Nuno Leal Maia volta ao teatro e critica falta de papéis para idosos

Aos 79 anos, ator retorna aos palcos e destaca a escassez de oportunidades para artistas idosos na TV brasileira.
Redação NC News
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Aos 79 anos, Nuno Leal Maia voltou ao palco no Rio de Janeiro com a comédia “Meno Male” e aproveita a volta ao teatro para expor, sem ressentimento, um incômodo antigo: a falta de convites para televisão e o pouco espaço dado a personagens maduros na teledramaturgia brasileira.

O que aconteceu com Nuno Leal Maia e por que ele está afastado da TV?

Nuno Leal Maia está há 14 anos sem fazer novelas porque simplesmente deixou de ser chamado para trabalhos na televisão. Em entrevista nesta semana, ele afirmou que não recusou propostas significativas nesse período. “Acho que não. Não sou quase procurado para fazer televisão”, resumiu o ator.

Mesmo assim, ele diz não alimentar mágoas em relação ao mercado. “Não, imagina! Acho que todos na TV fazem o que têm que fazer. É uma indústria. Não tenho ressentimento nenhum com ninguém. Nada disso”, afirmou.

O ator, conhecido de uma geração por papéis marcantes em novelas dos anos 1980 e por personagens populares em tramas juvenis, conta que hoje encontra mais espaço no teatro e no cinema independente, embora com bem menos visibilidade do que tinha na TV aberta.

De volta ao palco com ‘Meno Male’

O retorno de Nuno aos palcos acontece com a nova montagem de “Meno Male”, texto de Juca de Oliveira dirigido por Léo Stefanini, em cartaz no Teatro dos Quatro, na Gávea, Zona Sul do Rio. A peça chegou ao Rio após uma temporada bem-sucedida em São Paulo e marca a volta do ator ao teatro depois de um hiato de cerca de uma década.

No elenco, ele contracena com nomes como Carmo Dalla Vecchia, Joaquim Lopes e Suzy Rêgo. Mesmo elogiando o trabalho atual, Nuno faz questão de relativizar o tamanho do sucesso em comparação à montagem original, encenada nos anos 1980. “A versão original da peça foi um sucesso que marcou época. Aliás, muito mais forte do que o sucesso que a gente está fazendo. Não tem comparação”, disse.

Para ele, o palco oferece hoje o que sente falta na televisão: liberdade para criar. Nuno lembra que, no passado, tinha autonomia para improvisar e sugerir mudanças em texto, algo que considera raro nas produções atuais. Na sua avaliação, as novelas se tornaram mais rígidas e “formatadas”, com pouco espaço para a experimentação que veteranos aprenderam a valorizar.

Personagens maduros e um mercado voltado para o jovem

Nuno associa a escassez de papéis à forma como a indústria televisiva brasileira enxerga seu público. Segundo o ator, a TV foca quase exclusivamente no espectador jovem e deixa de lado tramas centradas em personagens mais velhos. “A indústria televisiva brasileira acha que o jovem é o maior consumidor hoje. Então, há o seguinte pensamento: ‘Vamos fazer coisas para os jovens assistirem’. Mas todo mundo consome, né? Sobretudo os velhos…”, provocou.

Ele compara o cenário nacional com o cinema e a televisão internacionais, onde vê uma valorização maior de artistas maduros. “Americanos e europeus trabalham muito mais com os idosos. Michael Caine faz filme até hoje. Anthony Hopkins também. Robert De Niro não para, pô! E ele está mais velho do que eu. E o Al Pacino? Todos trabalham muito… Personagens maduros são mais valorizados fora do Brasil”, afirma.

Na prática, diz, isso significa que atores experientes acabam migrando para o teatro ou para produções independentes de cinema, que garantem mais autonomia, mas dificilmente alcançam grandes plateias ou retorno financeiro comparável ao da TV aberta.

Trabalho no cinema recente, mas quase sem público

Longe das novelas, Nuno manteve a carreira ativa em produções de cinema nos últimos cinco anos. Ele atuou em filmes como “Trópico de leão” (2021), “Mil luas” (2025) e no inédito “Sangue de groselha”. O próprio ator, porém, reconhece que esses trabalhos passaram quase despercebidos.

“Fiz cinema pra caramba. São filmes que não são vistos, né? Tem um que nem eu ainda vi”, conta, rindo de si mesmo. Ainda assim, ele diz que o prazer de atuar e o mergulho no processo criativo compensam a pouca repercussão. Segundo Nuno, o importante é “exercitar a arte” e buscar autoconhecimento, mais do que conquistar audiência.

Como Nuno Leal Maia fala sobre o envelhecimento e sua vida atual?

Nuno Leal Maia descreve o envelhecimento como um processo natural, que exige aceitar limites físicos e ajustar o ritmo de trabalho. “Hoje gosto de fazer uma coisa de cada vez. A vida me obriga a ser assim. Não tenho mais condições físicas de suportar aquela pauleira. Fui enfraquecendo, perdendo imunidade. As coisas vão baixando… A velhice vai alterando o ritmo. A gente vai mudando, né?”, afirma.

Ele admite surpresa por ter chegado aos 79 anos. “Quando era mais jovem, nem imaginava que estaria vivo com 79 anos. Achava que chegar aos 50 já era uma coisa muito longe”, diz. Por isso, passou a priorizar projetos pontuais, que respeitem seu tempo e sua disposição.

Longe da lógica da superexposição, o ator leva uma rotina simples entre Santos, sua cidade natal, São Paulo e o Rio. Sem motorista, circula de metrô e gosta de observar as pessoas, material bruto para futuros personagens. Ele conta que, no auge do sucesso em novelas, a vida chegou a ficar “massacrante”: o telefone fixo do apartamento em Botafogo, no Rio, precisava ser deixado fora do gancho para não tocar o dia inteiro.

Fama, redes sociais e uma vida mais pacata

Nuno diz que nunca se deslumbrou com o sucesso. “Nunca me deixei levar pela fama. É uma ilusão, né? Não sou astro. Quem tem que mandar em mim sou eu”, afirma. Em outro momento, reforça a ideia: “Nunca me deixei levar pela fama. É uma ilusão, né? Se morasse em Hollywood, talvez tivesse um pouco mais de ousadia nesse sentido. Mas é preciso entender a realidade do país. Não posso ser um astro de Hollywood morando em São Paulo ou no Rio”.

Fora de cena, ele escolheu ficar distante das redes sociais, que hoje funcionam quase como vitrine obrigatória para quem começa na profissão. “Não tenho tempo para as redes sociais. Não sou contra, não. Acho legal para quem gosta disso. Mas nunca fui muito de ficar tricotando, trocando figurinha. Acho melhor fazer ioga”, comenta.

Entre trabalhos, o ator diz que prefere cuidar da vida pessoal e manter uma rotina tranquila, longe de badalações. A fama constante, avalia, cobra um preço que ele não está disposto a pagar. “Prefiro a paz e a tranquilidade, sair para jantar… Tudo devagar. O teatro é mais calmo, artesanal”, resume.

Entenda o contexto

Depois de construir uma trajetória extensa na TV, com mais de 20 novelas no currículo e personagens que marcaram época, Nuno Leal Maia passou a aparecer menos na tela justamente quando a faixa etária de seus personagens começou a mudar. A redução de papéis escritos para atores idosos, somada a um modelo de produção que privilegia elenco jovem e rotinas intensas de gravação, acabou empurrando o veterano para fora do centro das tramas.

Sem convites para novelas desde 2012, ele redirecionou a carreira para o teatro e o cinema independente, espaços em que encontra a liberdade criativa que considera essencial, mesmo que isso signifique abrir mão da grande audiência. O retorno aos palcos com “Meno Male” reacende a discussão sobre a presença de atores maduros nas produções brasileiras e sobre como o audiovisual nacional lida com temas como envelhecimento, experiência e memória.

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