O tenente da Rota Ronickson Pimentel dos Santos, 39, irmão de Eloá Pimentel, sofre um atentado a tiros na manhã de 27 de junho de 2026, em São Caetano do Sul. Quatro meses de planejamento, prisões e a morte de um suspeito em confronto transformam o caso em símbolo da escalada de ataques a policiais em São Paulo.
A emboscada na avenida Goiás
O ataque ocorreu pouco depois das 8h, na avenida Goiás, uma das principais vias de São Caetano. Ronickson está à paisana, em sua motocicleta, parado no semáforo. Uma moto com dois homens emparelha. O garupa dispara. Um dos tiros atinge a cabeça do tenente.
Socorrido às pressas, o policial é levado ao Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André. Passa por cirurgia neurológica complexa de emergência e é internado na UTI. Desde então, vive entre a gravidade do quadro e pequenos sinais de melhora, acompanhados de perto pela família e pela cúpula da Polícia Militar.
A cena não é fruto de improviso. Investigações da Polícia Civil e documentos judiciais apontam que os criminosos monitoram a rotina do oficial desde fevereiro. Um carro branco circula por endereços ligados ao tenente, acompanha seus trajetos, registra horários.
Planejamento de quatro meses e logística com vários veículos
O atentado se torna um caso de estudo sobre organização criminosa. Imagens de vigilância mostram um Renault Logan branco usado na logística. O carro aparece rondando lugares frequentados pelo policial desde fevereiro, quatro meses antes dos disparos.
Na noite de 1º de julho, o Logan é encontrado em uma rua de Guaianases, na zona leste de São Paulo. Está parado em um terreno, coberto por uma capa cinza. Policiais checam a placa e confirmam: é o mesmo veículo ligado ao atentado. O carro passa por perícia no local e segue para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
Em entrevista, o capitão da Rota Hillen Diniz afirma que há ligação direta entre o Logan e o atirador que sobe na garupa da moto. “Nós temos imagens em que o indivíduo, que sobe na garupa da moto, ele sai de dentro desse Logan branco. Então, nós já temos essa certeza de que o indivíduo sai do Logan. O Logan está 100% envolvido com a moto”, diz.
A motocicleta usada para atirar em Ronickson também não é casual. Foi roubada em março de 2026, na zona sul da capital, e recebe uma placa clonada de São João de Meriti, no Rio de Janeiro, para confundir as buscas. De acordo com a apuração, outros veículos dão cobertura antes e depois da ação, ajudam na fuga e na ocultação de vestígios.
Um documento judicial resume o nível de sofisticação: “A dinâmica dos fatos indica, ainda, que não se trata de ação delitiva comum, mas de investida coordenada direcionada contra agente policial, com sinais evidentes de planejamento prévio, divisão de tarefas, utilização de veículos de apoio e estratégias de evasão e ocultação de vestígios, o que evidencia elevado grau de organização e periculosidade”.
O capitão Hillen Diniz reforça a conclusão dos investigadores. “O que a gente já tem certeza é de que foi um crime planejado com antecedência”, afirma.
Prisões, confronto e mistério sobre a motivação
As primeiras reações da polícia vêm menos de 48 horas após o atentado. No domingo, 28 de junho, a Justiça decreta a prisão temporária de dois homens, de 40 e 52 anos, suspeitos de prestar apoio logístico. Eles teriam circulado com veículos de apoio antes e depois dos disparos, em ação coordenada com os executores.
Os investigadores descrevem a empreitada como um trabalho de equipe. Não se trata de um agressor isolado, mas de uma rede com funções divididas: vigilância da rotina, transporte de atiradores, fuga e ocultação de provas.
Na manhã de 1º de julho, a Rota vai atrás de outro elo dessa cadeia. Após denúncia recebida pelo Disque Denúncia, equipes chegam ao Jardim Guaianazes, também na zona leste, em busca de um homem apontado como suspeito de participação indireta no atentado.
“Hoje, pela manhã, houve uma ocorrência de confronto com os policiais da Rota após a chegada de uma denúncia para a gente de que o indivíduo possivelmente teria uma participação indireta na ação”, relata o capitão Hillen Diniz. Segundo ele, o suspeito reage à abordagem, atira contra os policiais e é baleado. É levado a um hospital e morre em seguida. A ligação dele com o crime ainda passa por verificação.
Enquanto a investigação avança sobre veículos, imagens e vínculos entre suspeitos, uma pergunta permanece sem resposta: por que atingir Ronickson? O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Nico Gonçalves, confirma apenas que o monitoramento é prolongado. “Isso aconteceu há cerca de três meses”, diz, ao se referir ao período em que a casa do tenente passa a ser observada.
Organizações criminosas são alvo natural de suspeita quando um integrante da Rota, tropa de elite do 1º Batalhão de Polícia de Choque, se torna alvo. Até agora, porém, não há confirmação de que um grupo específico esteja por trás da ação. O que se sabe é que o atentado tem planejamento longo, logística complexa e foco claro em um agente de segurança.
Tenente entre a gravidade e a esperança
Enquanto o inquérito tenta recompor a cronologia da trama, a família acompanha a recuperação do tenente. Internado em estado grave na UTI do Hospital Mário Covas, ele apresenta melhora lenta, mas consistente, segundo os boletins médicos divulgados até 1º de julho.
Os médicos reduzem gradualmente a sedação e registram boa resposta neurológica, estabilidade hemodinâmica sem grandes doses de remédios para manter a pressão e funcionamento adequado dos demais órgãos. Ele permanece sem febre.
A esposa, Cintia Pimentel, transforma o tecnicismo hospitalar em frase de resistência. “Seguimos esperançosos com as pequenas melhoras do seu quadro”, afirma, em mensagem que circula entre amigos e colegas de farda.
O nome de Ronickson desperta memórias antigas. Ele é irmão de Eloá Pimentel, adolescente de 15 anos assassinada pelo ex-namorado em outubro de 2008, após cárcere privado que paralisou o país diante da televisão. De lá para cá, a família volta ao noticiário em contextos de dor e violência, agora com o tenente alvejado enquanto seguia sua rotina.
O que o caso revela sobre segurança pública em SP
O atentado contra um oficial da Rota, atacado à paisana em um cruzamento, evidencia uma mudança de patamar na ousadia de grupos criminosos em São Paulo. O alvo não está em operação, não está em viatura, não reage: é surpreendido em um momento comum do dia.
Para as forças de segurança, o recado é direto. Policiais de unidades de elite, com alta exposição pública, passam a exigir outro nível de proteção e monitoramento, dentro e fora do serviço. A rotina privada de agentes passa a ser potencial frente de risco, como mostra o carro que circula por meses em torno da vida de Ronickson.
Para a sociedade, a mensagem é inquietante. Quando um tenente da tropa de choque é perseguido por quatro meses, com uso de moto roubada, placa clonada e múltiplos veículos de apoio, a sensação de segurança recua. A fronteira entre o trabalho policial e a vida pessoal do agente se dissolve.
O uso de recursos tecnológicos, análise de câmeras e veículos adulterados indica também a evolução das táticas do crime. Exige mais investimento em inteligência policial, cruzamento de dados e resposta rápida, sob risco de novas emboscadas contra agentes identificados como obstáculo relevante à atuação criminosa.
A Corregedoria da PM e o DHPP seguem na mesma mesa, cruzando depoimentos, perícias e imagens. Novas prisões não estão descartadas. A motivação, peça central desse quebra-cabeça, ainda falta. Até lá, a polícia reforça medidas preventivas e acompanha, dia a dia, a UTI em Santo André, onde o estado de saúde de Ronickson ajuda a medir também o impacto humano de uma guerra que se aproxima da porta de casa.
Quem é Ronickson Pimentel?
É tenente da Rota, o 1º Batalhão de Polícia de Choque da PM de São Paulo, tem 39 anos e é irmão de Eloá Pimentel, morta em 2008.
O que aconteceu com o irmão de Eloá Pimentel?
Ele foi vítima de um atentado a tiros em 27 de junho de 2026, em São Caetano do Sul, e segue internado em estado grave após cirurgia na cabeça.
Como está o tenente da Rota que foi baleado hoje?
Ele permanece na UTI do Hospital Mário Covas, em estado grave, mas com sinais positivos de melhora, como boa resposta neurológica e estabilidade clínica.