Dívidas com agiotas levam a crimes brutais contra idosos

Casos recentes mostram como dívidas com agiotas resultam em violência extrema contra pessoas idosas.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Uma dívida de R$ 40 mil com um agiota e apostas online está no centro do latrocínio que mata um casal de idosos em 29 de junho de 2026, em Belo Horizonte. Dois dias depois, a polícia prende em flagrante, em Cuiabá, um agiota de 71 anos que ameaça e extorque um idoso de 70 para cobrar R$ 3,4 mil já quitados.

Latrocínio em BH expõe espiral de dívidas e violência

A Polícia Civil de Minas Gerais aponta Paola Stefany Neto Cirino, 30, como principal suspeita de matar o advogado Cláudio Atala Inácio, 75, e a empresária Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, 76. O crime ocorre no primeiro dia de trabalho da diarista no apartamento do casal, na região centro-sul da capital mineira.

Segundo a investigação, Paola entra no prédio com uma única bolsa e permanece cerca de oito horas no imóvel. Entre o fim da manhã e o início da tarde, ataca o casal com golpes de faca: Cláudio leva 17 facadas, Maria Clotilde é atingida por 7. Os corpos exibem sinais de defesa.

Depois, ela toma banho, troca de roupa e sai levando bolsas, mochilas, joias, relógios, celulares e outros pertences. Câmeras de segurança registram a movimentação. Parte dos objetos é vendida na região central de Belo Horizonte antes da fuga.

A polícia conclui que o casal é vítima de latrocínio. Em 2 de julho, Paola é presa em Itabira (MG), a cerca de 100 quilômetros da capital, na companhia do filho de 6 anos. A prisão é confirmada pela Polícia Militar, após representação da Polícia Civil.

Dívida de R$ 40 mil, apostas online e tratamento psiquiátrico interrompido

O inquérito revela que Paola acumula dívidas ligadas a apostas online, incluindo o chamado “Jogo do Tigrinho”. Familiares relatam que tentam socorrê-la financeiramente antes da tragédia.

“A própria família fala que teria levantado entre os familiares R$ 40 mil para ajudá-la a pagar uma dívida”, afirma o delegado Gustavo Barletta, que participa da investigação. O valor, segundo parentes, é destinado a um agiota.

Outro delegado do caso, Felipe Freitas, diz que a origem exata do débito segue em apuração. “A gente não sabe a que pretexto foi essa dívida. A família informa que ela teria levantado a quantia de R$ 40 mil para pagar um agiota. Agora, qual o contexto dessa dívida? A gente ainda não tem essa informação”, afirma.

A tia de Paola, Nilza Maria Neto, conta que o vício em jogos altera o comportamento da sobrinha. A família só entende o tamanho do problema quando descobre as apostas e o endividamento.

“Descobrimos tudo que estava acontecendo. Levei ela ao plantão de um hospital psiquiátrico, onde foi medicada. Foi aí que ela começou a tomar remédio”, relata Nilza. O tratamento, porém, não se mantém de forma regular, segundo a família.

O caso expõe um elo crescente entre saúde mental, vício em jogos de azar e endividamento em redes informais de crédito. A combinação, apontam investigadores, cria terreno fértil para decisões impulsivas e, em situações extremas, crimes violentos.

Agiotagem em Cuiabá: ameaça por áudio e extorsão de idoso

Enquanto Minas acompanha o desfecho do latrocínio, a Polícia Civil de Mato Grosso prende em flagrante, em 1º de julho, um agiota de 71 anos em Cuiabá. Ele é acusado de ameaçar e extorquir um idoso de 70 anos por uma dívida já paga de R$ 3,4 mil.

A vítima procura a Delegacia Especializada de Roubos e Furtos da capital e relata que vinha sendo cobrada de forma abusiva. O suspeito, segundo a polícia, insiste no pagamento mesmo após a quitação do empréstimo e eleva o tom das ameaças.

“O suspeito afirmava que acionaria integrantes de uma facção criminosa caso o valor não fosse pago”, informa a Polícia Civil de Cuiabá. As intimidações atingem também o filho do idoso, que recebe áudios pelo WhatsApp em que o homem promete violência.

Nas mensagens, ele ameaça “quebrar” o aposentado caso a cobrança não seja atendida. A investigação aponta que o agiota explora o medo da família e tenta usar o nome de organizações criminosas como instrumento de coação.

Localizado em um supermercado no bairro CPA II, o homem é detido por investigadores da Derf e levado à delegacia. Em depoimento, admite ter emprestado R$ 3,4 mil há cerca de cinco meses, mas diz que o valor “não teria sido devolvido”. A versão não convence a polícia.

Diante das provas colhidas e da dinâmica do caso, ele é autuado em flagrante por extorsão e colocado à disposição da Justiça.

Crédito ilegal cresce na sombra das apostas e da vulnerabilidade

Os dois casos, separados por pouco mais de 24 horas e 1,5 mil quilômetros, expõem o mesmo pano de fundo: a agiotagem como válvula de escape de quem não encontra crédito formal ou perde o controle das finanças. Em Belo Horizonte, a família de Paola recorre a um empréstimo ilegal para tentar conter uma espiral de apostas e dívidas.

Em Cuiabá, um aposentado vê um empréstimo se transformar em ameaça de morte e pressão psicológica, mediada por áudios de WhatsApp. A figura do “agiota online”, que anuncia em redes sociais, grupos de mensagem e até em classificados, surge como atalho rápido a dinheiro fácil, mas quase sempre sem contrato claro, com juros abusivos e risco real de violência.

A prática é crime. A lei prevê punição para quem empresta dinheiro de forma profissional, sem autorização e com vantagem excessiva. Na ponta, porém, a repressão depende de denúncia e investigação, o que deixa muitas vítimas, especialmente idosos, expostas e com medo de reagir.

Especialistas em segurança apontam ainda um efeito colateral: a sobrecarga do sistema de justiça com casos que misturam crédito ilegal, extorsão, ameaças e, em situações extremas, mortes violentas como a do casal em Belo Horizonte.

O que vem pela frente

As investigações em Minas Gerais seguem para detalhar a rede de dívidas de Paola e o caminho do dinheiro pago ao agiota. A polícia apura se houve participação de outras pessoas no planejamento do latrocínio ou no apoio à fuga após o crime.

Em Mato Grosso, a prisão do agiota de 71 anos pode abrir novas frentes de apuração sobre outros possíveis empréstimos abusivos e vítimas ainda silenciosas. O caso funciona como alerta para idosos e famílias que recorrem a empréstimos informais, muitas vezes sem noção dos riscos.

Os dois episódios colocam pressão sobre o poder público. Policiais e promotores defendem ações integradas para coibir a agiotagem, regular e fiscalizar apostas online e ampliar a rede de tratamento para dependentes de jogos. Sem isso, avaliam investigadores, a combinação de crédito ilegal, vício e vulnerabilidade tende a produzir novas tragédias, com impacto direto na segurança pública, na saúde mental e nas finanças de famílias inteiras.

Qual o crime por ser agiota?

No Brasil, emprestar dinheiro de forma habitual, com juros abusivos e sem autorização, pode configurar crime de usura ou, dependendo do caso, extorsão e outros delitos patrimoniais.

O que significa agiota?

Agiota é a pessoa que empresta dinheiro por conta própria, fora de bancos e financeiras autorizadas, cobrando juros muito altos e, muitas vezes, usando ameaças para receber.

É pecado ser agiota?

Em várias tradições religiosas, a exploração do endividado por meio de juros excessivos é vista como pecado, por violar princípios de justiça, solidariedade e respeito ao próximo.

Agiota como se livrar?

Especialistas orientam a registrar boletim de ocorrência, buscar ajuda jurídica, evitar novos pagamentos sob ameaça e, se possível, negociar dívidas em canais formais de crédito.

 

Carregar Comentários