Mensagens trocadas no fim de 2023 por um operador ligado ao lobista Júlio Cezar, do grupo político do ministro Alexandre Padilha, descrevem uma operação que previa captação de R$ 2 bilhões da Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, pelo Banco Master, com apoio de dirigentes da Previ e de funcionários do próprio BB. O negócio, que incluiria uma visita oficial do banco à direção do fundo e articulação política no Planalto, acabou travado após resistências internas e denúncias na imprensa. Banco do Brasil e Previ negam qualquer relação comercial com o Master.
Mensagens falam em R$ 2 bi ‘liberados’ e roteiro pronto
Nos áudios e mensagens enviados a um interlocutor de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o operador Hamilton Buselin afirma que havia R$ 2 bilhões disponíveis na Previ para compra de letras financeiras emitidas pelo banco, sem limite específico para esse tipo de aplicação.
“A informação que eu tive é de que o Master está tentando fazer uma operação muito grande (de captação nos fundos), mas estão tendo algum problema… Para aquisição de letras, não há limite e a disponibilidade hoje da Previ é de 2 bilhões de reais”, diz Buselin no diálogo.
Segundo ele, o negócio exigiria uma “encenação” formal para dar aparência de normalidade à operação: o Banco Master teria de “provocar” a diretoria da Previ, marcando uma visita oficial, enquanto os detalhes já estariam combinados internamente com o fundo de pensão, comandado por dirigentes indicados pelo PT, entre eles o ex-tesoureiro João Vaccari Neto, citado em proposta de delação de Vorcaro.
“Para que isso seja feito, seja liberado, a gente tem todo o roteiro. Inclusive as pessoas no Banco do Brasil já estão instruídas a esperar e receber o que a gente encaminhar. A coisa já está totalmente montada”, afirma Hamilton Buselin. Em outra mensagem, o emissário de Vorcaro reforça a suposta influência do grupo dentro da Previ: “Ele está bastante dentro da Previ e eles estão com apetite pra comprar letras financeiras e os limites lá são bem altos”.
O operador descreve a operação como uma “porta de entrada” do Master no circuito dos fundos de pensão, com perspectiva de volumes muito maiores a partir de maio, quando a Previ poderia liberar valores adicionais para investimentos.
Articulação política inclui Planalto e outros fundos
Os diálogos são citados em uma proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro, rejeitada pela Procuradoria-Geral da República por falta de provas formais suficientes. Nos anexos, o banqueiro relata que o esquema de captação envolveria não apenas a Previ, mas também fundos de pensão de servidores da Caixa Econômica Federal, Petrobras e Correios.
Vorcaro afirma que, com a ajuda de Alexandre Padilha, então responsável pela articulação política do governo no Palácio do Planalto, de seu braço-direito Olavo Noleto e do lobista Júlio Cezar, foram abertas portas para reuniões com presidentes desses fundos em Brasília. Registros de entrada no Planalto confirmam encontros de Vorcaro e de operadores ligados ao grupo com assessores do governo em ao menos duas ocasiões.
As conversas também mencionam o esforço para incluir o Banco Master na chamada “lista exaustiva” da Previdência, um cadastro de instituições autorizadas a captar recursos junto aos fundos de pensão. Com esse selo, o banco ganharia credenciais formais para disputar aportes bilhões de reais em aplicações de longo prazo.
Na delação não homologada, Vorcaro estimou que o conjunto das operações poderia render cerca de R$ 10 bilhões em captações ao Banco Master e gerar R$ 1 bilhão em propinas destinadas ao grupo político, valores que não foram confirmados pela Justiça.
Operação trava após denúncias e resistências internas
O plano começou a ruir em 2024, quando reportagens trouxeram à tona resistências de gestores de fundos de pensão, sobretudo na área de gestão de recursos da Caixa, a investimentos em letras financeiras do Banco Master. Segundo o relato de Vorcaro, após a exposição pública de pressões políticas e de possíveis irregularidades, dirigentes da Previ, da Petros (Petrobras), do Postalis (Correios) e de fundos ligados ao Banco do Brasil recuaram e adiaram decisões sobre qualquer aporte no Master.
O Banco Master já enfrentava desgaste por dificuldades financeiras, reclamações de clientes de crédito consignado e questionamentos sobre a qualidade de seus ativos. O aumento do escrutínio regulatório e interno nos fundos de pensão elevou a percepção de risco e travou a articulação para a captação bilionária.
A proposta de delação de Vorcaro mencionando Padilha, Noleto, Júlio Cezar e dirigentes de fundos foi recusada pela PGR, que apontou ausência de provas robustas. Apesar disso, o conteúdo do material circula entre órgãos de controle e alimenta pedidos de investigação formal sobre eventual interferência política na gestão dos recursos de aposentadoria de servidores de estatais.
Banco do Brasil e Previ reagem e negam relação com Master
Após a divulgação das mensagens de Hamilton Buselin, o Banco do Brasil divulgou nota em que “repudia veementemente” as declarações atribuídas a terceiros e afirma não manter qualquer relação comercial ou institucional com empresas do grupo Master. O banco nega que haja empregados ou estruturas internas instruídos a facilitar negociações com o Master.
Na nota, o BB sustenta que “não há e nunca houve qualquer concessão de empréstimos ou compra ou distribuição de papéis relacionados ao Master pelo Banco do Brasil e Previ”, e diz que adotará medidas para defender sua reputação contra “ilações infundadas”. A instituição ressalta que todas as suas operações seguem critérios rígidos de governança, compliance e legislação vigente.
A Previ também reagiu publicamente. Em comunicado, o fundo afirma que “nunca realizou análise de investimento no Banco Master e jamais aprovou, reservou ou autorizou recursos para aplicações na instituição”. A entidade diz que o Master “sequer foi considerado como possível parceiro de investimento” e reitera que o banco não foi habilitado nem analisado para operar com a fundação.
O fundo de pensão reforça o compromisso com critérios rigorosos de governança e com a gestão responsável dos recursos dos participantes, lembrando que a lista de investimentos está disponível na área de transparência de seu site. Alexandre Padilha, Olavo Noleto e outros citados na proposta de delação já haviam negado, em notas anteriores, qualquer relação ilícita com Vorcaro, recebimento de propina ou atuação em benefício do Banco Master.
Entenda o contexto
A Previ é um dos maiores fundos de pensão do país, responsável pela aposentadoria complementar de funcionários do Banco do Brasil. Com patrimônio bilionário e grande peso no mercado financeiro, suas decisões de investimento influenciam taxas de juros, valor de empresas na bolsa e o financiamento de grandes projetos.
Fundos de pensão de estatais, como os ligados à Caixa, Petrobras e Correios, também administram somas expressivas de recursos de aposentadoria. Por isso, são alvos permanentes de bancos e gestoras de ativos que disputam mandatos de gestão, compra de títulos e estruturação de operações de crédito.
Quando há interferência política ou flexibilização de critérios técnicos para aplicação desses recursos, aumentam os riscos de prejuízos aos participantes e de uso do patrimônio previdenciário para atender a interesses de grupos específicos. O caso envolvendo o Banco Master reacende o debate sobre transparência, governança e blindagem dos fundos de pensão contra pressões partidárias.
Qual a relação entre o Banco Master e o Banco do Brasil?
Até agora, Banco do Brasil e Previ afirmam não ter qualquer relacionamento financeiro com o Banco Master, apesar das tentativas de aproximação descritas por operadores e pelo próprio Daniel Vorcaro.
Nos bastidores, a articulação relatada por Hamilton Buselin e pela proposta de delação de Vorcaro apontava para um papel central do Banco do Brasil como porta de entrada do Master no universo dos fundos de pensão ligados a estatais. O roteiro descrito incluía funcionários do BB supostamente “instruídos” para receber pedidos de reunião e facilitar a tramitação interna de uma grande operação de captação.
Na prática, porém, BB e Previ afirmam que isso nunca se materializou em negócios concretos: não houve concessão de empréstimos ao Banco Master, nem compra ou distribuição de títulos ligados ao grupo. Ou seja, a relação teria ficado restrita a tentativas de lobby e a encontros políticos, sem que o banco de varejo e seu fundo de pensão assumissem exposição financeira ao Master.
O episódio, no entanto, pressiona o Banco do Brasil a reforçar controles internos, registrar agendas de reuniões de executivos e demonstrar que eventuais aproximações com instituições privadas seguem critérios técnicos, e não indicações derivadas de articulações políticas no Planalto.
O que houve com o Banco Master no Brasil?
O Banco Master se tornou alvo de questionamentos no mercado ao buscar ampliar agressivamente sua captação junto a fundos de pensão, ao mesmo tempo em que enfrentava dificuldades operacionais e forte exposição em operações de crédito consignado.
Mensagens de operadores obtidas por autoridades apontam que a estratégia de crescimento incluía a emissão em larga escala de letras financeiras para serem adquiridas por grandes fundos, como a Previ. A combinação de necessidade de liquidez, intermediação política e promessas de altos volumes de negócios levou o banco ao centro de investigações e de conflitos internos em gestores de recursos de estatais.
Diante da repercussão negativa, da resistência de técnicos em fundos de pensão e da recusa da PGR em homologar, por ora, a delação de seu principal acionista, o banco passou a operar sob maior vigilância de reguladores e do mercado. A lista de credores, os canais de atendimento — como telefone, WhatsApp e endereço de suas unidades — e a oferta de produtos, como o consignado Credcesta, continuam sob acompanhamento de órgãos de defesa do consumidor e do Banco Central.
Para quem tem empréstimos, aplicações ou é credor do Banco Master, especialistas recomendam atenção redobrada aos comunicados oficiais do liquidante, caso venha a ser nomeado em algum processo futuro, e aos registros formais em atas e editais, únicos documentos que garantem direitos em eventuais renegociações ou processos de liquidação judicial ou extrajudicial.