O Brasil voltou a ser devedor internacional depois de 19 anos em posição credora, ao ver a dívida externa alcançar US$ 407,1 bilhões em junho e ultrapassar as reservas internacionais, hoje em US$ 402 bilhões, o que segundo economistas reduz a margem de segurança do país para enfrentar choques externos prolongados.
Qual é o valor atual da dívida externa do Brasil?
A dívida externa bruta está em US$ 407,1 bilhões, acima das reservas de US$ 402 bilhões, o que gera uma dívida externa líquida positiva de US$ 5,1 bilhões. Na prática, o Brasil passou a dever mais ao exterior do que tem guardado em ativos internacionais.
Os números incluem o endividamento de governo, bancos e empresas com credores estrangeiros, de acordo com o balanço do Banco Central. É a primeira vez em quase duas décadas que o estoque de dívida externa supera o volume de reservas e créditos externos considerados no cálculo.
Apesar da virada, a dívida externa líquida ainda representa menos de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB), e as reservas seguem em nível elevado, suficientes para cobrir mais de três vezes os vencimentos de curto prazo em moeda estrangeira. Esses fatores são citados por analistas como importantes amortecedores contra uma fuga brusca de capitais.
Por que a dívida externa do Brasil cresceu mais que as reservas recentemente?
A dívida externa avançou 27,4% no atual governo, impulsionada por maior captação de recursos em moeda forte pelo setor público, bancos e empresas, enquanto as reservas internacionais cresceram 15,8% no mesmo período, freada por intervenções do Banco Central no câmbio e pela valorização do real.
O movimento ocorreu em um ambiente de investidores globais buscando diversificar aplicações fora dos Estados Unidos, o que facilitou emissões de títulos e tomada de empréstimos no exterior por agentes brasileiros. Ao mesmo tempo, o Banco Central aproveitou momentos de estresse cambial para vender dólares e segurar a volatilidade, o que limita a recomposição de reservas.
Para a economista-chefe da KAT Investimentos, Elisa Machado, o país deveria ser mais ativo na formação de colchão de liquidez quando o cenário é favorável. “Comprar na calma é mais barato”, diz, ao defender que o governo use períodos de entrada forte de investimento direto e câmbio mais tranquilo para reforçar as reservas.
Entenda o contexto
O fim da condição de credor líquido ocorre junto a um salto no déficit em transações correntes, que somou US$ 67,4 bilhões no ano passado, mais que o dobro dos US$ 27 bilhões registrados dois anos antes. Esse saldo negativo reflete a combinação de menor superávit no comércio de bens, contas deficitárias em serviços e aumento das remessas de lucros, juros e dividendos ao exterior.
Esse buraco tem sido coberto principalmente pelo investimento estrangeiro direto — recursos que entram no país para projetos produtivos e aquisição de empresas —, mas com folga cada vez menor. Em 2023, o investimento direto superou o déficit em transações correntes em US$ 38 bilhões; em 2025, essa diferença caiu para US$ 17,6 bilhões. Em 2024, a margem foi ainda mais apertada, inferior a US$ 9 bilhões.
Se o déficit seguir alto e a entrada de investimento direto desacelerar, o país pode ficar mais dependente de outras fontes de financiamento externo, como emissão de títulos e captação bancária, normalmente com custo maior e mais sensíveis a mudanças de humor dos mercados.
O que significa o Brasil voltar a ser devedor internacional após 19 anos?
Voltar a ser devedor internacional significa que, somando todas as dívidas e créditos com o exterior, o Brasil tem agora saldo líquido negativo, depois de quase duas décadas com mais ativos do que passivos em moeda estrangeira.
O economista-chefe da Monte Bravo, Felipe Tavares, avalia que essa condição muda a forma como o país é percebido por investidores e agências de rating. “Acabou o argumento retórico e técnico de ‘país credor líquido’, usado há quase duas décadas junto a agências de rating e investidores estrangeiros”, afirma. Segundo ele, “a perda dessa almofada líquida reduz a margem de manobra para absorver choques prolongados sem repasse cambial ou pressão sobre os prêmios de risco soberano”.
Na prática, o Brasil tem menos folga para enfrentar, por exemplo, um período longo de saída de dólares ou uma crise financeira global. Com dívida e reservas praticamente empatadas, respostas a choques externos tendem a exigir juros mais altos, câmbio mais desvalorizado ou cortes adicionais de gastos para preservar a confiança.
Como o aumento da dívida externa impacta a economia brasileira?
O maior risco não é imediato, mas de acúmulo de vulnerabilidades caso o desequilíbrio externo se mantenha ou piore. A combinação de dívida externa crescente, déficit em transações correntes elevado e menor folga no financiamento via investimento direto pode deixar a economia mais sensível a choques de confiança.
O economista Felipe Kotinda, do Santander, pondera que o quadro atual ainda é confortável porque o nível de reservas segue alto em termos históricos. “A preocupação surgiria se observássemos uma tendência persistente de aumento da dívida externa líquida acompanhada de redução de reservas, ampliação do déficit em conta corrente ou maior dependência de financiamento externo”, afirma. Segundo ele, o país continua distante dos patamares de fragilidade vistos em crises passadas.
Setores mais expostos ao dólar, como grandes empresas endividadas em moeda estrangeira e bancos com captações lá fora, podem ver o custo de financiamento subir se o risco-Brasil aumentar. Já o governo tende a ter menos espaço para políticas expansionistas em momentos de turbulência, sob pena de alimentar desconfiança e pressão adicional sobre o câmbio.
O papel do governo Lula no novo quadro externo
A deterioração da posição líquida se concentrou no atual governo, período em que a dívida externa subiu 27,4%, diante de reservas que avançaram 15,8%. O salto reflete tanto o apetite de captação de empresas e do setor público quanto o fato de o Banco Central não ter recomposto, na mesma velocidade, o colchão de reservas usado em momentos de estresse.
Em 2024, diante de preocupações do mercado com a política fiscal e o rumo das contas públicas, o BC promoveu a maior intervenção em dólares desde a adoção do câmbio flutuante, o que ajudou a conter a volatilidade, mas também consumiu parte da proteção em reservas.
Nesse cenário, analistas cobram maior previsibilidade fiscal. “O episódio ressalta a necessidade de um plano fiscal crível no próximo governo, a fim de mitigar riscos à estabilidade macroeconômica”, afirma Martinez, representante de uma das principais agências de classificação de risco. A avaliação é que incertezas em relação às contas públicas podem afastar investimentos e encarecer o custo de rolagem da dívida, inclusive em moeda estrangeira.
Como as agências de rating veem a nova posição do Brasil
Mesmo com a virada para devedor líquido, as grandes agências de rating ainda enxergam a posição externa do Brasil como ponto de força, não de fragilidade. Martinez destaca que, na leitura da agência que representa, o governo continua credor externo líquido, porque as reservas internacionais superam com folga a dívida pública em moeda estrangeira. “O Brasil se destaca como um soberano com colchões externos muito robustos e também com dependência muito baixa dos mercados externos em moeda estrangeira”, diz.
Ele ressalta que países com câmbio flutuante, como o Brasil, não precisam de reservas tão altas quanto economias com câmbio fixo ou rigidamente administrado. “O fato de o Brasil ter forte liquidez externa, apesar de contar com uma moeda flexível, torna seu arcabouço macroeconômico particularmente robusto”, afirma.
Na Moody’s, o vice-presidente sênior William Foster faz avaliação semelhante. “A posição externa é, hoje, uma força, e não uma fragilidade”, diz. Ele cita a baixa dependência de dívida em moeda estrangeira, o regime de câmbio flexível, o volume de ativos externos, a base exportadora diversificada e a persistência do investimento direto estrangeiro como fatores que “continuam sustentando a resiliência externa do País”.
Para as agências, o ponto mais sensível segue sendo o fiscal. Juros elevados por um período prolongado e dúvidas sobre a capacidade de o governo cumprir metas de resultado primário reduzem o espaço para administrar o custo da dívida e podem, no limite, pressionar o rating soberano se o quadro se agravar.
Próximos passos: reservas, emissões e disputa por capital
Do lado do governo, a avaliação oficial é de que a cobertura da dívida externa segue “bastante confortável”, com monitoramento contínuo das condições de mercado para novas emissões no exterior. A estratégia do Tesouro é diversificar fontes de financiamento e alongar o perfil da dívida, mantendo a exposição em moeda estrangeira limitada.
A meta é elevar gradualmente a fatia da dívida pública em moeda forte, hoje abaixo de 4%, para algo em torno de 7% do estoque total, de acordo com o Plano Anual de Financiamento. A ideia é aproveitar janelas favoráveis para emissões de títulos de referência em dólar, reforçar a presença em euro e, quando as condições permitirem, estrear emissões em yuan, já autorizadas pelos órgãos de controle.
O desafio é que essa disputa por capital ocorre em um ambiente de juros altos nos títulos norte-americanos e forte corrida global por investimentos em tecnologia, em especial inteligência artificial, o que tende a drenar parte dos recursos disponíveis para emergentes. Na avaliação de Elisa Machado, da KAT Investimentos, esse contexto pode reduzir o apetite de investidores por papéis de países em desenvolvimento. “O efeito mais provável é encarecer e encurtar o financiamento em carteira”, afirma.
Para economistas e agências, o recado central é que o Brasil deve usar períodos de estabilidade e entrada robusta de capital produtivo para recompor reservas e fortalecer a posição externa, reduzindo a dependência de financiamento mais volátil e ganhando fôlego para enfrentar choques futuros sem sobressaltos.