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Novos remédios prometem controlar câncer, diabetes e HIV em 2026

Medicamentos inovadores chegam ao mercado com potencial para transformar tratamentos de doenças graves até 2026.
Redação NC News
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Três avanços farmacêuticos anunciados nesta segunda-feira (2) redesenham o tratamento de algumas das doenças que mais matam no Brasil e no mundo: o câncer de pulmão, o diabetes tipo 2 e o HIV. Enquanto o lorlatinibe mostra controle sem precedentes do câncer de pulmão avançado com alteração no gene ALK, um genérico de empagliflozina promete reduzir o custo do diabetes no país, e uma versão genérica do lenacapavir leva a profilaxia injetável contra o HIV a 120 países de baixa e média renda.

Remédio para câncer de pulmão segura doença por 7 anos em metade dos casos

Um estudo recente com o lorlatinibe, comprimido tomado uma vez ao dia, acompanhou pacientes com câncer de pulmão avançado impulsionado por um rearranjo no gene ALK e apontou um marco raro na oncologia: após sete anos, 55% dos participantes seguem vivos e sem progressão da doença.

O medicamento é uma terapia-alvo, desenhada para bloquear a proteína defeituosa produzida pela alteração no gene ALK, presente em cerca de 3% a 7% dos casos do tipo mais comum de câncer de pulmão. Ao interromper o sinal de crescimento das células tumorais, o fármaco consegue manter o tumor sob controle por muito mais tempo do que as terapias tradicionais.

Além de agir no pulmão, o lorlatinibe foi projetado para atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura que protege o cérebro e costuma impedir a entrada de muitos remédios. Isso é decisivo porque metástases cerebrais são uma das complicações mais frequentes nesse tipo de câncer avançado.

Oncologistas ouvidos pela reportagem consideram os dados um divisor de águas. “Mais da metade dos pacientes com câncer de pulmão avançado ficou sete anos sem a doença progredir”, resume um especialista em oncologia, destacando que, na era em que só havia quimioterapia, praticamente ninguém chegava a cinco anos com a doença controlada.

O avanço ocorre em uma área crítica da saúde pública. O câncer de pulmão segue como o tipo que mais mata homens e mulheres no país, com 31.237 mortes anuais, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A alteração em ALK atinge uma minoria dos pacientes, mas abre espaço para um tratamento altamente específico e, pela primeira vez, com perspectiva de controle de longo prazo mesmo em estágio avançado.

Os próprios dados, porém, mostram limites: 45% dos pacientes não responderam ao tratamento como o esperado, e os pesquisadores ainda tentam entender por quê. Efeitos colaterais também pesam. Eventos adversos graves (graus 3 e 4) foram observados em 77% dos participantes, com mais da metade relatando algum impacto no sistema nervoso central, como alterações cognitivas e de humor.

Para os especialistas, a pergunta que se impõe agora é como garantir que o benefício chegue a quem precisa, sem aprofundar desigualdades entre quem pode ou não pagar por terapias de última geração.

Avanço esbarra em custo alto e falta no SUS

O entusiasmo com o resultado científico tromba com um obstáculo conhecido dos pacientes oncológicos no Brasil: o acesso. Pela tabela oficial de preços, o lorlatinibe custa cerca de R$ 37 mil por mês, em caixas com 30 comprimidos. Em sete anos, período avaliado no estudo, o tratamento ultrapassa R$ 3,1 milhões por paciente.

O remédio já está aprovado pela Anvisa e integra o rol de cobertura obrigatória dos planos de saúde, o que garante o fornecimento para beneficiários da saúde suplementar. No Sistema Único de Saúde (SUS), porém, a realidade é outra: o medicamento foi analisado, mas não incorporado por causa do impacto financeiro estimado para o orçamento público.

Na prática, pacientes sem plano dependem de decisões judiciais individuais ou de recursos próprios para ter acesso, o que cria um abismo entre quem pode e quem não pode pagar. Oncologistas e entidades ligadas ao INCA defendem que, diante dos novos dados de sobrevida, o medicamento volte à pauta de discussão de políticas públicas, com negociações de preço e modelos de pagamento que tornem a incorporação mais viável.

Outro gargalo está antes mesmo da prescrição: o diagnóstico molecular. Identificar o rearranjo de ALK exige exames genéticos ainda não disponíveis de forma ampla, sobretudo na rede pública. Sem o teste, pacientes com o perfil ideal podem nunca ser candidatos ao medicamento.

Genérico de empagliflozina barateia tratamento do diabetes

No campo da endocrinologia e da cardiologia, a novidade vem da indústria nacional. A Prati-Donaduzzi começou a distribuir um medicamento genérico à base de empagliflozina, indicado para diabetes tipo 2 e com benefícios adicionais sobre rins e coração. Vendido em comprimidos de 10 mg e 25 mg, ele deve chegar às farmácias pelo menos 35% mais barato que o produto de referência.

O Brasil convive hoje com cerca de 20 milhões de pessoas com diabetes. A isso se somam 6% da população com doença renal crônica e entre 2 milhões e 4 milhões de pessoas com insuficiência cardíaca, condições que frequentemente caminham juntas e respondem por internações e custos elevados para o sistema de saúde.

A empagliflozina pertence à classe dos inibidores de SGLT2, que atuam nos rins. “A empagliflozina favorece a eliminação de glicose pela urina e, em determinados grupos de pacientes, pode reduzir o risco de morte cardiovascular, de internações por insuficiência cardíaca e de progressão da doença renal crônica”, explica Larissy Degani, médica e consultora de prescrição médica da Prati-Donaduzzi.

Na prática, o medicamento não se limita a baixar a glicemia. Ele reduz a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular e renal, hoje dois dos principais pontos de estrangulamento da saúde pública brasileira. A chegada de um genérico mais barato abre espaço para ampliar a prescrição em redes pública e privada, sobretudo para pacientes que antes não conseguiam manter o tratamento de longo prazo por questões de custo.

A farmacêutica afirma que o lançamento integra uma estratégia de focar em genéricos com alto impacto epidemiológico, contribuindo para desafogar o SUS e a saúde suplementar. A expectativa é que o novo produto estimule também a negociação de preços do medicamento de referência, num efeito cascata sobre o mercado.

Especialistas ressaltam, porém, que o benefício pleno depende de acompanhamento contínuo, monitoramento de efeitos colaterais e integração com mudanças de estilo de vida. Em regiões com menor infraestrutura de saúde, o desafio será transformar o ganho financeiro em melhora concreta de controle do diabetes e de suas complicações.

Versão genérica de lenacapavir leva PrEP injetável a 120 países

No front da prevenção ao HIV, a novidade vem de uma decisão regulatória que pode mudar o curso da epidemia em países de baixa e média renda. A agência reguladora dos Estados Unidos aprovou nesta segunda-feira (2) uma versão genérica do lenacapavir, remédio de longa ação usado na profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV, produzida pela indiana Dr. Reddy’s Laboratories.

Aplicado por injeção subcutânea duas vezes ao ano, o lenacapavir reduz em 99,9% o risco de transmissão do HIV quando usado corretamente. Até agora, o custo elevado nos Estados Unidos — próximo de 28 mil dólares anuais por paciente — limitava a expansão global desse tipo de PrEP, especialmente em países com poucos recursos.

Com o genérico, esse cenário muda de escala. Graças a um acordo entre a Dr. Reddy’s, a iniciativa internacional Unitaid e outras instituições, o medicamento será oferecido a cerca de 40 dólares por ano por paciente para 120 países de baixa e média renda. O valor equivale a uma fração do preço original e torna viável a adoção do esquema injetável em larga escala.

“Este é um momento de imenso orgulho para todos nós na Dr. Reddy’s”, afirma Deepak Sapra, diretor executivo de Serviços Farmacêuticos da empresa, ao destacar o desafio de desenvolver um injetável complexo e ainda assim acessível. Segundo ele, o objetivo é permitir que países com alta incidência de HIV consigam ofertar uma alternativa de prevenção para pessoas que têm dificuldade de aderir ao uso diário de comprimidos.

Para a Unitaid, o acordo é um exemplo de como parcerias podem encurtar o tempo entre a prova científica de eficácia e o acesso real nos sistemas de saúde. “A decisão da Unitaid de assumir riscos desde o início está contribuindo para reduzir o tempo entre um avanço científico e o acesso efetivo pelos países”, afirma o diretor executivo da entidade, Philippe Duneton.

A versão injetável semestral tem potencial especial para grupos vulneráveis, como jovens, mulheres em situação de vulnerabilidade social, profissionais do sexo e populações-chave em regiões com forte estigma em relação ao HIV. Ao dispensar a necessidade de lembrar do comprimido todos os dias, a estratégia tende a aumentar a adesão e, consequentemente, a eficácia da prevenção.

Autoridades de saúde pública veem na chegada do genérico uma oportunidade de reverter a estagnação observada em muitos países na redução de novos casos. O desafio, agora, é estruturar serviços capazes de aplicar as injeções de forma regular, garantir cadeias de frio quando necessário e integrar a PrEP injetável a programas já existentes de testagem e prevenção combinada.

Entenda o contexto

Os três movimentos — no câncer de pulmão, no diabetes e na prevenção do HIV — ilustram tendências complementares na medicina atual. De um lado, terapias altamente específicas e caras, como o lorlatinibe, mostram que é possível transformar doenças antes rapidamente fatais em condições crônicas controláveis, mas expõem o limite financeiro dos sistemas de saúde.

De outro, genéricos como a empagliflozina nacional e o lenacapavir produzido na Índia apontam caminhos para baratear tecnologias já comprovadas e levá-las a mais gente. No Brasil, o debate recai sobre como incorporar inovações de alto custo, priorizar grupos de maior benefício e, ao mesmo tempo, investir em políticas de prevenção e controle de doenças crônicas comuns, como o diabetes.

No cenário global, iniciativas como a da Unitaid reforçam a ideia de que acordos de licenciamento e produção em países de renda média podem ser decisivos para romper o ciclo em que novos tratamentos ficam restritos por anos aos mercados mais ricos. Para pacientes e profissionais de saúde, o recado é claro: a ciência avança, mas transformar descoberta em acesso universal ainda depende de escolhas políticas, modelos de financiamento e capacidade de organização dos sistemas de saúde.

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