O comércio e o setor de serviços brasileiros devem abrir cerca de 130 mil vagas de trabalho temporárias e efetivas até o fim de 2026, impulsionados pelas vendas da Black Friday e das comemorações de fim de ano. A projeção representa um aumento de 12 mil postos de trabalho em relação ao ano passado, mas vem acompanhada de uma redução na remuneração média oferecida pelas empresas.
Os dados são de uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), realizada em parceria com a OfferWise. A expectativa de abertura de vagas ocorre em um período de maior circulação de consumidores nas lojas, crescimento das encomendas pela internet e necessidade de reforço nas operações de atendimento, vendas e entregas.
Apesar da movimentação, o empresariado demonstra cautela. Segundo a pesquisa, apenas 26% dos estabelecimentos pretendem ampliar suas equipes, enquanto 57% planejam manter o número atual de funcionários. Outros 3% consideram reduzir o quadro de trabalhadores.
Entre aqueles que pretendem abrir vagas de trabalho, 59% apontam o aumento da demanda como principal justificativa. Por outro lado, 41% dos empresários que não planejam reforçar as equipes acreditam que o movimento comercial não será suficiente para justificar novas admissões.
A pesquisa ouviu 510 empresários de todas as regiões do Brasil, entre 24 de junho e 24 de julho de 2026, com margem de erro de 4,3 pontos percentuais.
Black Friday e Natal impulsionam vagas de trabalho
O calendário do varejo é um dos principais fatores para a abertura de vagas nos últimos meses do ano. Com a Black Friday marcada para 27 de novembro e o Natal em 25 de dezembro, empresas precisam ampliar a capacidade de atendimento e preparar suas operações para o aumento das vendas.

A pesquisa mostra que novembro concentra 24% das contratações previstas, superando setembro, com 18%, e outubro, com 17%.
A antecipação das admissões permite que os estabelecimentos preparem novos funcionários para o período de maior movimento, especialmente em funções diretamente relacionadas ao consumidor.
O crescimento do comércio eletrônico também interfere no perfil das vagas. A necessidade de separar pedidos, organizar estoques e realizar entregas amplia a procura por trabalhadores de apoio operacional e logística.
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As funções de vendedor e ajudante lideram as intenções de contratação, mencionadas por 23% e 22% dos empresários, respectivamente. Na sequência aparecem entregadores e manicures, com 10% cada, além de operadores de caixa e recepcionistas, ambos com 9%.
Para José César da Costa, presidente da CNDL, as vagas de trabalho para o fim de ano representam uma oportunidade de ingresso e permanência no mercado de trabalho.
Em comunicado sobre a pesquisa, o dirigente classificou as contratações temporárias como “uma verdadeira vitrine de talentos, pela possibilidade de os trabalhadores serem avaliados pelas empresas durante o período de maior movimento”, comenta.
O que as empresas precisam observar ao contratar?
O aumento das vendas de fim de ano exige planejamento dos empresários, principalmente dos responsáveis por micro e pequenos negócios. Antes de contratar novos funcionários, é necessário avaliar o período de maior movimento, a duração da demanda e os custos trabalhistas envolvidos.
Segundo o contador e Sócio Diretor da Creditar Contabilidade, Márcio Reis, identificar o pico de atividade é o primeiro passo para escolher a modalidade de contratação mais adequada. A medida pode ajudar os estabelecimentos a reforçar suas equipes durante a Black Friday e o Natal, sem comprometer o orçamento após as festas.
“Para os empresários de micro e pequeno porte, é muito importante analisar qual é o pico operacional e o período de maior demanda. A partir disso, é possível planejar uma contratação por prazo determinado ou de experiência, respeitando os requisitos legais e buscando o menor custo operacional”, explica Márcio Reis.
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O especialista destaca que os contratos por prazo determinado e de experiência, previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), podem reduzir as despesas com o encerramento do vínculo, desde que sejam respeitadas as condições estabelecidas na legislação.
Nessas modalidades, quando o contrato termina normalmente na data prevista, o empregador não precisa pagar aviso prévio nem a multa de 40% sobre o saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A dispensa antecipada, entretanto, pode gerar indenizações e outras obrigações.
“Muito importante que esse empresário atente às datas de contratação e, principalmente, à data de encerramento do contrato para não perder esse benefício legal”, alerta o contador.
O contrato de experiência pode durar até 90 dias, enquanto os demais contratos por prazo determinado seguem limites e condições específicas da CLT. Em ambos os casos, o encerramento deve respeitar o prazo e as regras da modalidade escolhida.
Outra possibilidade é o trabalho temporário regulamentado pela Lei nº 6.019/1974, realizado por intermédio de uma empresa de trabalho temporário registrada no Ministério do Trabalho e Emprego. Nesse regime, o contrato pode durar até 180 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 90 dias, caso permaneçam as condições que justificaram a contratação.
As modalidades possuem regras diferentes e não devem ser confundidas. Para o empresário, a escolha precisa considerar a necessidade efetiva de reforço, os encargos trabalhistas e a previsão de encerramento das atividades sazonais.
Mais vagas, mas com salários menores
O crescimento na previsão de contratações não vem acompanhado de aumento na remuneração oferecida. O salário médio previsto pelas empresas do comércio e dos serviços caiu de R$ 1.943, em 2025, para R$ 1.805 neste ano. A redução nominal é de aproximadamente 7,1%, sem considerar os efeitos da inflação.

A jornada média diária também recuou, passando de 7,75 horas para 7,54 horas. Em contrapartida, 71% dos empresários entrevistados afirmaram oferecer algum tipo de benefício aos funcionários. O vale-transporte aparece em 47% das respostas, seguido pelo vale-alimentação ou refeição, com 44%.
Outros 28% informaram disponibilizar transporte próprio aos trabalhadores, enquanto 23% oferecem participação nos lucros ou comissões sobre vendas.
Os números mostram que as empresas pretendem reforçar suas operações para as festas de fim de ano, mas sem aumentar, na mesma direção, o valor médio dos salários ofertados.
Contratos temporários podem abrir caminho para a efetivação
As contratações de fim de ano também representam uma oportunidade para trabalhadores que buscam o primeiro emprego ou tentam retornar ao mercado.
De acordo com a CNDL e o SPC Brasil, metade das empresas que pretendem contratar inclui vagas temporárias em seus planos. Entre os estabelecimentos que adotam essa modalidade, a previsão é de admitir, em média, 1,52 profissional por empresa.
Quase metade desses empresários, 47%, pretende reforçar o quadro com apenas um trabalhador temporário. A duração média prevista para os vínculos é de 2,4 meses. O levantamento também aponta uma média declarada de uma efetivação por empresa entre as que contratam temporários.
A contratação permanente, entretanto, depende das necessidades de cada estabelecimento após as festas e da avaliação do desempenho profissional.
O presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro Júnior, avalia que as oportunidades sazonais permitem que trabalhadores adquiram experiência e ampliem suas possibilidades de inserção profissional.
A pesquisa também identificou que a idade média dos profissionais procurados é de 26 anos, com maior concentração na faixa dos 25 aos 34 anos.
Indústria deve concentrar 45% dos contratos temporários
Enquanto o comércio e os serviços se preparam para atender ao aumento do consumo, a indústria brasileira deve concentrar a maior parcela dos contratos temporários previstos para o último trimestre do ano.

Segundo projeção da Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem), divulgada em 7 de outubro, o Brasil deve registrar aproximadamente 530 mil contratos temporários entre outubro e dezembro, crescimento de 1,5% em relação ao mesmo período de 2025.
Desse total, 45% devem ocorrer na indústria, o equivalente a aproximadamente 238,5 mil contratos. O setor de serviços deve representar 35%, enquanto o comércio responde pelos 20% restantes.
Entre os segmentos industriais que devem ampliar as equipes estão os fabricantes de eletroeletrônicos, eletrodomésticos, brinquedos, roupas, calçados e alimentos destinados às festas de fim de ano.
Diferentemente do comércio, que intensifica as admissões nas semanas anteriores às datas comemorativas, a indústria costuma antecipar as contratações para aumentar a produção e garantir o abastecimento dos estabelecimentos.
Alexandre Leite Lopes, presidente da Asserttem, afirma que a expectativa é de estabilidade com leve crescimento das contratações temporárias, mesmo diante das incertezas econômicas.
“O cenário segue positivo, mas exige cautela”, afirmou o dirigente ao comentar as projeções para o último trimestre. A associação também destaca a expansão da logística ligada ao comércio eletrônico, que deve concentrar uma parcela importante das contratações no setor de serviços.
Segundo a Asserttem, aproximadamente 20% dos trabalhadores temporários são efetivados após o encerramento dos contratos, considerando a média observada pela entidade.
As projeções da Asserttem e da CNDL/SPC Brasil utilizam metodologias e abrangências diferentes. Por isso, os 530 mil contratos temporários estimados para o conjunto da economia não devem ser somados às 130 mil vagas temporárias e efetivas previstas para o comércio e os serviços.