João Velho, filho mais velho de Cissa Guimarães, levou hoje à Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), no Rio de Janeiro, uma notícia-crime e um registro de ocorrência contra o autor de um comentário em rede social que chamou de “herói” Rafael de Souza Bussamra, motorista condenado pelo atropelamento que matou seu irmão, Rafael Mascarenhas, no Túnel Acústico que hoje leva o nome do jovem.
O ator pede que o responsável pelo perfil no Instagram seja investigado por apologia de crime e ameaça, após a publicação de uma mensagem que, segundo a família, não só exalta o condenado como usa a tragédia para atacá-los politicamente, reacendendo a dor mais de 16 anos depois da morte de Rafael, então com 18 anos.
Qual foi a reação da família após comentário que chamou o condenado pela morte de Rafael de ‘herói’?
A reação foi imediata: João Velho acionou a polícia, e os advogados da família pediram abertura de inquérito e quebra de sigilo de dados do perfil que publicou o comentário. A mensagem dizia: “Nas próxima eleição teremos o Rafael Bussamra, para atropelar a esquerda. Meu herói não usa capa, ele usa o volante de um carro”.
Na representação entregue à DRCI, os criminalistas Ricardo Brajterman e Maíra Fernandes afirmam que o texto ultrapassa qualquer limite de divergência política ao transformar em piada e slogan eleitoral o atropelamento que matou Rafael Mascarenhas e ao dirigir o ataque diretamente a João Velho por suas posições públicas. A defesa sustenta que há apologia ao crime e caráter de ameaça, ao sugerir um novo atropelamento, desta vez em contexto político.
Os advogados solicitaram que seja instaurado inquérito policial e que a Meta, responsável pelo Instagram, forneça dados cadastrais completos do perfil, incluindo telefones, endereços, registros de IP e logs de criação e acesso à conta, para que o autor seja identificado e possa responder criminalmente e, em eventual etapa posterior, também na esfera cível.
Para a família Mascarenhas, o episódio representa mais um capítulo de violência nas redes envolvendo a memória do jovem. Em depoimentos públicos anteriores, Cissa já havia relatado o impacto desses ataques. “De vez em quando, fazem uma coisa muito cruel comigo, pessoalmente, que é colocar o meu filho no meio”, contou a apresentadora em entrevista na TV, ao explicar por que passou a evitar ler comentários em suas páginas.
Entenda o contexto
Rafael Guimarães Mascarenhas, filho de Cissa Guimarães e do músico Raul Mascarenhas, morreu na madrugada de 20 de julho de 2010, aos 18 anos, após ser atropelado quando andava de skate com amigos no Túnel Acústico, na ligação entre a Gávea e São Conrado, zona sul do Rio. A pista estava interditada para manutenção quando o carro conduzido por Rafael de Souza Bussamra entrou no local.
As investigações concluíram que o motorista participava de uma corrida ilegal de automóveis, o chamado racha, e trafegava a cerca de 100 km/h ao atingir o jovem. Depois do atropelamento, ele deixou o local sem prestar socorro. O caso ganhou grande repercussão nacional, também por envolver corrupção policial.
Imagens de câmeras mostraram que, após o acidente, o carro de Bussamra foi abordado por uma viatura da Polícia Militar, mas o motorista não foi levado imediatamente à delegacia. A apuração revelou o pagamento de propina para que a ocorrência não fosse devidamente registrada. O pai do motorista, Roberto Martins Bussamra, acabou condenado por corrupção ativa.
No processo criminal, Rafael de Souza Bussamra foi condenado por homicídio culposo, com pena fixada em 3 anos e 6 meses de detenção, e Roberto Bussamra recebeu 3 anos e 10 meses de detenção por corrupção ativa. Após decisões judiciais e recursos, pai e filho passaram ao regime semiaberto em 2023, com progressões posteriores.
Como Cissa Guimarães tem homenageado o filho Rafael Mascarenhas ao longo dos anos?
Cissa mantém há anos uma rotina de homenagens discretas e constantes, que incluem visitas semanais ao túnel onde o filho morreu, hoje rebatizado como Túnel Acústico Rafael Mascarenhas. A apresentadora conta que leva flores ao local “toda semana há 15 anos”, gesto que transformou o espaço marcado pela tragédia em um ponto de memória afetiva.
Além das flores, a família lembra Rafael em entrevistas, projetos sociais e manifestações públicas nas datas mais sensíveis. O jovem, que era estudante universitário, músico, guitarrista e backing vocal da banda The Good Fellas, tinha planos de seguir carreira artística e acadêmica, inclusive com uma viagem de estudos à Europa — planos interrompidos pelo atropelamento.
Mesmo com esse esforço de preservar a memória do filho, Cissa relata que o luto segue exposto em ambiente digital, onde ataques e piadas recorrentes sobre o caso a obrigaram a se afastar parcialmente das redes. O novo registro de notícia-crime feito por João Velho tenta justamente estabelecer um limite jurídico para esse tipo de violência virtual e responsabilizar quem usa o episódio para propagação de ódio e incitação à violência.