Fale com a gente NC News TV Ao Vivo

Ranking crescimento PIB mundial 2026: Brasil terá só 1,3% em 2027

Projeções mostram que o Brasil terá crescimento econômico abaixo de seus vizinhos em 2027, impactado por dívida e desigualdade.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O Brasil caminha para crescer apenas 1,3% em 2027 e ficar na parte de baixo do ranking de crescimento do PIB entre países latino-americanos, enquanto Chile, Argentina, Peru, Colômbia e México projetam ritmos bem mais fortes, alertam economistas. O diagnóstico combina um quadro fiscal delicado, com dívida em alta e orçamento engessado, e uma desigualdade extrema que limita produtividade, mobilidade social e tamanho do mercado interno.

Dívida bruta do governo sobe para 82,9% do PIB e chega a R$ 11,1 trilhões

Brasil perde fôlego no ranking de crescimento do PIB

No cenário traçado por Marco Caruso, economista-chefe do Santander Brasil, o país deve avançar 1,8% neste ano e desacelerar para 1,3% em 2027, ficando atrás de vizinhos que fizeram reformas recentes e aparecem na lista dos países com maior crescimento econômico na região. As estimativas citadas por ele apontam expansão de 3,5% para o Chile, 3,2% para o Peru, 2,7% para a Argentina, 2% para a Colômbia e 1,7% para o México em 2027.

Caruso vê o quadro de juros e de crédito como termômetro desse freio. “A curva de juros é bem importante no Brasil, porque determina crédito. Essa projeção de crescimento de 1,3% para 2027 tem um risco bem para baixo por conta do que a gente está vendo, principalmente na curva de juros”, disse, durante o XXII Encontro Santander América Latina, em Madri. Para ele, o nó central é conhecido: “No curto prazo, o principal problema é o fiscal, o fiscal, o fiscal”.

Na visão do economista, a combinação de juros altos, incerteza fiscal e resistência a reformas deixa o país para trás na comparação com outros emergentes, em um momento em que investidores olham para o ranking de crescimento do PIB mundial em busca de oportunidades.

R$ 400 bilhões em ajuste para segurar dívida em 88% do PIB

O retrato fiscal brasileiro preocupa. Caruso estima que a dívida pública deve chegar a 88% do PIB no próximo ano, cerca de 20 pontos percentuais acima da média de economias emergentes comparáveis. Para impedir que essa relação saia do controle, ele calcula que o país precisa virar rapidamente a chave: sair de um déficit primário em torno de 1% do PIB para um superávit entre 1,5% e 2% do PIB.

Na prática, isso significa cerca de R$ 400 bilhões em medidas de ajuste, somando corte de gastos e revisão de despesas. “Não se pode crescer anos seguidos com déficits porque, uma hora, o seu crédito piora. Então, a partir daqui, nasce todo o desafio da economia brasileira. A gente já tem observado uma desaceleração do PIB”, afirmou.

O espaço para esse ajuste, porém, é estreito. Segundo Caruso, cerca de 90% do orçamento federal é tomado por despesas obrigatórias, definidas em lei ou na Constituição. Dos 10% restantes, uma fatia relevante é formada por emendas parlamentares. Na prática, o alvo mais fácil acaba sendo o investimento público, que financia infraestrutura e obras — justamente o tipo de gasto que costuma impulsionar crescimento no médio e no longo prazo.

Esse quadro pesa nas projeções para a evolução do PIB mundial e ajuda a explicar por que o Brasil tende a aparecer longe da liderança entre os países com maior crescimento econômico nos próximos anos.

Chile e Argentina usam ajuste fiscal para crescer mais

Enquanto o Brasil patina na agenda fiscal, alguns vizinhos adotaram medidas duras — e colhem projeções melhores no ranking regional de crescimento do PIB. No Chile, o presidente José Antonio Kast colocou como prioridade “sanar as finanças públicas” e tornar o país mais competitivo para negócios. Uma das âncoras dessa estratégia foi a Lei de Reconstrução Nacional e Desenvolvimento Econômico e Social.

Essa lei reduziu a taxa de imposto corporativo de 27% para 23% e ofereceu invariabilidade tributária de até 20 anos para grandes projetos, uma forma de dar previsibilidade a investidores. O governo também atacou a burocracia: no setor de mineração, o número de autorizações setoriais exigidas caiu de 55 para 13. Kast tem defendido publicamente que o país optou por disciplina fiscal e responsabilidade no lugar de endividamento excessivo.

Na Argentina, o governo de Javier Milei apostou em um choque de contenção de gastos. Em seu primeiro ano, promoveu uma redução de cerca de 35% das despesas no primeiro semestre, o equivalente a 5,6% do PIB, ampliou a base de contribuintes e criou travas rígidas para impedir que o Banco Central financie o déficit do Tesouro por meio da emissão de moeda.

O plano inclui ainda um projeto de regra fiscal permanente, já enviado ao Congresso, que proíbe a aprovação ou manutenção de orçamentos deficitários. A combinação de corte de gastos, mudança de incentivos e novas regras sustentáveis ajuda a explicar por que Argentina e Chile aparecem hoje entre os países com maior crescimento econômico projetado na América Latina.

Entenda o contexto

Desde a pandemia, o PIB brasileiro cresceu em vários momentos acima da média histórica, estimada em algo próximo de 2% a 2,5% ao ano, impulsionado tanto por reformas estruturais recentes quanto por estímulos fiscais. Esse impulso, porém, cobra seu preço agora, com déficits recorrentes há mais de uma década e uma trajetória de gastos públicos que, segundo Caruso, avança em ritmo equivalente à inflação mais cerca de 5% ao ano.

Na virada do antigo teto de gastos para o atual arranjo fiscal, a percepção dos investidores também mudou. Quando a regra limitava o avanço real das despesas a algo próximo de inflação mais 1%, a inflação de longo prazo projetada rondava 3% e a taxa básica de juros conseguia ficar em um dígito. Com despesas crescendo mais rápido, as expectativas de inflação implícita de longo prazo subiram para a faixa de 5% a 7%, o que empurra o Banco Central a manter a Selic elevada por mais tempo.

Esse ambiente encarece o crédito, inibe investimentos privados e contribui para que o Brasil fique para trás no ranking de países com maior crescimento econômico, tanto em 2026 quanto nos anos seguintes.

Desigualdade extrema trava o crescimento brasileiro

Além do nó fiscal, economistas alertam para um freio estrutural: a desigualdade. Para Michael França, doutor em Teoria Econômica pela USP e coordenador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, o país está desperdiçando boa parte de seu potencial produtivo. “Vivemos em um dos países mais desiguais do mundo, e o brasileiro fala pouco sobre como isso afeta o sistema econômico”, afirma.

França destaca que a falta de inclusão de grande parte da população em um ciclo educacional e produtivo de qualidade significa perda direta de crescimento, algo que não aparece apenas em indicadores sociais, mas também no mapa de países com maior crescimento econômico. “Milhões de talentos individuais e capacidades produtivas são eliminados numa espécie de loteria do nascimento, impedindo uma maior formação de mão de obra qualificada e a inovação”, diz. Segundo ele, a desigualdade extrema alimenta a criminalidade urbana, gera gastos milionários com segurança pública e privada e reduz o apetite para investir.

O economista Daniel Duque, doutor em Economia pela Norwegian School of Economics e pesquisador do FGV Ibre, vê um problema de visão de longo prazo nas elites e na política econômica. “Existe uma miopia nesse sentido”, avalia. Para ele, ainda existe a percepção equivocada de que crescimento e redução de desigualdades são objetivos em conflito, o que dificulta a construção de consensos para políticas que enfrentem os dois desafios ao mesmo tempo. “Embora as intenções apontem na direção correta, há muitos erros”, resume.

‘Combater desigualdade é racionalidade econômica’

A economista Ana Carla Abrão reforça que olhar para a desigualdade apenas como tema moral é perder de vista o impacto econômico direto. “Uma economia que desperdiça talentos e restringe oportunidades produz menos do que poderia. A desigualdade limita mercados, reduz a produtividade, alimenta a violência e compromete a confiança necessária à prosperidade. Combatê-la não é apenas uma questão de justiça social. É também uma questão de racionalidade econômica”, escreveu.

Ela aponta ainda o orçamento público como espelho dessas distorções: enquanto faltam recursos e capacidade de execução para garantir serviços de qualidade à população mais vulnerável, bilhões de reais seguem destinados a subsídios, benefícios tributários e privilégios cuja eficácia raramente é revisada com rigor. O resultado é um Estado caro, pouco focalizado e incapaz de destravar plenamente o potencial de crescimento do país.

Para França, o custo de manter essa estrutura é visível na baixa mobilidade social e no travamento da inovação: quando nascer no lugar errado praticamente define o futuro, o país reduz o número de pessoas capazes de chegar à educação superior de qualidade, empreender e liderar empresas, o que pesa na produtividade média e no potencial de expansão do PIB.

Reformas fiscais e inclusão social precisam andar juntas

O recado que emerge das análises é que o Brasil só conseguirá melhorar sua posição no ranking de crescimento econômico — em 2026, 2027 e adiante — se combinar responsabilidade fiscal com uma agenda consistente de combate à desigualdade. Ajustes que somem R$ 400 bilhões, feitos apenas via corte cego de gastos sociais e investimentos, podem até aliviar a trajetória da dívida no curto prazo, mas tendem a aprofundar desigualdades e limitar ainda mais a capacidade de crescimento.

Por outro lado, reformas que revisem benefícios ineficientes, subsídios pouco transparentes e distorções tributárias, ao mesmo tempo em que protejam e aprimorem políticas de inclusão, educação e segurança, têm potencial de estabilizar a dívida e ampliar o crescimento sustentável. Ganham competitividade os países que conseguem alinhar essas duas frentes; perdem espaço aqueles que apostam em soluções parciais.

Nos próximos meses, a disputa em torno da reforma tributária, de mudanças em regras orçamentárias e de eventuais cortes ou remanejamentos de despesas deve se intensificar em Brasília. O desfecho desses debates vai ajudar a definir se o Brasil seguirá na lanterna entre os países com maior crescimento econômico da região ou se consegue, enfim, destravar parte de seu potencial e reduzir a distância em relação aos vizinhos latino-americanos.

Carregar Comentários