A economia da Rússia, que cresce 4,3% em 2023 e 2024 apesar das sanções, desacelera em 2025 e encolhe no início de 2026. O freio expõe a fragilidade de um modelo sustentado por gastos militares recordes e petróleo descontado.
Do aparente vigor ao freio brusco
Desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o Kremlin transforma o país em uma economia de guerra. O governo amplia o orçamento militar, redireciona exportações de petróleo para China e Índia e usa a política fiscal para sustentar a atividade.
O resultado, num primeiro momento, impressiona. Em 2023 e 2024, o PIB avança 4,3% ao ano, ritmo superior ao de muitas economias avançadas. Moscou apresenta os números como prova de resiliência diante das sanções ocidentais.
Em 2025, a engrenagem começa a falhar. O governo admite que “o PIB cresceu apenas 1% em 2025, queda brusca em relação ao ano anterior”. A inflação fecha o ano em 5,6%, abaixo da previsão oficial de 6,8%, mas ainda pressionando renda e consumo.
No primeiro trimestre de 2026, a curva se inverte. A economia recua 0,3%, o primeiro tombo desde 2023, em meio a juros ainda elevados, sanções persistentes e um rublo valorizado que encarece exportações. Moscou revisa a projeção de crescimento para 2026 para apenas 0,4%, reconhecendo publicamente a perda de fôlego do modelo de guerra.
Gasto militar no limite, indústria civil em retração
A fotografia de 2025 escancara uma Rússia partida em duas. Indústrias ligadas ao esforço bélico crescem 20%, impulsionadas por pedidos de munições, veículos blindados e equipamentos militares. Os demais ramos da manufatura avançam só 0,4%. Fábricas de tratores, cimento e móveis reduzem turnos ou fecham as portas.
O peso do orçamento militar é inédito desde a era soviética. “Os gastos com defesa atingiram cerca de 7,3% do PIB em 2025, o maior patamar desde a era soviética”, admite o governo. O plano para 2026 não prevê recuo relevante, mesmo com a economia já em desaceleração.
A presidente do Banco Central, Elvira Nabiullina, resume o custo humano dessa estratégia. Segundo ela, “o país enfrenta uma escassez de mão de obra sem precedentes em sua história moderna, com desemprego na mínima histórica de 2%”. Fábricas civis perdem funcionários para o complexo militar, que paga salários mais altos e oferece algum tipo de proteção em tempos de mobilização.
O próprio governo calcula que o mercado de trabalho precisará de 3,1 milhões de trabalhadores adicionais até 2030. A combinação de baixas no front, migração de mão de obra para o Exército e envelhecimento da população limita a capacidade de produção futura.
Petróleo barato, impostos mais altos e reservas em queda
O outro pilar da economia de guerra, o petróleo, também perde força. As sanções ao setor de energia apertam ao longo de 2024 e 2025. Em 2026, o desconto imposto ao barril russo supera 20 dólares, empurrando o preço médio do Urals para abaixo de 40 dólares.
As receitas de petróleo e gás caem para cerca de 100 bilhões de dólares em 2025, 22% abaixo de 2024 e o menor valor desde 2020. O impacto fiscal força o Kremlin a buscar recursos na própria sociedade.
Em janeiro de 2026, o imposto sobre valor agregado sobe de 20% para 22%, e mais empresas entram na base tributária. O efeito é imediato sobre pequenos negócios. “Quase 69% das pequenas e médias empresas registraram queda de receita em 2026”, reconhece o governo, num retrato de margens comprimidas por custos e impostos mais altos.
Ao mesmo tempo, a almofada financeira encolhe. “A reserva soberana do país, que valia 6,5% do PIB antes da guerra, encolheu para apenas 1,8% do PIB ao final de 2025”, segundo dados oficiais. O montante já é menor que o déficit federal projetado, o que reduz a margem de manobra para prolongar a estratégia de gasto pesado.
Dados contestados e alerta sueco sobre colapso gradual
O quadro desenhado por Moscou é, ainda assim, mais benigno que o traçado por análises independentes. Um estudo do governo sueco, baseado em imagens de luminosidade noturna, conclui que “a economia russa, na prática, encolheu 8% entre 2020 e 2024, enquanto Moscou afirma oficialmente crescimento de 13% no mesmo período”.
Em artigo publicado no jornal norte-americano New York Times, a ministra das Relações Exteriores da Suécia, Maria Malmer Stenergard, argumenta que o país é mais frágil do que os números oficiais sugerem. Ela lembra que “a inflação oficial da Rússia em 2024 foi de 10%, enquanto o banco central elevou os juros para 21% naquele ano”, e cita a inteligência militar sueca, segundo a qual a inflação atual estaria mais próxima da taxa básica de empréstimos de 15% do que da leitura oficial de 5,2%.
“Isso significaria que a Rússia está superestimando seu poder de compra e que sua capacidade de gastos militares é mais fraca do que aparenta”, escreve a ministra. Em outra passagem, ela afirma: “A economia da Rússia, em termos nominais, mal é maior do que a do estado de Nova York, menor do que a do Texas e frágil”.
As dúvidas sobre a qualidade dos dados oficiais alimentam o incômodo interno. Um ex-alto funcionário do Kremlin, ouvido por pesquisadores estrangeiros, descreve um clima de crescente ansiedade entre elites empresariais e tecnocratas, pressionados a manter a narrativa de resiliência diante de sinais cada vez mais claros de exaustão.
Guerra prolongada, pressão social e riscos políticos
O presidente Vladimir Putin mantém o discurso de que não recua. Ele repete que “a Rússia está preparada para lutar até obter o controle das quatro regiões ucranianas que afirma ter anexado”. A continuidade da guerra, porém, amplia o custo econômico e social.
A taxa de aprovação de Putin recua. Um instituto estatal registra queda para 65,6%, ante 77,8% no início de 2025 e níveis acima de 80% antes da invasão. A erosão é atribuída à inflação persistente, às restrições do cotidiano — incluindo controles rígidos sobre a internet — e ao impacto direto da mobilização militar em famílias de todas as regiões.
Drones ucranianos de longo alcance atacam refinarias e terminais de exportação de petróleo, aumentando a percepção de vulnerabilidade. Uma cidade próxima ao mar Negro, distante da linha de frente, registra chuva tóxica após o bombardeio de uma refinaria, episódio que reforça a sensação de que a guerra chega ao interior da Rússia.
Para o Ocidente, o diagnóstico sueco funciona como argumento para endurecer sanções justamente no ponto mais sensível: o setor de energia e os serviços que o sustentam, como seguros, financiamento e acesso a portos. Stenergard defende limites mais rígidos à logística marítima russa para acelerar a pressão financeira sobre Moscou.
O que vem a seguir para a economia russa
A combinação de PIB em queda, gastos militares em patamar excepcional, escassez de mão de obra e reservas minguantes indica uma transição de resistência para fragilidade. Exportações redirecionadas a parceiros como China, Índia e Brasil ajudam a amortecer o choque, mas não compensam o desconto de 20 dólares por barril e as interrupções causadas por ataques ucranianos.
As próximas decisões do Kremlin tendem a girar em torno de três eixos: novos ajustes fiscais, busca de mercados e rotas alternativas para energia e maior mobilização de trabalhadores para a indústria de defesa. Cada movimento, porém, encontra limites claros, seja na demografia, seja no cansaço da sociedade com o custo da guerra.
Enquanto a guerra continuar e as sanções restringirem financiamento externo e tecnologia, a economia russa parece condenada a um colapso gradual, em que setores civis encolhem para financiar o front. A questão aberta, em Moscou e nas capitais ocidentais, é se a pressão econômica acabará por forçar mudanças na estratégia militar — ou se o Kremlin insistirá em uma guerra que sua economia mostra cada vez mais dificuldade em sustentar.
Qual é a principal economia da Rússia?
A espinha dorsal da economia russa é o setor de energia, especialmente petróleo e gás. Essas exportações financiam boa parte do orçamento federal e dos gastos militares.
Qual é a maior economia da Rússia?
O maior componente econômico do país é o complexo de petróleo e gás, da extração à exportação. Em termos regionais, Moscou concentra a maior fatia do PIB interno.
O que a Rússia mais produz?
Além de petróleo e gás, a Rússia é grande produtora de metais, fertilizantes e grãos. Desde 2022, a indústria de defesa ganha peso desproporcional na produção industrial.
Como está a vida na Rússia hoje?
A população enfrenta inflação persistente, impostos mais altos e escassez de bens em algumas regiões. Há desgaste com a guerra, mas também controle político e informacional rígido, o que limita protestos abertos.