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Luta livre volta a ganhar espaço e vira alternativa para quem quer sair do sedentarismo

Modalidade que fez sucesso na televisão brasileira combina exercícios de força, resistência e encenação; especialistas apontam benefícios físicos e mentais, mas alertam para riscos de lesões
Redação NC News
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A luta livre, que conquistou o público brasileiro com combates exibidos na televisão entre as décadas de 1970 e 1990, está ganhando uma nova função: ajudar pessoas a sair do sedentarismo. Além das apresentações que misturam golpes e encenação, a modalidade passou a atrair praticantes interessados em melhorar o condicionamento físico, fortalecer os músculos e encontrar uma atividade diferente das academias tradicionais.

Conhecida internacionalmente pelos espetáculos da WWE (World Wrestling Entertainment), a luta livre profissional, também chamada de wrestling, combina exercícios físicos intensos com elementos de teatro. Durante os treinamentos, os alunos aprendem técnicas de combate, quedas, movimentos corporais e interpretação de personagens. Embora os resultados das apresentações possam ser combinados, o esforço físico e os riscos envolvidos são reais.

Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta terça-feira (3) mostrou como a modalidade tem atraído pessoas de diferentes idades e níveis de condicionamento. Em São Paulo, uma academia especializada reúne alunos que buscam desde uma atividade recreativa até a oportunidade de participar de apresentações profissionais.

Academia na adolescência exige cuidados

Como funciona um treino de luta livre?

Diferentemente do que aparece nas transmissões televisivas, as aulas de luta livre não começam com saltos de grandes alturas ou golpes complexos.

Os praticantes passam inicialmente por exercícios de aquecimento, fortalecimento muscular e resistência física. Depois, aprendem movimentos básicos, técnicas de proteção e maneiras de executar quedas com maior segurança.

A intensidade das atividades é adaptada ao condicionamento de cada aluno. Quem está começando recebe orientações para desenvolver força, equilíbrio e coordenação antes de realizar movimentos mais exigentes.

Na Vila Ema, zona leste de São Paulo, a Brazilian Wrestling Federation (BWF) mantém uma academia comandada pelo treinador Bob Junior. Segundo reportagem da Folha, o espaço reúne 42 alunos, muitos dos quais chegam sem o hábito de praticar exercícios regularmente.

A organização também promove apresentações de luta livre e levou a modalidade de volta à televisão aberta brasileira, com transmissões semanais pela Band.

Quais são os benefícios da luta livre para a saúde?

A prática pode proporcionar benefícios semelhantes aos de outras atividades que combinam exercícios aeróbicos e fortalecimento muscular.

Segundo o médico do esporte Bernardino Santi, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE), a modalidade exige que diferentes grupos musculares trabalhem simultaneamente.

Essa característica pode contribuir para melhorar o condicionamento cardiorrespiratório, a coordenação motora e a força muscular.

Durante os treinamentos, os participantes precisam correr, mudar rapidamente de posição, manter o equilíbrio e controlar o próprio corpo ao executar os movimentos.

O conjunto dessas atividades também exige resistência física, especialmente durante sequências prolongadas de exercícios.

Entretanto, os resultados dependem da frequência dos treinos, da intensidade das atividades e das condições individuais de saúde.

Luta livre também exige memória, atenção e raciocínio

Um dos diferenciais do wrestling é a necessidade de combinar esforço físico com interpretação.

Os participantes criam personagens, geralmente divididos entre heróis e vilões, e desenvolvem histórias que são apresentadas durante os combates.

Além de executar golpes, os lutadores precisam memorizar sequências, interpretar reações e improvisar quando algum movimento não acontece conforme o planejado.

Segundo Leonardo Sousa Fortes, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em neurociência do esporte, essa combinação pode mobilizar diferentes processos cognitivos.

A necessidade de conciliar movimentos corporais, interpretação e decisões rápidas pode estimular habilidades como atenção, memória e tomada de decisões.

O pesquisador ressalta, no entanto, que os benefícios observados durante a prática tendem a ser específicos da atividade. Isso significa que não é possível afirmar que o treinamento necessariamente produzirá melhorias equivalentes em todas as tarefas do cotidiano.

Musculação é recomendada para evitar lesões

Apesar dos possíveis benefícios, a luta livre exige cuidados importantes, especialmente por envolver quedas, impactos e contato físico entre os participantes.

O médico Bernardino Santi recomenda que os praticantes também realizem exercícios de fortalecimento muscular.

A musculação pode ajudar a proteger as articulações, melhorar a estabilidade corporal e favorecer a recuperação em situações de lesão.

Entretanto, o fortalecimento não elimina completamente os riscos de acidentes.

Mesmo quando os movimentos são ensaiados e os participantes conhecem previamente determinadas sequências, erros de execução podem provocar machucados.

Por isso, o acompanhamento de profissionais qualificados e o aprendizado progressivo das técnicas são fundamentais.

Também é importante que os participantes respeitem seus limites físicos e evitem tentar reproduzir movimentos complexos vistos na televisão sem treinamento adequado.

Golpes são combinados, mas esforço físico é real

Uma característica que diferencia o wrestling de modalidades competitivas como judô, boxe e jiu-jítsu é a presença de elementos de encenação.

Nas apresentações profissionais, os participantes interpretam personagens e desenvolvem narrativas para entreter o público.

Em muitas situações, o resultado do combate é definido antecipadamente. Isso, porém, não significa que os movimentos realizados sejam isentos de esforço ou riscos.

Saltos, quedas e impactos exigem preparação física e cooperação entre os envolvidos.

O treinador Bob Junior destaca que um dos principais objetivos é realizar movimentos visualmente impressionantes sem comprometer a segurança do parceiro.

“Temos que entregar um grande espetáculo, uma grande luta, e os lutadores têm que sair inteiros do ringue.”

A preocupação com a integridade física é especialmente importante porque a modalidade combina atividade esportiva e espetáculo.

Para executar os movimentos corretamente, os participantes precisam conhecer as técnicas e desenvolver confiança nos colegas de treinamento.

Modalidade atrai pessoas que não querem seguir carreira profissional

O interesse pela luta livre não está restrito a pessoas que pretendem participar de competições ou apresentações profissionais.

Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a organização PWA reúne cerca de 30 lutadores e mantém uma proposta voltada à inclusão de diferentes perfis de praticantes.

Entre os participantes está o nutricionista e professor de educação física Randhall Bruce Kreismann Carteri, de 40 anos.

Ele começou a praticar a modalidade aos 37 anos e utiliza o personagem Doutor Castigo durante as apresentações.

Segundo o relato publicado pela Folha, Randhall não pretende construir uma carreira profissional no wrestling. Para ele, a atividade representa uma oportunidade de lazer, expressão artística e exercício físico.

A experiência demonstra que a modalidade pode ser procurada também por adultos interessados em experimentar novas formas de movimento e socialização.

O que considerar antes de começar a praticar?

Quem deseja experimentar a luta livre deve procurar um local que ofereça acompanhamento profissional e treinamento adequado para iniciantes.

Também é importante verificar se a academia utiliza equipamentos apropriados, mantém condições seguras para a prática e ensina técnicas de queda antes de movimentos mais complexos.

Pessoas sedentárias, com histórico de lesões ou doenças que possam limitar atividades intensas devem buscar orientação médica quando necessário.

Outro cuidado é evitar a comparação com lutadores profissionais. Os movimentos exibidos em grandes eventos são realizados por pessoas que passaram por longos períodos de preparação física e técnica.

Para iniciantes, a prioridade deve ser o desenvolvimento gradual de força, resistência, equilíbrio e coordenação.

A luta livre pode funcionar como uma alternativa para quem não se identifica com exercícios tradicionais, mas a prática deve respeitar as condições físicas e os objetivos individuais.

Mais do que reproduzir os espetáculos que marcaram a televisão brasileira, a modalidade oferece uma combinação de movimento, criatividade e convivência social. Com orientação adequada, pode ser mais uma opção para incorporar exercícios físicos à rotina.

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