Argélia e Áustria empatam por 3 a 3, na noite de 27 de junho de 2024, em Kansas City, e avançam juntas à segunda fase do Mundial de Seleções. O resultado, construído com dois gols nos acréscimos, elimina o Irã do Grupo J.
Empate que vale vaga dupla e frustração iraniana
No Arrowhead Stadium, o placar atende a todos os cálculos dos dois lados. Argélia e Áustria chegam a quatro pontos, garantem presença no mata-mata e deixam o Irã para trás. A classificação vem amparada no saldo de gols: os austríacos ficam com a segunda posição do grupo, com saldo zero, enquanto os argelinos avançam em terceiro, com saldo de menos dois.
O desfecho reforça o peso da aritmética na fase de grupos. A Áustria se credencia para enfrentar a Espanha em 2 de julho, em Los Angeles. A Argélia encara a Suíça em 3 de julho, em Dallas. O Irã, que precisava de um vencedor para sobreviver, assiste de fora após ver a combinação menos desejada se concretizar no minuto 50 do segundo tempo.
Ritmo lento, viradas e gol salvador aos 50
O jogo começa amarrado, com erros de passe e pouca agressividade. As duas seleções parecem medir risco e benefício a cada investida. A pausa para hidratação, ainda no primeiro tempo, oxigena o ritmo e abre caminho para uma sequência de golpes e contragolpes.
Aos 27 minutos, a Áustria dá o primeiro passo rumo à vaga. David Alaba lança em profundidade, nas costas da defesa, e encontra Marko Arnautovic. O atacante avança cara a cara com o goleiro Oussama Benbot e finaliza no canto: 1 a 0. O cenário pressiona a Argélia, obrigada a reagir para não depender de combinação improvável.
O time de Vladmir Petkovic responde com seu principal jogador. Riyad Mahrez assume o protagonismo, acelera pela direita e começa a desmontar a marcação europeia. Aos 44, ele disputa uma bola na linha de fundo, a defesa austríaca se enrola e Rafik Belghali aproveita. O lateral invade a área, escapa de três marcadores e acerta o ângulo, empatando antes do intervalo.
A volta do vestiário recoloca a Áustria à frente. Com 10 minutos, o goleiro Alexander Schlager liga o ataque em lançamento longo. Konrad Laimer ganha pela direita e cruza rasteiro. Marcel Sabitzer chega de frente, da meia-lua, e bate no canto esquerdo de Benbot: 2 a 1.
A reação argelina, de novo, é imediata. Quatro minutos depois, Nabil Bentaleb abre o jogo na esquerda, Houssem Aouar invade a área deixando Stefan Posch para trás e cruza rasteiro. Mahrez aparece na pequena área, desvia para o gol e iguala o placar. Aos 14 do segundo tempo, o capitão recoloca sua seleção no Mundial.
O jogo se transforma em drama aberto. A Argélia pressiona, a Áustria alterna entre se proteger e contra-atacar, e o relógio passa a pesar também para o Irã, que depende de uma virada ou de um novo gol europeu. Quando os acréscimos começam, a seleção africana está classificada e empurra os austríacos para a terceira posição, à beira da queda.
Aos 47 minutos, Mahrez dá a impressão de encerrar a discussão. Lançado por Aouar, o camisa 7 ganha na velocidade, entra na área e bate na saída de Schlager. O 3 a 2 projeta a Argélia em segundo lugar do grupo e empurra a Áustria para fora do mata-mata.
No último lance, o roteiro muda de mãos. Aos 50, Sabitzer recebe na esquerda e cruza. Michael Gregoritsch desvia de cabeça na segunda trave, a defesa africana vacila e Sasa Kalajdzic aparece livre para empurrar para as redes. Com 2,00 metros de altura e uma carreira marcada pela recuperação de grave lesão no joelho, o centroavante precisa de um toque na bola para virar herói nacional e preservar o 3 a 3.
Mahrez comanda reação argelina; Kalajdzic vira herói austríaco
Riyad Mahrez assina a atuação decisiva da noite. O capitão da seleção argelina participa diretamente dos três gols: dá a assistência para Belghali empatar no primeiro tempo e marca duas vezes na etapa final. Nascido na França e forjado em clubes como Leicester e Manchester City, o atacante carrega a Argélia até o mata-mata, mesmo com o saldo negativo.
Do outro lado, Kalajdzic simboliza a resiliência austríaca. Aos 28 anos, depois de romper o ligamento cruzado do joelho em 2022, o atacante reconstrói a carreira no LASK, onde soma oito gols em 34 jogos. Em Kansas City, entra nos acréscimos, aos 50 minutos do segundo tempo, e garante a classificação com um único desvio.
Os números finais do grupo expõem o equilíbrio do duelo. A Argentina fecha a chave com 9 pontos e 7 gols de saldo. Atrás, a Áustria avança com 4 pontos e saldo zero, com seis gols marcados. A Argélia também soma 4 pontos, com cinco gols pró e saldo de menos dois. A Jordânia termina sem pontos, com três gols marcados e cinco de saldo negativo.
Sombra de 1982 e defesa de fair play
A combinação perfeita para Argélia e Áustria reacende um fantasma que atravessa quatro décadas. O empate lembrado imediatamente é o de 1982, quando Alemanha Ocidental e Áustria fazem o jogo que entra para a história como o “jogo da vergonha”. Naquele Mundial, o 1 a 0 para os alemães, em ritmo arrastado, elimina a Argélia e leva a então Fifa a adotar partidas simultâneas na última rodada.
O contexto, em 2024, é diferente. As duas partidas do grupo acontecem ao mesmo tempo, justamente para evitar acordos tácitos. Ainda assim, o fato de o empate por 3 a 3 classificar ambos e tirar o Irã reacende o debate sobre incentivos e fronteiras entre estratégia e fair play. As redes sociais se enchem de comparações, e analistas questionam se as seleções, em algum momento, administram o placar.
Vladmir Petkovic tenta se afastar dessa sombra desde antes da bola rolar. Na véspera, o técnico argelino rejeita a ideia de entrar em campo mirando um empate conveniente. “Não se pode pensar nisso no futebol, é preciso enfrentar o rival com muita vontade de ganhar. Depois do jogo veremos, mas primeiro temos que merecer a classificação, e ganhar o jogo é a coisa mais importante”, afirma, em coletiva pré-jogo.
O andamento da partida dá munição aos dois lados da discussão. Há fases de intensidade alta, sobretudo na reta final, com virada argelina e reação austríaca, mas também momentos de controle e menos risco, principalmente no início. Para o Irã, cuja classificação depende de um vencedor, a sensação dominante é de frustração, alimentada pelo roteiro que muda no último lance.
Caminhos do mata-mata e debate sobre regulamento
O empate desenha trajetórias distintas para as duas seleções no mata-mata. A Áustria, segunda colocada do Grupo J, encara a Espanha, líder do Grupo I e uma das favoritas ao título, no dia 2 de julho, em Los Angeles. A Argélia, classificada como uma das melhores terceiras colocadas, enfrenta a Suíça em 3 de julho, em Dallas, em confronto que projeta equilíbrio maior.
Nos bastidores, o impacto do 3 a 3 vai além da tabela. Comissões técnicas reforçam a atenção ao saldo de gols, que se mostra decisivo na vida de europeus, africanos e iranianos. Departamentos de análise de desempenho revisam escolhas da fase de grupos, do rodízio de jogadores ao desenho tático, cientes de que cada gol marcado ou sofrido altera cruzamentos e destinos.
Organizadores do torneio voltam a ouvir pedidos por regras que reduzam ainda mais brechas para resultados convenientes. A discussão envolve desde formatos alternativos de grupos até mudanças na forma de classificar terceiros colocados. A imagem do Irã caindo na condição de nona melhor terceira seleção, quando apenas oito avançam, alimenta o debate sobre justiça esportiva.
Argélia e Áustria agora trocam cálculos por preparação específica para o mata-mata. O Mundial afunila, os erros custam mais caro e a lembrança de Kansas City, com gols aos 47 e 50 minutos, serve como advertência clara: nenhuma vantagem está segura até o apito final.
Por que o Irã foi eliminado mesmo com chance de classificação?
O Irã dependia de um vencedor em Argélia x Áustria para avançar como uma das melhores terceiras colocadas. O empate deixou as duas seleções com quatro pontos e empurrou os iranianos para a nona posição entre os terceiros, fora da zona de classificação.
Como ficaram os confrontos da próxima fase para Argélia e Áustria?
A Áustria, segunda do Grupo J com saldo de gols zero, enfrenta a Espanha em 2 de julho, em Los Angeles. A Argélia, terceira com saldo de menos dois, encara a Suíça em 3 de julho, em Dallas.