Estação histórica do Inmet em Juiz de Fora sustenta alerta de chuva no RN

Dados históricos de Juiz de Fora ajudam a monitorar e prever eventos climáticos extremos no Rio Grande do Norte.
Redação NC News
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A estação meteorológica do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em Juiz de Fora completa 53 anos na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) enquanto, neste 4 de julho de 2026, o órgão emite alerta de chuvas intensas para todas as 167 cidades do Rio Grande do Norte até as 23h59 de hoje. A rotina minuciosa no alto da Zona da Mata mineira sustenta, dia após dia, a base de dados que ajuda a antecipar riscos a milhares de quilômetros dali.

Uma rotina local com impacto global

Instalada no campus da UFJF em 11 de maio de 1972, a 936 metros de altitude, a estação é hoje um dos pilares da rede de observação do Inmet. Seus registros integram a base de dados usada por meteorologistas no país e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), referência global em clima.

A relevância do trabalho aparece de forma concreta no alerta emitido para o Rio Grande do Norte. Classificado como de grau de severidade “Perigo Potencial” (cor amarela), o aviso prevê chuva entre 20 e 30 milímetros por hora ou até 50 milímetros por dia, além de ventos de 40 a 60 km/h em todos os municípios potiguares.

Esse tipo de projeção se apoia em séries históricas extensas, nas quais entra o acervo de Juiz de Fora. As observações meteorológicas na cidade começam em 1890, e a estação oficial, integrada ao sistema nacional, existe desde 1910, acumulando mais de 125 anos de dados contínuos sobre o clima local.

Precisão construída todos os dias

No alto da UFJF, entre gramados e equipamentos pintados de branco, a cena se repete três vezes ao dia. Às 9h, às 15h e às 21h, a climatologista Cássia Ferreira, coordenadora do Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental (LabCAA), e o servidor Yan Carlos Gomes Viana cruzam o campus para registrar manualmente as condições do tempo.

“Estamos aqui todos os dias, às 9h, às 15h e às 21h. A estação funciona aos sábados, domingos, feriados, Natal e Ano-Novo”, diz Cássia, que atua no local desde 1988. “Como seguimos uma padronização internacional, os dados coletados aqui podem ser comparados aos de qualquer outro lugar do mundo integrado a essa rede.”

Além das medições convencionais, a unidade opera de forma automática. Sensores eletrônicos enviam, a cada hora, informações para o 5º Distrito de Meteorologia, em Belo Horizonte. A dupla checagem aumenta a confiabilidade da série e permite cruzar o olhar humano, capaz de observar nuvens, nevoeiro e visibilidade, com o registro contínuo de temperatura, umidade e chuva.

Cássia explica que o rigor técnico começa na maneira como os equipamentos são instalados. “É tudo padronizado. Os termômetros ficam a cerca de 1,5 metro de altura para evitar a influência da radiação do solo. O abrigo é ventilado, tem dupla camada e deve ficar voltado para o sul, nunca para o norte, para impedir que o sol incida diretamente sobre os instrumentos”, afirma.

A exigência de gramado baixo, sem concreto, prédios ou árvores próximos, também afasta a interferência da urbanização. “Às vezes as pessoas questionam os dados da estação porque eles não refletem exatamente o que acontece no Centro da cidade. Mas essa não é a função dela. A estação representa as condições meteorológicas de forma mais regional”, diz. Ela lembra que, quando houve um equipamento em plena avenida Getúlio Vargas, o termômetro marcou 47°C, um valor distorcido pelo calor retido no asfalto e nos prédios.

Da Zona da Mata ao litoral do Nordeste

A engrenagem que começa em estações como a de Juiz de Fora desemboca em decisões práticas no outro extremo do país. No Rio Grande do Norte, o aviso emitido hoje pelo Inmet coloca todos os 167 municípios sob atenção para pancadas de chuva mais fortes e rajadas de vento ao longo do dia.

“O alerta é de grau de severidade ‘Perigo Potencial’ (cor amarela). De acordo com o órgão, a previsão é de chuva entre 20 e 30 mm/h ou de até 50 mm por dia, além da possibilidade de ventos intensos, variando entre 40 e 60 km/h”, informa o instituto.

A classificação indica risco considerado baixo, mas suficiente para acionar protocolos de prevenção. Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e serviços de emergência ajustam escalas, revisam equipamentos e reforçam orientações à população para reduzir chances de alagamentos pontuais, queda de galhos e interrupções isoladas no fornecimento de energia.

As recomendações são simples e diretas. “Não se abrigue debaixo de árvores, pois há leve risco de queda e descargas elétricas; Não estacione veículos próximos a torres de transmissão e placas de propaganda; Evite usar aparelhos eletrônicos ligados à tomada”, alerta o Inmet em nota. Em caso de emergência, o órgão orienta o contato com a Defesa Civil, pelo telefone 199, e com o Corpo de Bombeiros, pelo 193.

Para moradores de áreas vulneráveis, como encostas e margens de rios, a combinação de chuva de até 50 milímetros em 24 horas com rajadas de até 60 km/h pode agravar deslizamentos, queda de muros e destelhamentos. A diferença, ressaltam técnicos, está na capacidade de antecipar o cenário e preparar a resposta.

Série histórica e futuro das previsões

Na UFJF, a manutenção da estação convencional, mesmo após a chegada da unidade automática em 2008, tem um motivo central: preservar a continuidade da série histórica, essencial para estudos sobre mudanças climáticas.

Cássia lembra que os sensores eletrônicos mudam com o tempo, o que pode introduzir pequenas variações nas medições. A permanência do método tradicional funciona como fio condutor, permitindo comparar hoje com ontem sem que o avanço tecnológico quebre a curva. As evidências, segundo ela, já são nítidas nos gráficos locais.

Os dados de Juiz de Fora mostram aumento mais acentuado da temperatura a partir dos anos 2000 e crescimento do número de dias acima de 30°C. A tendência acompanha o aquecimento global observado em outras partes do planeta e reforça a importância de redes densas de monitoramento, sobretudo em países continentais como o Brasil.

O próprio Inmet admite que ainda há “vazios” de medição no território, com muitos municípios atendidos por apenas uma estação. Em regiões sujeitas a extremos, como o Nordeste semiárido e áreas de expansão urbana acelerada, a falta de pontos de observação limita a precisão de mapas de chuva, de produtos de pluviometria e de calibração de radares meteorológicos.

Enquanto a infraestrutura avança, a confiabilidade dos modelos depende da qualidade de cada estação em funcionamento. Em Juiz de Fora, a combinação de medições automáticas, observação humana e respeito às normas da OMM garante que o dado local sirva tanto para pesquisas acadêmicas quanto para alimentar sistemas operacionais de previsão, mapas do Inmet e bancos de dados públicos, como o BDMep.

Quando um alerta como o desta sexta-feira chega aos celulares no Rio Grande do Norte, há mais de um século de medições sustentando aquelas poucas linhas. Nos próximos anos, a expectativa de pesquisadores e técnicos é que a integração entre estações, satélites, radares e órgãos de proteção civil se aprofunde, diminuindo ainda mais o tempo entre a detecção de um fenômeno e a reação da sociedade. Em um país cada vez mais exposto a extremos climáticos, essa diferença de horas pode significar vidas preservadas e prejuízos menores.

 

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