A Polícia Federal investiga denúncias de agressões, ameaças e possíveis atos de violência contra comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25). Os relatos incluem ameaças de envenenamento da água consumida por indígenas e episódios registrados em diferentes municípios do estado.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) acionou órgãos federais para cobrar a apuração das denúncias e medidas urgentes de proteção. Entre os casos relatados está uma gravação de áudio na qual um homem sugere colocar veneno na água de comunidades indígenas de Tacuru, no sul do estado, após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Indígenas recebem ameaças de invasão de território caso Flávio Bolsonaro vença eleição
Áudio contém ameaça contra indígenas em Tacuru
As gravações divulgadas pela APIB mostram uma conversa entre dois homens que demonstram revolta com o resultado eleitoral. Durante o diálogo, um deles utiliza expressões ofensivas contra os indígenas e sugere envenenar a água utilizada pelas comunidades.
O conteúdo provocou preocupação entre lideranças indígenas e autoridades federais. O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, afirmou que acionaria a Polícia Federal para denunciar o caso e solicitar a investigação das declarações.

Até a divulgação das informações, os autores dos áudios ainda não haviam sido oficialmente identificados pelas autoridades. Também não havia confirmação pública de que alguma fonte de água tivesse sido contaminada.
Servidores municipais são citados em denúncia
O prefeito de Tacuru, Rogério Torquetti (PSDB), confirmou que os dois homens envolvidos na conversa são servidores municipais, vinculados às áreas de Meio Ambiente e Infraestrutura. Segundo relatos publicados sobre o caso, um deles trabalha com serviços de abastecimento de água por caminhão-pipa para comunidades indígenas.
O prefeito classificou o episódio como vergonhoso e afirmou ter conversado com os funcionários. Também disse que um dos servidores seria substituído temporariamente na atividade de abastecimento de água como medida de precaução.
A eventual responsabilidade criminal dos envolvidos depende da investigação. A autenticidade das gravações, as circunstâncias em que foram produzidas e a identificação dos autores deverão ser apuradas pelas autoridades competentes.

APIB pede investigação e proteção das comunidades
Além do episódio de Tacuru, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil relatou outras ocorrências de violência em Mato Grosso do Sul. As denúncias incluem assassinatos em Naviraí, atropelamentos em Coronel Sapucaia, manifestações racistas e ameaças contra comunidades indígenas em diferentes localidades.
A entidade informou que encaminhou ofícios e uma representação criminal ao Ministério Público Federal (MPF), à Polícia Federal e a órgãos do governo federal. Entre os pedidos estão a investigação urgente dos casos, a identificação dos responsáveis, a proteção das comunidades ameaçadas e a apuração de possíveis omissões no atendimento às denúncias.

Denúncias surgiram após o segundo turno
Os relatos foram divulgados depois da votação de 25 de outubro, quando Lula venceu a disputa presidencial contra Flávio Bolsonaro (PL). Em Tacuru, Lula recebeu 62,19% dos votos válidos, enquanto Flávio obteve 37,81%, conforme os dados eleitorais citados nas reportagens sobre o caso.
A proximidade temporal entre o resultado das eleições e as ameaças relatadas levou organizações indígenas a alertar para a possibilidade de violência política e discriminação. A motivação de cada episódio, no entanto, precisa ser estabelecida por meio de investigação, e não apenas pela coincidência de datas.
Autoridades devem apurar os fatos
A apuração deverá esclarecer a autoria das declarações, verificar se houve outras ameaças e avaliar a necessidade de medidas preventivas para garantir a segurança das comunidades indígenas. No caso de Tacuru, a preocupação também envolve a proteção da água destinada ao consumo humano e a continuidade dos serviços essenciais.
As denúncias ainda não equivalem a uma condenação ou à comprovação de todos os fatos relatados. A investigação oficial será fundamental para determinar as circunstâncias dos episódios e eventuais responsabilidades, além de orientar as medidas de proteção necessárias.