Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu das entrevistas da TV Globo em vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL): levou a melhor na avaliação dos colunistas, atraiu mais público e tenta transformar esse impulso em votos na reta final do segundo turno presidencial.
Lula é melhor avaliado e amplia capital político
As sabatinas, conduzidas por Renata Lo Prete e exibidas após o Jornal Nacional, ocorreram nesta semana, com Lula na quinta-feira e Flávio na sexta-feira, em ordem definida por sorteio. Ao fim dos dois programas, o balanço interno de quem acompanha a campanha é que o presidente conseguiu preservar e possivelmente ampliar seu espaço, enquanto o senador teve dificuldade para furar a bolha de seu eleitorado já fiel.
Colunistas que acompanharam as entrevistas atribuíram notas de 1 a 5 para o desempenho dos candidatos. A média de Lula foi de 3,8, contra 2,9 de Flávio Bolsonaro. Quanto maior a nota, melhor a atuação. O contraste reforça a percepção de que o petista esteve mais seguro e à vontade no estúdio, mesmo sob pressão.
“Lula se mostrou mais relaxado hoje do que na entrevista do primeiro turno, quando se apresentou irritadiço”, avaliou o colunista Lauro Jardim, que deu nota 3. Para ele, o petista “escorregou quando disse que não sabia que o Bolsa Família não havia sido reajustado em quase quatro anos de governo — algo grave para quem se arvora em ser um governante preocupado com os mais pobres”, mas o “saldo geral da entrevista é positivo”.
Bernardo Mello Franco, que atribuiu nota 4, destacou um Lula sem o “chapéu e a tensão do primeiro turno”, reconhecendo falhas do governo, ajustando o discurso sobre segurança pública e sendo “incisivo ao cobrar reformas no STF”, embora tenha “perdido a chance de falar mais sobre o fim da escala 6×1”.
Erro sobre Bolsa Família contrasta com postura mais calma
O ponto mais criticado da participação de Lula foi a declaração de que desconhecia a falta de reajuste do Bolsa Família por quase quatro anos. A frase foi classificada como erro grave por praticamente todos os analistas, mas não anulou a leitura predominante de que o presidente dominou o terreno da entrevista.
“Lula fez um esforço para se desligar da crise do STF, deu boa resposta sobre governabilidade. Errou ao dizer que desconhecia que o Bolsa Família não tinha sido reajustado”, escreveu Míriam Leitão, que deu nota 4. Para ela, o presidente “perdeu a chance de dar alguma sinalização de ajuste fiscal”, mas acertou ao lembrar que recebeu “um país desmontado pelo governo anterior”.
Merval Pereira, também com nota 4, ressaltou o contraste em relação ao primeiro turno: “Lula estava afirmativo, tranquilo, e não irritadiço. Foi até engraçado ele dizer que não sabia que o Bolsa Família não tinha sido reajustado”.
Renato Meireles avaliou que o petista “não caiu em armadilhas, manteve a calma, justificou a demora no reajuste do Bolsa Família e marcou distância da Faria Lima”. Em sua visão, Lula defendeu o SUS, mas “deixou escapar a chance de explorar enfaticamente seu maior trunfo eleitoral: o fim da escala 6×1”.
Segurança pública, STF e maioridade penal entram no radar
No conteúdo, analistas enxergaram um Lula disposto a ajustar o discurso em temas sensíveis, sobretudo segurança pública e relação com o Judiciário. Ele defendeu a redução da maioridade penal para crimes hediondos, cobrou reformas no Supremo Tribunal Federal e prometeu manter as investigações sobre o caso Master, assunto jurídico que pressiona o governo.
Thomas Traumann, que deu nota 4, resumiu: Lula esteve “mais seguro, afável e enfático do que na primeira entrevista”, defendeu a redução da maioridade penal para crimes hediondos, “ameaça retaliar os EUA” e promete manter as apurações sobre o caso Master. Pediu votos reconhecendo, pela primeira vez, que “não deu para fazer tudo”. Na leitura do analista, o presidente “segurou os votos que já tinha e pode ter ganho alguns extras”.
Fábio Graner viu um candidato que “se mostrou mais à vontade e seguro no modelo de entrevista desse segundo turno”, explicou melhor planos e estratégias e “seguiu os conselhos de mostrar mais humildade sobre seu governo e jogar mais duro com o STF e Alexandre de Moraes”. Ele destacou que Lula “foi duro ao chamar organizações criminosas de terroristas internos” e que o tom de proteção aos mais pobres pode compensar a falta de um discurso claro sobre controle de gastos.
Flávio fala para a base, mas não rompe bolha
Flávio Bolsonaro entrou na entrevista com objetivo evidente de consolidar sua base e se aproximar ainda mais do eleitorado evangélico. Começou em tom sereno, com frases ensaiadas para fidelizar esse segmento e tranquilizar quem teme cortes em programas sociais.
“Flávio Bolsonaro começou bem ensaiado: adotou tom sereno e repetiu frases feitas para fidelizar evangélicos e não afugentar eleitores que temem cortes no social”, afirmou Bernardo Mello Franco, que deu nota 3. Na sequência, porém, o senador “se enrolou ao responder sobre armas, condenação dos golpistas e negócios com Daniel Vorcaro”.
Lauro Jardim, também com nota 3, avaliou que o candidato “não foi convincente na explicação sobre como faria um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões” e, em boa parte da sabatina, “fugiu de dar respostas objetivas”. Ao tratar do caso Dark Horse, Flávio “se mostrou nervoso, como se não conseguisse lembrar da resposta que ensaiou no media training”. Entre os pontos positivos, o colunista citou a insistência em ataques a Lula em temas como segurança pública e o bom resumo das propostas nas considerações finais.
Míriam Leitão enxergou um uso predominantemente eleitoral do espaço: “Flávio usou a entrevista como palanque em vez de responder às perguntas com dúvidas razoáveis sobre a sua candidatura”. Para ela, a postura “lacra entre os que já são seguidores, mas há dúvidas se consegue convencer os indecisos e os independentes”. Ela lembra que o senador voltou a negar tentativa de golpe, chamando o episódio de “golpe da Disney”, e aproveitou o fim da entrevista para falar diretamente aos eleitores e pedir votos.
Pablo Ortellado, que também deu nota 3, ressaltou que Flávio se manteve sereno na maior parte do tempo e deu “respostas inequívocas sobre temas sociais, como aumento do mínimo, manutenção do Bolsa Família e não desvinculação das aposentadorias”, além de se comprometer a respeitar o resultado das urnas. Em temas sensíveis, como acusações de corrupção e políticas controversas, preferiu “tergiversar e subir o tom atacando o candidato adversário”.
Renato Meireles avaliou que o senador “começou bem, abandonando posições impopulares, mas foi pior do que na sabatina do primeiro turno”. Diante de questionamentos sobre seu passado e o do pai, ficou “irritadiço e atacou Lula em excesso”, sinal de nervosismo em meio ao crescimento do PT detectado na última semana.
Entenda o contexto
As entrevistas fazem parte da cobertura do segundo turno das eleições presidenciais, em um cenário acirrado e com temas como políticas sociais, segurança pública e governabilidade no centro do debate. Na sondagem anterior do instituto Quaest, Flávio Bolsonaro aparecia com 46% das intenções de voto, contra 44% de Lula, empate técnico dentro da margem de erro.
A nova pesquisa Quaest, a primeira após as sabatinas na Globo, está em campo entre os dias 17 e 20 de outubro, com 2.154 entrevistas presenciais, margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95%. A divulgação está prevista para esta semana e é aguardada pelas campanhas como termômetro do impacto imediato das entrevistas.
O segundo turno está marcado para 25 de outubro. Até lá, as campanhas devem intensificar estratégias na TV, nas redes e nas ruas, tentando explorar o desempenho de Lula e conter os danos da atuação de Flávio na maior vitrine da televisão aberta.
Audiência reforça vantagem de Lula
Além da percepção de desempenho, os números de audiência reforçam o saldo mais favorável para o presidente. Segundo dados do Ibope obtidos pela coluna Outro Canal, a entrevista de Lula registrou público 19% superior ao de Flávio Bolsonaro, o que representa quase um milhão de telespectadores a mais.
O dado é visto por estrategistas como um ativo relevante na reta final: mais gente ouviu diretamente as explicações do presidente sobre economia, Bolsa Família, STF e segurança pública, bem como suas promessas para um eventual novo mandato. A entrevista de Flávio, em contrapartida, falou para um público menor e não conseguiu, na avaliação predominante dos analistas, quebrar resistências fora de sua base.
Com as sabatinas encerradas, a disputa se desloca agora para a repercussão nas redes, nos programas eleitorais e, sobretudo, para o impacto mensurável que deve aparecer na próxima pesquisa Quaest — visto dentro das campanhas como o primeiro grande teste do efeito Globo sobre a corrida presidencial.