Mason Greenwood vive uma noite de contrastes no estádio Sukru Saracoglu, em Istambul: o atacante do Fenerbahce sofre um pênalti claro não marcado contra o Liverpool, responde com gol de falta sobre Alisson e volta ao centro do debate sobre arbitragem, desempenho em alto nível e seu passado conturbado.
Pênalti em Greenwood revolta Fenerbahce e comentaristas
O lance mais polêmico do primeiro tempo acontece quando Greenwood recebe em profundidade, entra na área e é empurrado pelas costas por Kostas Tsimikas, com as duas mãos, no momento em que se prepara para finalizar. O inglês cai, pede pênalti, a torcida turca explode, mas o árbitro manda seguir e o VAR não chama para revisão.
Na transmissão, o ex-jogador e comentarista Ally McCoist não tem dúvida sobre o erro. “É pênalti. Ele usa as duas mãos, não apenas uma. Para mim, isso impede Greenwood de finalizar. As duas mãos. Acho que é pênalti, de verdade. É uma pena, porque foi um ótimo passe e um toque primoroso”, diz. Questionado se Tsimikas escapou da punição, reforça: “Acho que sim, acho mesmo. Ele o empurra com as duas mãos quando Greenwood está prestes a finalizar. O fato de não parecer pênalti não significa que não seja”.
A irritação em campo e nas arquibancadas cresce ainda mais porque, pouco depois do lance ignorado, Trey Nyoni, de 19 anos, aproveita sobra na área e abre o placar para o Liverpool, em chute que desvia na defesa do Fenerbahce antes de entrar.
Gol de falta, desvio na barreira e fúria de Alisson
A resposta de Greenwood vem rápido. Em cobrança de falta cometida por Dominik Szoboszlai sobre N’Golo Kanté na intermediária, o inglês bate buscando o canto, a bola desvia em Jeremy Jacquet na barreira e engana Alisson, que fica deslocado e desaba reclamando com os companheiros.
De novo, McCoist destaca o papel do atacante inglês, mas aponta falha coletiva na defesa do Liverpool. “Ele [Greenwood] contou com a sorte, não foi? Acho que o goleiro não vai ficar nada satisfeito com a barreira”, comenta. Em seguida, detalha o erro de Jacquet: “Alguém virou as costas para a bola? Essa é a explicação. Foi Jacquet, e o goleiro está furioso. Ele virou as costas? Sem dúvida. É preciso ficar de frente para a bola. O goleiro está furioso, absolutamente furioso, e com razão.”
O gol empata o duelo e empurra o Fenerbahce para cima. Greenwood ainda cria outras chances, finaliza com perigo de esquerda para fora e obriga Alisson a fazer boa defesa, consolidando-se como principal arma ofensiva dos turcos no duelo da fase de grupos da Champions League.
Entenda o contexto
Mason Greenwood, 24 anos, chega ao Fenerbahce nesta temporada após se recuperar esportivamente no Olympique de Marselha. O clube turco investe cerca de €39 milhões (aproximadamente R$ 218 milhões) para tirá-lo da França, apostando no rendimento recente: 33 gols com a camisa do Olympique, sendo 11 apenas na atual temporada europeia.
A trajetória de reconstrução começa depois que o atacante é suspenso pelo Manchester United por acusações de agressão sexual. O caso causa forte repercussão na Inglaterra, mas as denúncias são posteriormente retiradas pelos promotores. Desde então, Greenwood tenta retomar a carreira em outros centros e fora da seleção inglesa.
Como De Zerbi vê a recuperação de Mason Greenwood?
Para Roberto De Zerbi, técnico do Olympique de Marselha e um dos principais responsáveis pela retomada do atacante, Greenwood se transformou dentro e fora de campo. “Não me envolvo em assuntos particulares. Só sei que Mason é um bom rapaz. Ele pagou um preço alto pelo que aconteceu e encontrou aqui o ambiente de que precisava […]. Lamento o que aconteceu na vida dele porque conheço uma pessoa diferente daquela que está sendo descrita, especialmente na Inglaterra”, afirma o treinador.
De Zerbi ressalta a evolução técnica e mental do inglês. “Greenwood está progredindo. Cabe a nós apoiá-lo, mas, acima de tudo, cabe a ele querer fazer esse esforço. Não conte muito para ele, não escreva muito, mas eu realmente acho que ele está se tornando um jogador completo”, diz. O período na França, ao lado dos compatriotas Angel Gomes e CJ Egan-Riley, é visto internamente como decisivo para que Greenwood voltasse a atuar em alto nível e atraísse o investimento do Fenerbahce.
Impacto na Champions League e na seleção inglesa
O desempenho de Greenwood contra o Liverpool reforça o papel central do atacante nas ambições europeias do Fenerbahce. O gol de falta e as constantes jogadas de perigo ajudam o time turco a brigar ponto a ponto por vaga na próxima fase da Champions League, ao mesmo tempo em que alimentam a revolta com a arbitragem pelo pênalti não marcado, visto internamente como um lance que poderia ter mudado o rumo da partida e, por consequência, da classificação no grupo.
Do outro lado, o Liverpool sente o peso da noite turbulenta. Além de ver Alisson exposto no gol sofrido e a defesa falhar na proteção da área, o clube inglês volta a ter sua relação com o VAR e com lances de área questionada, agora a partir da ótica turca.
Na esfera internacional, a atuação de Greenwood volta a esbarrar em um muro: o da seleção inglesa. Mesmo em alta no Olympique e, agora, no Fenerbahce, ele segue fora dos planos do técnico Thomas Tuchel para o Mundial de Seleções, segundo declaração recente do treinador. Angel Gomes, hoje seu companheiro de clube, admite não saber se o amigo ainda alimenta esperança de convocação: os dois, conta o meia, falam de videogame e futebol do dia a dia, mas não de metas pessoais.
Enquanto isso, o Olympique tenta sobreviver em seu grupo da Champions League, com apenas 3 pontos em 4 jogos e fora da zona de classificação, e se prepara para encarar o Newcastle, que aparece na sexta posição da chave. A noite de Greenwood em Istambul, porém, mostra que, independentemente do escudo que veste, o atacante voltou a ser decisivo em grandes palcos — e que sua presença seguirá cercada por gols, polêmicas e um debate constante sobre desempenho, ética e reabilitação no futebol de elite.