O reconhecimento do Teatro Amazonas, em Manaus, e do Theatro da Paz, em Belém, como Patrimônio Mundial Cultural da Unesco abre uma nova frente de proteção, turismo e economia criativa na Região Norte, que pela primeira vez passa a ter um bem cultural na lista da organização, sob o nome conjunto de “Teatros da Amazônia”.
Teatro Amazonas recebe título da Unesco e faz história como patrimônio da humanidade
Qual a importância do Teatro Amazonas ser reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco?
O título de Patrimônio Mundial Cultural da Unesco para o Teatro Amazonas consolida o espaço como referência internacional de patrimônio brasileiro, ampliando sua proteção, sua visibilidade e o potencial de atração de recursos, turistas e investimentos culturais.
A cerimônia de entrega do título ao Teatro Amazonas ocorreu na noite de terça-feira, no centro histórico de Manaus, marcando oficialmente a inclusão dos “Teatros da Amazônia” na lista da Unesco. O reconhecimento, concedido em 27 de junho pelo Comitê do Patrimônio Mundial, abrange também o Theatro da Paz, em Belém, que terá sua solenidade de entrega na sexta-feira.
Na prática, o selo da Unesco significa compromissos adicionais de preservação, com prioridade para políticas públicas, linhas de financiamento e ações de conservação do patrimônio edificado, do acervo e da programação artística. A diretora da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch, definiu o momento como um ponto de partida.
“Não é um ponto de chegada, é um ponto de partida. A partir de agora, a humanidade passa também a cuidar dos Teatros da Amazônia. Eles não só representam um valor excepcional para o Brasil, mas para todo o mundo”, afirmou Marlova durante a solenidade.
Ela destacou que os Teatros da Amazônia são o 26º patrimônio brasileiro inscrito na lista da Unesco e o primeiro da Região Norte, o que amplia o protagonismo cultural da Amazônia, historicamente mais associada ao patrimônio natural do que ao patrimônio cultural.
Patrimônio cultural, material e imaterial em diálogo
O reconhecimento internacional reforça a ideia de patrimônio cultural como um conjunto vivo, que inclui tanto o patrimônio material — o prédio histórico, a arquitetura, os elementos decorativos — quanto expressões de patrimônio imaterial, como linguagens artísticas, tradições e modos de fazer.
A diretora do Teatro Amazonas, Beth Catanhede, sublinhou que a escolha da Unesco vai além da beleza arquitetônica. “Ele foi reconhecido não apenas pelo patrimônio edificado, pela beleza, pela arquitetura e pelas obras que a gente tem aqui dentro, mas pela utilização, pela humanização, pelo pertencimento. Ele pertence ao povo do Amazonas e hoje ao povo do mundo, a toda a humanidade”, disse.
Segundo Beth, o Teatro Amazonas funciona como palco de uma diversidade de manifestações artísticas — da ópera ao boi-bumbá, passando pelo folclore, a dança, o teatro e expressões dos povos originários —, o que amplia seu papel como patrimônio nacional. Ela também ressaltou a democratização do acesso, com sessões gratuitas e ingressos populares, o que aproxima o patrimônio histórico da população local.
Quais os impactos do reconhecimento do Teatro Amazonas para a cultura brasileira?
O reconhecimento dos Teatros da Amazônia como patrimônio mundial fortalece a posição da cultura brasileira no cenário internacional ao projetar a Amazônia também como centro de criação artística, e não apenas como ícone ambiental.
O presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Deyvesson Israel Alves Gusmão, lembrou que a candidatura foi construída de forma integrada entre Amazonas e Pará, em parceria com o Ministério da Cultura, o Itamaraty e órgãos estaduais. “É uma vitória do Norte, é uma vitória do Brasil, na verdade. A gente tem uma cultura muito pujante, que é muito importante do ponto de vista daquilo que se chama soft power brasileiro”, afirmou.
Para ele, o título tende a ampliar as possibilidades de financiamento, intercâmbio cultural e cooperação em gestão de patrimônio mundial, com reflexos diretos em turismo cultural, economia criativa e geração de emprego e renda. “A cultura brasileira é muito admirada mundo afora e isso fomenta as possibilidades de financiamento, de intercâmbio, de discussão conjunta sobre gestão do patrimônio mundial e, sobretudo, de geração de renda”, completou.
O governador do Amazonas, Roberto Cidade, também associou o reconhecimento ao desenvolvimento econômico regional. “Quem ganha com isso é a cultura do nosso estado, gera emprego, gera renda. Isso é que nos traz até aqui também. O povo amazonense quer ter oportunidades”, disse, defendendo mais investimentos em programação cultural e infraestrutura para receber visitantes.
Entenda o contexto
O Teatro Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém, foram inaugurados durante o ciclo da borracha, como símbolos de modernização urbana na Amazônia. Hoje, são referências de patrimônio histórico e arquitetônico brasileiro e passam a integrar a lista de Patrimônio Mundial Cultural sob o nome “Teatros da Amazônia”.
Com o título, eles se somam a outros patrimônios brasileiros já inscritos, mas com um diferencial: formam o primeiro conjunto cultural reconhecido na Região Norte. A partir desse enquadramento, os teatros ganham prioridade em ações de preservação, capacitação técnica, cooperação internacional e captação de recursos voltados a patrimônio nacional.
O Iphan avalia que o dossiê conjunto apresentado por Amazonas e Pará fortalece a busca por financiamento e projetos compartilhados, além de incentivar políticas de circulação de espetáculos, formação de profissionais da cultura e ações de educação patrimonial voltadas a moradores e turistas.
A entrega oficial do título ao Theatro da Paz, marcada para sexta-feira em Belém, será o próximo passo simbólico desse processo. Em paralelo, governos e instituições culturais começam a discutir novas medidas para garantir que o aumento esperado de visitantes ocorra de forma sustentável, preservando o patrimônio cultural e o ambiente urbano que cerca esses marcos da história amazônica.