A Polícia Federal (PF) cumpriu mandados de busca e apreensão nesta quarta-feira (1º) para investigar um suposto esquema de desvio de emendas parlamentares. O alvo da operação, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), é uma complexa rede financeira e política ligada à produtora de Dark Horse, a cinebiografia em desenvolvimento sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A apuração da Polícia Federal tem um foco claro: rastrear se recursos públicos — que deveriam ser destinados a projetos sociais, culturais ou tecnológicos — foram desviados de sua finalidade legal para bancar as estruturas privadas da produção do longa-metragem. O inquérito eleva a pressão sobre os aliados bolsonaristas e expõe o submundo da distribuição de emendas.
A teia de empresas e os repasses milionários
No centro do escândalo está Karina Ferreira da Gama, responsável pela produtora Go Up Entertainment. O cerco policial se intensificou após o cruzamento de dados no Portal da Transparência revelar que deputados estaduais de São Paulo direcionaram, ao menos, R$ 703 mil em emendas para entidades associadas à empresária.
A ramificação do caso também atinge o Congresso Nacional. O deputado federal Mário Frias (PL-SP), roteirista oficial do filme, é alvo de uma frente paralela no STF. Por determinação de Flávio Dino, Frias terá que prestar esclarecimentos detalhados sobre supostas irregularidades no direcionamento de recursos para as empresas conectadas à obra.
O contrato suspeito com a Prefeitura de São Paulo
O escopo das investigações vai muito além da telona do cinema. O Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama, carrega um histórico nebuloso que chamou a atenção dos agentes:
- Alerta do TCU: A entidade já havia sido classificada como uma organização “de fachada” em uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU).
- Contrato público: Mesmo com o alerta do tribunal, o instituto firmou um contrato de R$ 108 milhões com a gestão do prefeito Ricardo Nunes, em São Paulo, para instalar internet em comunidades vulneráveis.
- Aditivo financeiro: Posteriormente, o mesmo contrato sofreu um aditamento, fazendo o repasse municipal saltar para mais de R$ 157 milhões.
Conexões internacionais e o impacto na pré-campanha
A engenharia financeira da cinebiografia também respinga no setor bancário. O caso conecta-se diretamente ao escândalo de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O empresário é investigado por repasses obscuros ligados ao filme, o que levou a PF a avaliar a possibilidade de acionar a Interpol para mapear suas movimentações internacionais.
Principais impactos e consequências da operação:
- Rastreamento do financiamento: A PF busca responder à pergunta central: a produção heroica sobre Jair Bolsonaro foi bancada puramente por recursos privados ou sugou os cofres públicos?
- Ação internacional: A eventual entrada da Interpol no caso pode expor rotas de evasão de divisas e lavagem de dinheiro fora do país.
- Risco eleitoral: Se a Polícia Federal confirmar a relação entre o dinheiro público e a cinebiografia, o caso tem potencial para se tornar o maior escândalo político da pré-campanha de 2026.
- Desgaste de aliados: A mistura entre propaganda política disfarçada de filme e ONGs sob suspeita fragiliza a base bolsonarista.
Até o momento, todos os políticos e empresários citados negam veementemente qualquer irregularidade. Contudo, com a oficialização do inquérito e o avanço das buscas, o caso abandona o campo da especulação para se tornar uma severa investigação formal sobre o caminho do dinheiro em Brasília.