Família acusa hospital de negligência após bebê morrer na barriga da mãe no Distrito Federal

Com enxoval pronto e parto previsto para julho, casal relata peregrinação por três hospitais públicos, demora no atendimento e descaso médico antes de perder o primeiro filho
Redação NC News
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A espera cheia de planos pelo nascimento do pequeno Alef Gael se transformou em uma tragédia inexplicável e em um profundo sentimento de luto para uma família de Valparaíso (GO). O bebê morreu ainda na barriga da mãe, Ketlen Stéfany Ferreira, de 31 anos, aos oito meses de gestação, após uma dolorosa peregrinação por três hospitais da rede pública de saúde do Distrito Federal. A família acusa as equipes médicas de negligência e o caso passou a ser investigado pelas autoridades policiais.

De acordo com o boletim de ocorrência obtido pela reportagem do NC News, a trágica sequência de eventos começou na terça-feira (16/6), quando Ketlen passou a sentir fortes dores do lado direito da barriga. O marido da gestante, o comerciante Ricardo Ribeiro da Cruz, de 37 anos, relatou que os exames iniciais apontaram alterações graves nas plaquetas da esposa, mas a falta de uma ala de maternidade iniciou um empurra-empurra entre as unidades de saúde que culminou na morte do bebê.

Como começou a peregrinação pelos hospitais do DF?

O primeiro destino do casal foi o Hospital Regional do Gama (HRG). Na unidade, os exames laboratoriais apontaram um quadro preocupante de plaquetas baixas na gestante, embora os batimentos cardíacos do bebê estivessem totalmente normais. Por não possuir atendimento de maternidade ativo no momento, o hospital encaminhou Ketlen para o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM).

Ao chegarem ao hospital de Santa Maria, a gravidade do caso não recebeu a urgência esperada pelos pais. A equipe de triagem classificou Ketlen com uma pulseira verde, protocolo destinado a casos de menor gravidade e que gera longas horas de espera. Assustados com a demora e com as dores persistentes da mãe, o casal decidiu abandonar a fila e se deslocar por conta própria até o Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), localizado na área central da capital.

O que dizem os familiares sobre os batimentos do bebê?

No Hmib, a situação foi reconhecida imediatamente como de risco, e Ketlen recebeu a pulseira laranja, que indica atendimento urgente. No entanto, após novos exames, a unidade optou por devolvê-la ao Hospital Regional de Santa Maria — desta vez, transportada de ambulância e com um alerta médico de urgência. Já internada no HRSM, a gestante permaneceu sob observação, mas o pior começou a acontecer nos dias seguintes.

Conforme o relato contundente do pai, na quarta-feira (17/6) os batimentos cardíacos de Alef Gael começaram a cair. Na quinta-feira (18/6), a frequência cardíaca fetal reduziu ainda mais. Ricardo afirma que avisou os profissionais de saúde repetidamente sobre as dores da esposa e o sofrimento do bebê, mas ouviu da equipe que aquela situação era “normal”.

“Falávamos das dores dela e da preocupação com o bebê, mas não fizeram nada além de exames de sangue e urina e medicação para dor”, desabafou o pai, emocionado.

Na sexta-feira (19/6), o pior cenário se confirmou: os médicos não conseguiram mais escutar o coração do menino, e uma ecografia atestou o óbito fetal intrauterino. Para piorar o sofrimento do casal, Ricardo alega que eles ainda precisaram esperar por mais longas 5 horas na ala de internação para que o hospital realizasse a cirurgia cesariana de retirada do corpo do bebê.

Quem são os envolvidos e qual o impacto para a família?

O bebê era o primeiro filho do casal e havia sido planejado com muito carinho, embora ambos já tivessem filhos de relacionamentos anteriores. Moradores da cidade goiana de Valparaíso, no entorno do DF, Ricardo e Ketlen são proprietários do restaurante Sabor em Camadas, inaugurado há apenas três meses. Desde que as dores começaram e a gestante precisou ser hospitalizada, o estabelecimento comercial permanece de portas fechadas, sem previsão de reabertura.

A dor da perda é agravada pelo cenário que os pais encontram ao voltar para casa. O quarto de Alef Gael já estava completamente montado, com berço, cômoda e um enxoval completo comprado para o parto, que estava previsto para acontecer no dia 26 de julho. Todo o acompanhamento de pré-natal vinha sendo feito de forma regular, e o último exame de ultrassom, realizado no dia 20 de maio, atestava que o bebê estava perfeitamente saudável.

O que dizem as autoridades e o que acontece agora?

O caso chocante foi registrado como “ocorrência em apuração” na 33ª Delegacia de Polícia de Santa Maria. Em nota oficial enviada à nossa reportagem, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) confirmou que o caso já está sob investigação criminal intensa. A corporação determinou a instauração imediata de um inquérito policial e solicitou a realização de uma autópsia detalhada no Instituto Médico-Legal (IML) para ajudar a esclarecer tecnicamente as causas exatas da morte da criança.

Por outro lado, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF), órgão responsável pela administração do Hospital de Santa Maria, apresentou uma versão divergente. A instituição informou em nota que, assim que a paciente relatou a ausência de movimentos do feto no dia 19 de junho, ela foi prontamente avaliada pela equipe de obstetrícia e submetida ao exame que constatou o óbito.

O instituto alegou ainda que, pelos registros da unidade, a gestante teria realizado apenas duas consultas de pré-natal e uma única ultrassonografia durante toda a gravidez. O Iges-DF garantiu que a paciente recebeu assistência multiprofissional contínua e acompanhamento especializado de acordo com todos os protocolos adotados pela rede pública de saúde. O inquérito policial deve ouvir os médicos de plantão nas próximas semanas para confrontar os prontuários com as denúncias feitas pela família.

Entenda o Contexto

A morte fetal intrauterina no terceiro trimestre de gestação é um evento devastador que frequentemente acende alertas sobre a qualidade do atendimento e o tempo de resposta das redes de urgência obstétrica. Casos que envolvem a queda abrupta de plaquetas em gestantes (comum em quadros de pré-eclâmpsia crônica ou na chamada Síndrome de HELLP) são considerados emergências médicas graves que exigem monitoramento fetal contínuo e, muitas vezes, a interrupção imediata da gravidez para salvar o bebê e a mãe. A relevância da investigação aberta em Santa Maria reside em apurar se o sistema de triagem por cores falhou ao classificar o risco de Ketlen e se houve omissão de socorro por parte do plantão médico. Os próximos desdobramentos dependem do laudo pericial do IML, que apontará se a morte do pequeno Alef Gael poderia ter sido evitada caso o parto cirúrgico tivesse sido antecipado.

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