O acidente vascular cerebral (AVC) provocou 89.490 mortes no Brasil em 2025, segundo dados do Portal da Transparência do Registro Civil divulgados pelo Ministério da Saúde. Nesta quinta-feira (29), Dia Mundial do AVC, especialistas reforçam a importância de reconhecer rapidamente os sintomas e adotar medidas preventivas. Alterações repentinas na fala, perda de força em um lado do corpo e dificuldade para sorrir estão entre os sinais que exigem atendimento médico imediato.
A doença pode atingir pessoas de diferentes idades, embora seja mais frequente entre idosos e indivíduos com fatores de risco cardiovasculares. De acordo com a neurologista Tiemi Thais Tomonaga, da Hapvida, a demora no diagnóstico pode comprometer as possibilidades de tratamento e aumentar o risco de sequelas permanentes. No Brasil, os dados também mostram diferenças regionais: somente o Rio Grande do Sul registrou 7.306 mortes por AVC em 2024, conforme números preliminares do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM).
AVC pode provocar sequelas graves e exige atendimento rápido
O acidente vascular cerebral acontece quando o fluxo de sangue para uma região do cérebro é interrompido ou quando um vaso sanguíneo se rompe, provocando sangramento.
Existem dois tipos principais. O AVC isquêmico ocorre pela obstrução de um vaso, impedindo que sangue e oxigênio cheguem a determinada área cerebral. Ele é o mais frequente, representando cerca de 85% dos casos.
O AVC hemorrágico acontece quando um vaso sanguíneo se rompe e provoca sangramento no cérebro ou em estruturas próximas. Embora seja menos comum, pode apresentar elevada gravidade.
Nos dois casos, a rapidez do atendimento é essencial para reduzir o risco de complicações.
Segundo a neurologista Tiemi Thais Tomonaga, o diagnóstico tardio pode aumentar as chances de danos permanentes.
“O diagnóstico tardio pode reduzir as possibilidades de tratamento adequado e aumentar o risco de sequelas permanentes, como alterações motoras, visuais e de equilíbrio, incapacidade funcional e até morte.”
A especialista ressalta que os sinais podem surgir de maneira súbita e nem sempre são percebidos imediatamente por familiares ou pela própria pessoa.
“Pressão alta está entre os principais fatores de risco”
O clínico geral Dr. Luis Felipe Paschoali também reforça que a prevenção do AVC começa com o controle de fatores de risco, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e obesidade.
Segundo o médico, além das consultas regulares, medidas simples no cotidiano podem ajudar a reduzir as chances de desenvolver a doença, como praticar atividades físicas, manter o peso adequado, parar de fumar, consumir frutas, verduras e legumes diariamente e manter uma boa hidratação. O especialista destaca que esses hábitos também contribuem para a prevenção de outras doenças cardiovasculares, como o infarto.
Quais são os principais sintomas de um AVC?
Os sinais de um acidente vascular cerebral geralmente aparecem de forma repentina. Reconhecer essas alterações pode fazer a diferença entre uma recuperação mais favorável e o desenvolvimento de sequelas graves.
Entre os sintomas mais comuns estão:
– Fraqueza ou dormência no rosto, braço ou perna, principalmente em um lado do corpo;
– Boca torta ou dificuldade para sorrir;
– Fala enrolada ou dificuldade para compreender frases;
– Perda repentina da visão ou visão embaçada;
– Tontura intensa, desequilíbrio ou dificuldade para caminhar;
– Dor de cabeça súbita e muito forte, especialmente quando não existe uma causa aparente;
– Confusão mental ou dificuldade repentina para realizar atividades habituais.
A neurologista alerta que alguns episódios podem apresentar sinais menos conhecidos, como alterações visuais, tontura e dificuldade de equilíbrio.
Esses sintomas podem ser confundidos com problemas musculares, cansaço ou labirintite, atrasando a procura por assistência médica.
Mesmo quando as alterações desaparecem espontaneamente, é necessário buscar avaliação de emergência. Isso porque os sintomas podem estar relacionados a um ataque isquêmico transitório, conhecido como AIT, que pode anteceder um AVC.
Como identificar rapidamente os sinais de alerta?
Uma das estratégias recomendadas para reconhecer os sinais de AVC é observar mudanças no sorriso, na força dos braços e na fala.
Peça para a pessoa sorrir e verifique se um dos lados da boca apresenta queda. Em seguida, peça que levante os dois braços e observe se consegue mantê-los elevados.
Também é possível solicitar que repita uma frase simples. Dificuldade para pronunciar palavras ou alterações repentinas na fala são sinais de alerta.
O Ministério da Saúde também utiliza a orientação conhecida como “Vá de Samu”, que reúne sintomas relacionados à visão, ao equilíbrio, ao sorriso, aos braços e à fala.
A presença de apenas um desses sinais já é suficiente para justificar a busca imediata por atendimento médico.
Ao identificar qualquer suspeita de AVC, a orientação é ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo número 192.
É importante anotar o horário em que os sintomas começaram. Caso a pessoa tenha acordado com os sinais, deve-se informar quando ela foi vista sem alterações pela última vez.
Essas informações ajudam os profissionais de saúde a avaliar as possibilidades de tratamento.
Pressão alta está entre os principais fatores de risco
A hipertensão arterial é um dos fatores mais importantes associados ao desenvolvimento do AVC.
Quando não é controlada, a pressão elevada pode danificar os vasos sanguíneos e aumentar o risco de obstruções ou rompimentos.
Diabetes, colesterol elevado, obesidade, sedentarismo e tabagismo também contribuem para o aumento das chances de ocorrência da doença.
Outros fatores relevantes incluem arritmias cardíacas, consumo excessivo de álcool, histórico familiar e idade avançada.
Segundo especialistas, a prevenção deve começar antes da terceira idade, com acompanhamento médico e identificação de condições que podem permanecer silenciosas durante anos.
Entre as principais medidas preventivas estão a prática regular de atividades físicas, a alimentação equilibrada, o controle da pressão arterial e da glicose, além da interrupção do tabagismo.
Pessoas que já sofreram AVC ou apresentam doenças cardiovasculares devem seguir as orientações médicas para reduzir o risco de novos episódios.
Frio pode aumentar riscos em pessoas vulneráveis
Na região Sul do Brasil, onde a população idosa representa uma parcela importante dos habitantes, o AVC também preocupa pelas possíveis relações entre condições climáticas e doenças cardiovasculares.
De acordo com a neurologista Tiemi Thais Tomonaga, estudos internacionais sugerem uma associação entre temperaturas extremas e aumento da ocorrência e da mortalidade por AVC, especialmente em pessoas acima de 65 anos.
A relação com o frio aparece de maneira mais consistente em estudos sobre o AVC isquêmico.
Uma das hipóteses é que temperaturas baixas provoquem contração dos vasos sanguíneos e elevação da pressão arterial, aumentando os riscos em pessoas que já apresentam condições cardiovasculares.
Entretanto, essa associação ainda não está completamente esclarecida e não significa que o frio, isoladamente, provoque um AVC.
A especialista destaca que os cuidados preventivos devem ser mantidos durante todo o ano, independentemente da estação.
Dados do Sul mostram impacto da doença
No Rio Grande do Sul, foram registradas 7.306 mortes por AVC em 2024, segundo dados preliminares do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, divulgados em outubro de 2025.
Em Santa Catarina, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência realizou 2.404 atendimentos relacionados ao AVC entre janeiro e setembro de 2025.
Nas Unidades de Suporte Avançado do estado, a doença representou 24,5% dos atendimentos por causas neurológicas naquele período.
Já no Paraná, dados do DataSUS contabilizaram 15.478 internações por AVC em 2024.
Os números correspondem a indicadores diferentes, como óbitos, atendimentos e internações, e não devem ser comparados diretamente como se representassem a mesma medida.
Ainda assim, demonstram a importância da doença para os serviços de saúde e para a população da região.
O que fazer ao suspeitar de um AVC?
A primeira atitude deve ser acionar imediatamente o Samu, pelo telefone 192, e informar os sintomas observados.
Enquanto o atendimento não chega, a orientação é manter a pessoa em segurança e seguir as instruções da equipe de emergência.
Não se deve oferecer alimentos, líquidos ou medicamentos por conta própria. Também não é recomendado esperar que os sintomas desapareçam para procurar atendimento.
O tratamento depende do tipo de AVC, das condições clínicas do paciente e do tempo transcorrido desde o início dos sintomas.
Em determinados casos de AVC isquêmico, medicamentos para dissolver coágulos podem ser utilizados dentro de uma janela de tempo específica, geralmente de até quatro horas e meia, após avaliação médica.
Alguns pacientes também podem se beneficiar de procedimentos para retirada de coágulos, conforme os critérios clínicos e a disponibilidade do serviço especializado.
A definição do tratamento exige avaliação hospitalar e exames de imagem para identificar o tipo de AVC.
Dia Mundial do AVC reforça prevenção e diagnóstico precoce
Celebrado em 29 de outubro, o Dia Mundial do AVC busca ampliar a conscientização sobre uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo.
No Brasil, a data também é reconhecida oficialmente como Dia Nacional de Prevenção ao Acidente Vascular Cerebral, instituído pela Lei nº 14.885, de 2024.
A campanha de 2026 destaca a importância de identificar os sintomas e procurar atendimento médico sem demora.
Além do socorro imediato, as ações de conscientização incentivam o acompanhamento regular da saúde e o controle dos principais fatores de risco.
Para especialistas, a combinação entre prevenção, reconhecimento precoce dos sintomas e acesso rápido aos serviços de emergência é fundamental para reduzir mortes e sequelas provocadas pelo AVC.