A França enfrenta nesta quinta-feira (5) uma nova onda de greves e manifestações contra o aumento do custo de vida e as políticas econômicas do governo de Emmanuel Macron. A mobilização reúne trabalhadores, estudantes e sindicatos em diversas cidades, provoca o fechamento de escolas, prejudica o transporte público e levou à suspensão das visitas à Torre Eiffel, em Paris.
Os protestos acontecem em meio à insatisfação com os salários, a inflação e os cortes previstos nos serviços públicos. Cerca de 260 manifestações foram convocadas em todo o território francês. As autoridades estimavam a participação de até 700 mil pessoas fora da capital e de outras 40 mil a 80 mil em Paris.
O governo francês mobilizou aproximadamente 70 mil policiais e agentes de segurança para acompanhar os atos. Em algumas cidades, manifestantes e policiais entraram em confronto. Na capital, agentes utilizaram gás lacrimogêneo para dispersar estudantes que tentavam bloquear instituições de ensino.
Greve atinge escolas, transportes e pontos turísticos
A paralisação afeta diferentes setores da economia francesa, incluindo educação, transporte ferroviário, serviços públicos e atividades turísticas. Trabalhadores de empresas de energia, profissionais de saúde e funcionários de outros serviços essenciais também foram convocados pelas organizações sindicais.
Centenas de escolas tiveram as atividades interrompidas ou prejudicadas pela ausência de professores e funcionários. Em algumas regiões, estudantes bloquearam as entradas dos estabelecimentos como forma de protestar contra a falta de recursos para a educação.
Os transportes ferroviários também sofreram interrupções e atrasos. Os quatro principais sindicatos da companhia ferroviária SNCF convocaram uma paralisação iniciada na noite de quarta-feira (4), com previsão de encerramento na manhã de sexta-feira (6).
Em Paris, o funcionamento do metrô e dos ônibus apresentava impactos mais limitados nas primeiras horas do dia, enquanto algumas linhas de trens metropolitanos registravam alterações.
Um dos principais pontos turísticos da capital francesa, a Torre Eiffel, foi fechado ao público em razão da greve. A administração do monumento orientou visitantes que haviam adquirido ingressos antecipadamente a verificar as informações sobre o funcionamento da atração.
Por que os franceses estão protestando?
O principal motivo da mobilização é a perda do poder de compra da população. Sindicatos afirmam que os salários e as aposentadorias não acompanham o aumento dos preços de produtos e serviços essenciais, como alimentos, combustíveis, eletricidade e moradia.
Entre as principais reivindicações estão o aumento do salário mínimo, reajustes salariais mais amplos, melhorias nas condições de trabalho, maior justiça tributária e a preservação dos investimentos em serviços públicos.
A Confederação Geral do Trabalho (CGT), uma das principais organizações sindicais francesas, defende um reajuste de 10% no salário mínimo. Outras entidades também exigem que o governo amplie as negociações salariais com empregadores e representantes dos trabalhadores.
A insatisfação aumentou com a apresentação do projeto de orçamento francês para 2027, que prevê medidas de contenção de despesas públicas em meio às dificuldades fiscais enfrentadas pelo país.
Na quarta-feira (4), parlamentares franceses rejeitaram a primeira parte da proposta orçamentária. O texto seguirá em discussão no Parlamento, aumentando a pressão política sobre o governo.
Protestos começaram com estudantes e ganharam força
A atual onda de manifestações começou em setembro, quando estudantes do ensino médio passaram a protestar contra a falta de professores, a superlotação das salas de aula e as dificuldades de acesso ao ensino superior.
Com o passar das semanas, as reivindicações estudantis receberam apoio de sindicatos, trabalhadores de diferentes setores, agricultores e integrantes do movimento dos coletes amarelos, conhecido pelas manifestações contra o custo de vida iniciadas em 2018.
O movimento ganhou força em outubro, quando protestos realizados em Paris, Lyon, Marselha e outras cidades terminaram em episódios de violência, saques e confrontos com as forças de segurança.
No dia 17 de outubro, manifestações foram marcadas por incêndios, depredações e detenções em diferentes regiões. Os episódios levaram o governo francês a reforçar as operações policiais e a estabelecer restrições aos trajetos de determinados protestos.
Apesar dos confrontos registrados em algumas mobilizações, grande parte dos participantes realiza manifestações pacíficas para cobrar mudanças econômicas e sociais.
Governo Macron reforça segurança e enfrenta críticas
Diante da nova jornada de manifestações, o presidente Emmanuel Macron convocou uma reunião de segurança para discutir a atuação das autoridades e evitar a repetição dos episódios de violência registrados em outubro.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou o reforço do policiamento e afirmou que as forças de segurança deveriam garantir a realização pacífica dos protestos, mas agir contra possíveis atos de vandalismo.
A atuação policial, entretanto, também passou a ser questionada por sindicatos e organizações de defesa dos direitos humanos.
Entidades francesas criticaram as restrições impostas aos percursos das manifestações e acusaram o governo de adotar medidas excessivas para controlar os atos.
Em Paris, a Justiça autorizou um trajeto alternativo entre as praças da República e da Nação, contrariando a proposta inicial dos organizadores.
Em Lyon, uma decisão judicial também manteve restrições à realização de manifestações em determinadas áreas centrais da cidade.
As autoridades defendem que as medidas são necessárias para evitar confrontos, enquanto representantes dos manifestantes argumentam que as limitações prejudicam o exercício do direito de protestar.
Crise aumenta pressão sobre Macron antes das eleições de 2027
A mobilização ocorre nos últimos meses do mandato de Emmanuel Macron, que não poderá disputar um terceiro mandato presidencial consecutivo nas eleições previstas para 2027.
A sucessão presidencial francesa deverá ocorrer em maio do próximo ano, em um cenário marcado por dificuldades econômicas, disputas sobre os gastos públicos e insatisfação de diferentes setores da população.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu já participou de reuniões com representantes sindicais para discutir possíveis respostas às reivindicações. Entretanto, as negociações realizadas até agora não foram suficientes para encerrar a mobilização.
O governo também enfrenta o desafio de avançar na aprovação do orçamento de 2027, enquanto sindicatos e partidos de oposição pressionam por mudanças nas prioridades econômicas.
Próximos passos
Os sindicatos ainda avaliam a continuidade das paralisações e a possibilidade de ampliar a mobilização nas próximas semanas.
Integrantes do movimento dos coletes amarelos convocaram uma nova manifestação para sábado (7), em Paris, apesar das restrições anunciadas pelas autoridades.
Outras ações contra o aumento do custo de vida também estão previstas para o fim de novembro, com a participação de organizações sociais de diferentes países europeus.
A continuidade dos protestos dependerá das negociações entre governo, sindicatos e empregadores. Até o momento, não há acordo confirmado capaz de encerrar a onda de mobilizações que atinge a França desde setembro.