O presidente da Fifa, Gianni Infantino, quebrou o silêncio nesta segunda-feira (6) para rebater a forte onda de acusações de interferência política que atinge a integridade do Mundial de 2026. Em comunicado oficial, o dirigente máximo do futebol confirmou ter recebido um telefonema direto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas garantiu veementemente que a polêmica anulação do cartão vermelho do atacante norte-americano Folarin Balogun foi respaldada por critérios estritamente jurídicos e autônomos.
A manifestação de Infantino ocorre poucas horas após o próprio Trump declarar no Salão Oval que acionou a entidade esportiva por considerar “injusta” a expulsão de seu atleta no jogo contra a Bósnia-Herzegovina, apitado pelo brasileiro Raphael Claus.
O argumento da Fifa: Órgãos são independentes
Em sua defesa institucional, o mandatário da Fifa argumentou que a presidência da federação não possui ingerência sobre os vereditos das comissões de ética e disciplina do torneio.
“Os órgãos judiciais da Fifa são independentes, eles atuam de forma autônoma. Eu leio as decisões do Comitê Disciplinar quando são emitidas. Às vezes fico surpreso com elas. Às vezes concordo, e às vezes discordo. O que sempre faço, no entanto, é respeitar essas decisões e a autonomia dos órgãos que as tomam”, sustentou Gianni Infantino no documento.
A linha de defesa converge em parte com o discurso do próprio Trump, que negou ter dado ordens diretas à entidade. “Tudo o que fiz foi pedir uma revisão, porque não achei que fosse falta. Eu não disse à Fifa o que fazer. O comitê tomou a decisão certa”, defendeu-se o líder norte-americano. Na véspera, Trump já havia ido às redes sociais celebrar o recuo jurídico com um efusivo: “Obrigado à FIFA por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça!”.
O técnico da seleção dos EUA, o argentino Mauricio Pochettino, também endossou o coro. Em entrevista coletiva, o comandante celebrou a absolvição de seu atacante titular: “Fomos punidos o suficiente ao jogar com um a menos por 30 minutos em uma decisão completamente injusta. Acredito que 99,9% das pessoas concordam que aquele cartão vermelho foi injusto”, cravou.
O estopim: O pisão no VAR e os ataques a Raphael Claus
O epicentro de toda a crise reside na atuação do árbitro brasileiro Raphael Claus. Aos 18 minutos do segundo tempo da partida entre EUA e Bósnia, Claus foi chamado ao monitor do VAR para revisar um lance de dividida e acabou aplicando o cartão vermelho direto a Balogun por identificar um pisão intencional no tornozelo do jogador bósnio Muharemovic.
Insatisfeito com a marcação que tiraria o atacante do jogo decisivo das oitavas de final contra a Bélgica, Donald Trump elevou as tensões ao lançar graves e infundadas suspeitas sobre a reputação do juiz brasileiro. “Esse árbitro é um pouco suspeito. Se você verificar o passado dele… Eu não quero dizer isso, porque não gosto de criar polêmica, mas muito suspeito, como se eu pudesse te mostrar o histórico”, disparou o presidente norte-americano, atacando a lisura da arbitragem sul-americana.
Rebelião europeia: Bélgica ameaça ir aos tribunais
A liberação extraordinária do atleta norte-americano gerou indignação imediata no continente europeu, unindo esporte e política em um bloco de contestação à Fifa. A Federação Belga de Futebol emitiu uma nota contundente cobrando explicações formais da entidade máxima e ameaçando ir aos tribunais para invalidar a partida desta noite em Seattle, caso Balogun entre em campo.
Os belgas alegam que a anulação atropela as próprias regras vigentes no torneio:
- Artigo 66.4 do Código Disciplinar: Prevê de forma expressa que um cartão vermelho resulta na suspensão automática do atleta para a partida subsequente;
- Artigo 10.5 do Regulamento da Copa de 2026: Reafirma o caráter automático da punição, diretriz que havia sido ratificada pela Fifa em circulares oficiais enviadas a todas as delegações antes do início do torneio.
A União Europeia (UE) e a União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) também se posicionaram publicamente, criticando o recuo da Fifa perante a pressão da Casa Branca. Para as entidades europeias, o episódio fere as regras de fair play e abre um perigoso precedente onde a diplomacia de gabinete e o poder político de uma nação anfitriã pesam mais do que o regulamento oficial escrito.