a Confederação Brasileira de Futebol e o entorno da seleção, da ascensão de dirigentes como Ricardo Teixeira às sucessivas crises institucionais.

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Nas entrevistas coletivas da seleção, seu nome virou sinônimo de constrangimento para técnicos e cartolas e de expectativa entre repórteres. Colegas observavam o caminho do microfone até suas mãos, certos de que dali viria a pergunta mais difícil da sala. Barsetti costumava resumir sua filosofia de trabalho numa frase que virou marca registrada: “A pergunta tem que ser um pouco amarga, com gosto de jiló cru”.

Essa postura ficou clara em momentos de maior tensão, como na cobertura do desastre da derrota do Brasil por 7 a 1 para a Alemanha, quando ele defendia que não havia espaço para suavizações diante de um fracasso esportivo daquela dimensão. Em mais de uma ocasião, relatou ter sido evitado em entrevistas ligadas à CBF justamente por insistir em questionamentos incômodos.

Reportagem sobre o Morumbi e prêmios

Um dos trabalhos mais emblemáticos de Barsetti foi publicado em 2010, quando antecipou que o Morumbi seria excluído da edição de 2014 do Mundial de Seleções. A apuração contrariou dirigentes do São Paulo, autoridades públicas e até representantes da entidade internacional, que se apressaram em desmentir a informação.

Ele sustentou a reportagem, baseada em conversas com Ricardo Teixeira e em conhecimento acumulado dos bastidores. Meses depois, a exclusão do estádio se confirmou, e o trabalho rendeu a Barsetti o Prêmio Estado de Jornalismo na categoria reportagem, consolidando sua imagem de repórter que não recua diante de desmentidos oficiais.

Entre a CBF, os livros e o América-RJ

O interesse de Barsetti pelas estruturas de poder o levou além do futebol. Em livros-reportagem, abordou episódios da política brasileira, como a célebre festa de guardanapos em Paris associada ao governo Sérgio Cabral e casos que ligavam prostituição a figuras do poder. Em comum, estava a tentativa de mostrar o que se passa longe dos olhos do público.

Depois de décadas fiscalizando a CBF, ele também passou a atuar na comunicação da entidade. Em uma das experiências mais recentes, integrou a delegação da seleção brasileira feminina nos Jogos Olímpicos de Paris como coordenador de comunicação, acompanhando a campanha que terminou com medalha de prata.

Fora da entidade, preservava uma fidelidade rara no futebol atual: era americaníssimo, torcedor apaixonado do América-RJ. Mesmo envolvido em outras funções, decidiu ajudar voluntariamente a coordenação de imprensa do clube durante a disputa da Série A2 do Campeonato Carioca, no estádio Giulite Coutinho, por achar que podia profissionalizar a comunicação do time do coração.

Generosidade com colegas e legado

A firmeza diante de técnicos e dirigentes contrastava com o comportamento nos bastidores de redações, aeroportos e coberturas. Barsetti era descrito como um colega de convivência fácil, bem-humorado e especialmente atento aos mais jovens, com quem fazia questão de dividir histórias, conselhos e contatos.

Com experiência e prestígio suficientes para se manter distante, escolhia a proximidade. Relembrava piadas internas por anos, acompanhava a evolução de quem estava começando e tratava com o mesmo interesse tanto veteranos quanto recém-chegados às viagens da seleção.

Com sua morte, o jornalismo esportivo brasileiro perde um dos poucos profissionais capazes de transformar bastidor em informação relevante, mantendo pressão constante sobre instituições pouco transparentes. A ausência de Barsetti tende a ser sentida não apenas nas redações, que perdem um mentor e referência ética, mas também entre torcedores e cidadãos interessados em entender como se decide o rumo do futebol no país.

Homenagens de colegas e discípulos devem se concentrar na combinação que o marcou: coragem para fazer perguntas “com gosto de jiló cru” e generosidade com quem dividia com ele o dia a dia de redações, coletivas e arquibancadas.

 

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