A Polícia Federal (PF) enfrenta lentidão e pressões políticas no avanço da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes no INSS. Aberta em 2025, a apuração entra no segundo semestre de 2026 sem respostas sobre o papel de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Ele é investigado sob a suspeita de atuar como sócio oculto do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
O esquema criminoso funcionou entre 2019 e 2024, operando através de descontos não autorizados diretamente na folha de pagamento de aposentados. Segundo relatórios da Controladoria-Geral da União (CGU), o rombo atinge a assustadora marca de R$ 484 milhões em cinco anos, evidenciando a impressionante magnitude da fraude estruturada por associações de fachada espalhadas pelo país.
Gargalo de arquivos e quebra de sigilos
Apesar do forte impacto econômico, a PF esbarra em limitações operacionais e técnicas. Até o momento, apenas 40% dos cerca de 1.700 itens eletrônicos apreendidos pelos agentes foram de fato periciados. Neste material digital reside a chave principal que poderá confirmar ou descartar a ligação de Lulinha com o escândalo.
Em fevereiro de 2026, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, autorizou as quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís. A leitura dos dados milionários, no entanto, depende da agilidade da perícia forense. Atualmente, apenas 11 agentes estão na operação; as estimativas da corporação apontam a extrema necessidade de ter ao menos 40 policiais alocados no inquérito.
Embate no STF e mudanças de comando
O gargalo de análise gerou atritos institucionais com o STF. Mendonça estipulou o prazo de 60 dias para a verificação do material dos alvos que estão presos. Em 29 de junho, a PF garantiu que cumprirá a meta estritamente para os detidos e pediu seis meses extras para concluir os demais envolvidos, levando o magistrado a exigir explicações detalhadas e formais da direção da corporação.
O clima interno piorou drasticamente após a mudança da chefia da apuração. A operação saiu da alçada da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários para integrar a Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores. A direção argumentou buscar “maior eficiência de gestão”, mas a transferência abrupta alimentou duras narrativas políticas de suposta blindagem ao filho do presidente da República.
Lulinha e a circunstância lateral
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, refutou veementemente todas as acusações de interferência técnica, priorizando a conclusão urgente dos inquéritos das 27 pessoas já presas. Sobre Lulinha, o gestor foi categórico ao definir sua apuração como totalmente secundária: “Isso não elimina investigarmos quaisquer outras circunstâncias laterais. O tratamento é sempre legal e focado diretamente na busca de provas materiais consistentes”.
Dennis Cali, diretor de Investigação, ressaltou que a entrega dos relatórios preliminares ocorrerá com rapidez até o fim do mês de julho. A fatia investigativa que envolve diretamente Fábio Luís, contudo, ficará obrigatoriamente para um momento futuro.
Delações e pressão política no Planalto
O futuro da extensa Operação Sem Desconto depende, de forma fundamental, de movimentações de investigados e fatores externos. Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Conafer e apontado pelas autoridades policiais como o grande idealizador do esquema, permanece foragido da Justiça desde a decretação de sua prisão preventiva decretada em novembro de 2025.
Ao mesmo tempo, a corporação busca insistentemente firmar um acordo de colaboração premiada com o empresário Maurício Camisotti. Apesar dos pesados entraves jurídicos estipulados recentemente pela Procuradoria-Geral da República (PGR), os delegados creem firmemente que este depoimento poderá escancarar as transações ilícitas e desvendar a verdadeira conexão financeira entre o Careca do INSS e a família presidencial em meio ao tenso calendário eleitoral de 2026.