O governo Luiz Inácio Lula da Silva decidiu só liberar o visto diplomático com livre trânsito para Daniel Perez, indicado embaixador dos Estados Unidos no Brasil, se Washington devolver à embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti o visto de múltiplas entradas que ela perdeu em agosto. Enquanto esse gesto de reciprocidade não vier e o clima político não esfriar, o agrément para Perez fica, na prática, temporariamente suspenso.
Por que o Brasil está condicionando o aval ao novo embaixador dos EUA à liberação de visto para Viotti?
O Planalto quer usar o caso para afirmar um princípio clássico da diplomacia: reciprocidade plena no tratamento a embaixadores. Auxiliares de Lula defendem que, se Perez chegar a Brasília com visto de livre trânsito, Viotti precisa ter de volta a mesma condição em Washington.
Em agosto, o Departamento de Estado revogou o visto de múltiplas entradas da embaixadora brasileira, prerrogativa que facilita deslocamentos entre o país-sede e o território americano. À época, o secretário de Estado, Marco Rubio, justificou a medida como resposta à demora do Brasil em concluir o processo de agrément de Perez.
Agora, a orientação interna é inverter a lógica: só haverá visto com trânsito liberado para o novo embaixador americano se os Estados Unidos recuarem. “O governo brasileiro pode adotar reciprocidade e exigir que as múltiplas entradas de Viotti sejam reabilitadas”, resume um assessor do presidente Lula.
No Itamaraty, a avaliação técnica é que não há impedimento formal ao nome de Perez. A discussão já não é sobre aceitar ou não o indicado, mas sobre em que condições — e em qual momento político — ele assumirá o posto em Brasília.
Quem é o indicado para embaixador dos EUA no Brasil e qual a situação da sua aprovação?
Daniel Perez, presidente da Câmara de Representantes da Flórida e aliado de Donald Trump, foi escolhido pela Casa Branca para chefiar a embaixada em Brasília. O nome foi anunciado publicamente em junho e aprovado em agosto pelo Senado americano por 51 votos a 47, em uma votação apertada que expôs resistências à sua indicação.
Do lado americano, a etapa interna está concluída. Do lado brasileiro, falta o agrément — o aval diplomático sigiloso, sem o qual o embaixador não pode tomar posse. Esse processo foi congelado durante o período eleitoral no Brasil e, agora, é diretamente afetado pelo impasse em torno do visto de Viotti e pelo ambiente político entre Brasília e Washington.
Em entrevista a uma emissora local de Miami, em agosto, Perez disse que, se assumir o posto, pretende focar em segurança. “O primeiro objetivo será sempre a segurança e a proteção dos americanos que estão no Brasil”, afirmou.
Tensão com Flávio Bolsonaro e falas de Trump travam o calendário
A crise em torno do agrément se soma a uma sucessão de ruídos políticos recentes. A fuga do senador Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, após a derrota eleitoral para Lula, e a carta com teor golpista divulgada em Miami colocaram a relação bilateral sob holofotes.
Ao mesmo tempo, Donald Trump voltou a levantar suspeitas sobre o processo eleitoral brasileiro, embora, segundo um auxiliar do governo, tenha cuidado de não romper completamente com o Planalto. “Apesar de levantar suspeitas sobre as eleições, Trump não afirma que deixará de reconhecer o petista como presidente do Brasil”, aponta esse interlocutor.
No Planalto, a leitura é que uma reação direta de Lula — seja contra Flávio, Trump ou o presidente argentino Javier Milei, citado na carta do senador como apoiador — só ampliaria a crise. A orientação é deixar que a polêmica perca força sozinha e evitar que a aprovação do embaixador americano seja interpretada como gesto de fraqueza.
A cautela atinge também a relação com Buenos Aires. O governo brasileiro vê desgaste adicional com a Argentina após a ajuda de Milei na saída de Flávio do país e não considera ter ambiente, neste momento, para retomar a representação em nível de embaixador na capital argentina.
Entenda o contexto
O Brasil está sem embaixador dos Estados Unidos em Brasília desde janeiro de 2025. Desde então, a missão americana é comandada pelo encarregado de Negócios Gabriel Escobar, solução provisória que limita o peso político da representação.
A indicação de Perez, ainda na primeira metade deste ano, já havia causado desconforto entre diplomatas brasileiros por ter sido anunciada publicamente antes da conclusão silenciosa do agrément, como manda a praxe. Mesmo assim, técnicos do Itamaraty não veem motivos formais para rejeitar o nome.
O impasse atual nasceu de uma decisão política dos dois lados. Primeiro, Lula determinou que nenhum agrément fosse concluído durante o período eleitoral brasileiro. Depois, veio a resposta americana com o corte do visto múltiplo de Viotti, alegando reciprocidade. Agora, o governo brasileiro reage com a mesma moeda.
As duas capitais também olham para as eleições legislativas americanas da próxima semana. O Planalto quer medir, a partir do resultado, o tamanho da influência de Trump e de seus aliados no Congresso e, por consequência, sobre a política externa dos Estados Unidos para a América Latina. Uma eventual ampliação do espaço democrata é vista como chance de abrir mais canais de diálogo no Legislativo americano.
Com isso, a decisão sobre o agrément de Perez tende a ficar para um “momento oportuno”, avaliam interlocutores do governo, sem prazo definido, mas com chance de ocorrer ainda neste ano se as tensões arrefecerem e houver sinal claro de reciprocidade no caso Viotti.