A mulher de 33 anos encontrada após viver 18 anos em isolamento social em Cristais Paulista, no interior de São Paulo, mantinha contato com familiares apenas pelo portão da residência onde morava com a mãe, de 71 anos. A informação foi revelada nesta quinta-feira (29) pelo secretário municipal de Saúde, Bruno Felipe de Carvalho, que afirmou que as duas evitavam a aproximação de outras pessoas, inclusive parentes e profissionais da rede pública.
O caso foi descoberto na segunda-feira (26), após uma denúncia de possíveis maus-tratos encaminhada ao Disque 100. Policiais civis e militares encontraram a mulher em um quarto escuro, com pouca ventilação e forte odor, dentro de uma casa com grande quantidade de materiais acumulados. Segundo as autoridades, ela apresentava sinais de fragilidade física, e uma avaliação médica inicial identificou indícios de desnutrição e anemia. Até o momento, não foram constatadas evidências concretas de agressões ou maus-tratos físicos.
Familiares só conseguiam conversar pelo portão
De acordo com o secretário de Saúde, familiares relataram que mãe e filha foram se afastando gradualmente do convívio social. Uma sobrinha acompanhou o atendimento inicial e explicou que, anteriormente, a família trabalhava em uma horta com o pai, que morreu. Com o passar dos anos, as duas passaram a evitar visitas e contatos externos.
Mesmo quando parentes procuravam as moradoras, as conversas aconteciam apenas no portão. As equipes de saúde também enfrentavam dificuldades para entrar na residência e acompanhar as condições de vida das duas mulheres.
“Elas [parentes] não tinham esse relacionamento próximo. Conforme relatos, elas iam até a casa e só ficavam no portão. E a equipe de Saúde nunca conseguiu [entrar]. A última vez que conseguiu foi em 2017, foi a Vigilância Sanitária”, afirmou Bruno Felipe de Carvalho.
Segundo o secretário, a prefeitura já tinha conhecimento de problemas relacionados ao acúmulo de objetos no imóvel, mas não havia conseguido realizar um acompanhamento regular das moradoras.
Bullying na adolescência teria iniciado isolamento
Durante a abordagem policial, a mulher isolada contou que deixou de frequentar a escola aos 15 anos, depois de sofrer bullying por causa de uma deformidade no tórax e nas costas. Segundo o relato apresentado aos profissionais de saúde, a experiência contribuiu para que ela se afastasse progressivamente do convívio com outras pessoas.
Desde então, permaneceu praticamente sem contato com o ambiente externo, convivendo principalmente com a mãe.
A chefe da Divisão de Saúde Pública da Vigilância Sanitária municipal, Renata Valéria de Souza Pinto, participou do atendimento e relatou que a mulher demonstrou medo intenso ao perceber a presença de pessoas desconhecidas.
Ela gritou e pediu que os profissionais deixassem o local. Diante da reação, a equipe precisou adotar uma abordagem cuidadosa, conversando com a moradora e explicando que o objetivo era oferecer ajuda.
Depois de estabelecer uma relação de confiança, Renata conseguiu convencê-la a sair do quarto e aceitar uma avaliação médica.
A mulher também negou ter sofrido violência praticada pela mãe. A avaliação inicial não encontrou sinais de agressão física, embora as circunstâncias do isolamento continuem sendo acompanhadas pelas autoridades.
Mulher não tinha registros de consultas ou vacinação
Outro aspecto que chamou a atenção das autoridades foi a ausência de registros de atendimento médico na rede municipal.
Segundo Bruno Felipe de Carvalho, uma busca nos sistemas de saúde, incluindo prontuários antigos, não identificou consultas ou vacinação da mulher de 33 anos, nem mesmo durante a pandemia de Covid-19.
O secretário afirmou que procurou verificar se havia ocorrido alguma falha no acompanhamento por parte do município ou se as tentativas de atendimento haviam sido recusadas pelas moradoras.
A ausência de registros não permite concluir, por si só, que a mulher nunca tenha recebido atendimento em outros serviços de saúde.
Nesta quinta-feira (29), estava prevista uma avaliação completa por uma médica da Estratégia Saúde da Família (ESF). O atendimento deverá orientar a elaboração de um plano de acompanhamento, que poderá envolver profissionais de psicologia, nutrição e assistência social.
Casa já havia sido alvo da Vigilância Sanitária em 2017
O imóvel onde mãe e filha viviam já havia recebido uma intervenção da Vigilância Sanitária em 2017, após denúncias relacionadas ao acúmulo de lixo e objetos.
Na época, Cristais Paulista enfrentava um período de preocupação com a dengue, e a quantidade de materiais armazenados na residência representava risco de formação de criadouros do mosquito Aedes aegypti.
Segundo o secretário, a intervenção ficou restrita à área externa da casa. Depois daquela ação, as moradoras passaram a dificultar novas visitas dos agentes municipais.
Durante a ocorrência desta semana, os profissionais encontraram a residência em condições precárias de higiene, com materiais acumulados em diferentes ambientes.
Diante da situação, a Vigilância Sanitária determinou a interdição do imóvel para limpeza e adequação das condições sanitárias.
A suspeita de que a mãe possa apresentar um transtorno relacionado ao acúmulo de objetos foi mencionada por profissionais envolvidos no atendimento, mas não existe diagnóstico confirmado.
Mãe e filha foram acolhidas por familiares
Após a abordagem, as duas mulheres foram encaminhadas a uma unidade de saúde, onde receberam atendimento. Posteriormente, passaram a ficar temporariamente na residência de familiares, já que o imóvel original foi interditado.


O acolhimento representa uma mudança importante na rotina de mãe e filha, que passaram anos com contato limitado com outras pessoas.
As equipes de saúde e assistência social deverão avaliar as necessidades individuais das duas, considerando tanto as condições físicas quanto os possíveis impactos emocionais provocados pelo isolamento prolongado.
A retomada do convívio social deverá ocorrer de maneira gradual, respeitando as condições de saúde, a autonomia e os limites da mulher.
Próximos passos
A Secretaria Municipal de Saúde deverá definir um plano de acompanhamento multidisciplinar após a avaliação clínica da mulher de 33 anos. Entre as possibilidades estão consultas médicas, apoio psicológico, avaliação nutricional e acompanhamento da assistência social.
A família também deverá providenciar a limpeza da residência interditada, seguindo as orientações da Vigilância Sanitária.
As autoridades continuam acompanhando o caso para esclarecer as circunstâncias do isolamento e garantir que mãe e filha tenham acesso aos serviços públicos necessários.