Comunidades indígenas do Pará enfrentam dificuldades para conseguir votar no segundo turno das eleições de 2026, marcado para domingo (25). A falta de transporte, o custo do combustível e a seca dos rios estão entre os obstáculos relatados por moradores de aldeias afastadas dos centros urbanos. Em algumas comunidades, indígenas recorrem a vaquinhas para custear o deslocamento até os locais de votação.
A situação preocupa especialmente os eleitores que dependem de embarcações para chegar às urnas. Com a redução do nível dos rios, trajetos que normalmente são realizados de barco podem se tornar mais demorados ou difíceis. Além disso, o dinheiro necessário para abastecer as embarcações representa uma despesa que nem todas as famílias conseguem pagar.
As dificuldades ocorrem a poucos dias da votação presidencial e colocam em discussão as condições de acesso ao voto em territórios indígenas. Embora a Justiça Eleitoral tenha adotado medidas para ampliar o transporte gratuito, a disponibilidade do serviço depende das condições de cada região.
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Indígenas precisam reunir dinheiro para chegar às urnas
A necessidade de organizar vaquinhas para pagar o transporte revela uma das principais dificuldades enfrentadas por comunidades indígenas do Pará durante as eleições.
Em regiões onde não existem estradas ou linhas regulares de transporte, os rios funcionam como as principais vias de deslocamento. Para chegar às seções eleitorais, moradores precisam utilizar barcos e outras embarcações, muitas vezes percorrendo grandes distâncias.
O combustível está entre os principais custos dessas viagens. Quando não há transporte gratuito disponível, as comunidades precisam buscar alternativas para conseguir realizar os trajetos.
A organização coletiva pode envolver contribuições dos próprios moradores para pagar o combustível ou contratar uma embarcação.
Entretanto, nem todas as famílias possuem condições financeiras de contribuir. Isso pode dificultar o deslocamento, principalmente para eleitores que vivem em aldeias mais distantes dos locais onde as urnas estão instaladas.
A falta de transporte adequado não representa apenas um problema de mobilidade. Em períodos eleitorais, pode impedir que cidadãos exerçam o direito ao voto.
Seca dos rios dificulta ainda mais o transporte
Além das dificuldades financeiras, a redução do nível dos rios é outro problema enfrentado por comunidades indígenas na região amazônica.
Durante os períodos de estiagem, a diminuição do volume de água pode comprometer a navegação, principalmente em trechos mais rasos.
Em determinadas situações, embarcações precisam alterar seus trajetos ou reduzir a quantidade de passageiros e cargas transportadas.
A formação de bancos de areia também pode representar riscos para os deslocamentos, exigindo maior atenção dos condutores.
Para comunidades que dependem exclusivamente dos rios, essas condições podem aumentar o tempo necessário para chegar às cidades ou às aldeias onde estão instaladas as seções eleitorais.
No período eleitoral, a situação exige planejamento para garantir não apenas o transporte dos eleitores, mas também o deslocamento de urnas eletrônicas, mesários e demais profissionais responsáveis pela votação.
Pará tem mais de 17 mil eleitores indígenas cadastrados
O Pará registrou crescimento no número de eleitores que se autodeclaram indígenas no cadastro da Justiça Eleitoral.
Segundo dados divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA), o estado passou de 11.169 eleitores indígenas em 2024 para 17.069 em 2026.
O aumento foi de aproximadamente 52% no período.
O crescimento está relacionado, entre outros fatores, à ampliação da identificação de pertencimento indígena no cadastro eleitoral e às ações realizadas para atualizar os dados dos eleitores.
Para as eleições de 2026, o Pará conta com 58 locais de votação instalados em aldeias indígenas.
A presença dessas estruturas busca facilitar o acesso às urnas, mas não elimina todas as dificuldades de deslocamento.
Em alguns territórios, diferentes comunidades são atendidas por um mesmo local de votação, o que pode exigir viagens entre aldeias.
O estado possui mais de 6,2 milhões de eleitores aptos a votar, incluindo moradores de regiões urbanas, rurais, indígenas e quilombolas.
TSE flexibilizou regras para transporte gratuito no segundo turno
Diante das dificuldades de deslocamento enfrentadas por diferentes grupos de eleitores, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu flexibilizar o prazo para solicitar transporte especial gratuito no segundo turno.
A medida foi aprovada em 15 de outubro e permite que os Tribunais Regionais Eleitorais analisem pedidos apresentados depois do prazo regular de 20 dias antes da votação.
A decisão contempla eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida, além de integrantes de comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais.
O atendimento faz parte do programa Seu Voto Importa, que busca ampliar o acesso às seções eleitorais.
A flexibilização, entretanto, não garante que todos os pedidos sejam atendidos.
Cada tribunal regional precisa avaliar a disponibilidade de veículos, embarcações, equipes e condições operacionais para realizar o transporte.
Em áreas de difícil acesso, fatores como distância, condições dos rios e disponibilidade de combustível podem influenciar a organização do serviço.
Dificuldades também foram registradas no Amazonas
Os problemas enfrentados por indígenas para chegar às urnas não estão restritos ao Pará.
No Amazonas, comunidades do Vale do Javari também relataram dificuldades para organizar o transporte fluvial durante o segundo turno.
A Justiça Eleitoral chegou a negar um pedido de transporte para moradores de 44 aldeias, alegando falta de prazo, recursos específicos e dificuldades logísticas.
A solicitação havia sido apresentada pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).
Posteriormente, uma reunião entre representantes indígenas, órgãos públicos e integrantes da Justiça Eleitoral resultou em uma articulação para viabilizar combustível e apoio logístico.
Segundo informações registradas no encontro de quarta-feira (21), representantes das comunidades informaram que as necessidades de combustível e transporte haviam sido atendidas.
O episódio demonstra a importância do planejamento antecipado e da articulação entre as instituições responsáveis pela organização das eleições.
Ministério Público Eleitoral cobrou providências para garantir votação
O Ministério Público Eleitoral (MPE) também manifestou preocupação com as dificuldades enfrentadas por indígenas para participar das eleições.
Na terça-feira (20), o órgão solicitou providências ao Tribunal Superior Eleitoral para garantir o acesso de eleitores indígenas ao segundo turno.
Entre os problemas relatados estavam a falta de transporte gratuito e dificuldades de atendimento em comunidades que utilizam línguas indígenas.
As demandas mencionavam situações registradas em diferentes estados, incluindo Pará, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Minas Gerais e Pernambuco.
O pedido busca evitar que obstáculos logísticos impeçam a participação eleitoral dessas populações.
A organização do transporte em territórios indígenas exige atenção às particularidades de cada comunidade, incluindo as distâncias, as condições geográficas e os meios de deslocamento disponíveis.
O que fazer quando não há transporte para votar?
Eleitores que enfrentam dificuldades para chegar às seções eleitorais podem procurar o cartório eleitoral responsável por sua região ou os canais de atendimento do Tribunal Regional Eleitoral.
No caso das comunidades indígenas, os pedidos de apoio também podem ser encaminhados por representantes e organizações comunitárias, conforme os procedimentos estabelecidos pela Justiça Eleitoral.
A flexibilização aprovada pelo TSE permite que solicitações feitas fora do prazo regular sejam analisadas, mas o atendimento depende da viabilidade operacional.
Por isso, a recomendação é procurar a Justiça Eleitoral o quanto antes para verificar se existe transporte disponível e quais são os procedimentos necessários.
A consulta antecipada também permite confirmar o local de votação e identificar eventuais orientações específicas para comunidades de difícil acesso.