O presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, é apontado pela Polícia Federal (PF) como suspeito de liderar um esquema de desvio de R$ 119 milhões em emendas parlamentares, contando com o suporte direto de servidores da Câmara dos Deputados. A investigação criminal, tornada pública nesta sexta-feira (10 de julho de 2026), motivou uma decisão cautelar do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a suspensão imediata dos repasses associados ao dirigente. Sem exercer mandato eletivo, Costa Neto é acusado de manipular clandestinamente os recursos da União para interesses privados, o que configura, segundo os investigadores, a prática de associação criminosa e peculato.
A arquitetura do esquema no Congresso Nacional
A apuração detalhada da corporação policial revela que o esquema operou de forma sistemática entre junho de 2024 e março de 2026. Valdemar Costa Neto atuava como um gestor paralelo do orçamento público federal. Para executar as manobras financeiras, ele estabeleceu um “arranjo funcional informal” com três servidores estratégicos da Casa: Mariângela Fialek (conhecida como Tuca), Nara Benedetti Nicolau Brum e Garigham Amarante Pinto.
O inquérito da Operação Transparência detalha o modus operandi da organização e como o grupo loteava os milhões empenhados.
Cogestão irregular
Os funcionários públicos ultrapassavam suas atribuições burocráticas originais. Segundo a PF, eles não apenas cumpriam ordens, mas orientavam, organizavam reuniões, alimentavam planilhas clandestinas e adaptavam ativamente a destinação das emendas conforme as diretrizes extraoficiais do presidente do PL.
Clandestinidade consciente
O relatório policial atesta que o trio de servidores atuava com plena consciência da ilegalidade, operando como uma ponte velada para mascarar a interferência política externa na máquina pública.
Apropriação de cotas
A estimativa é que o dirigente partidário tenha desviado os recursos de pelo menos 21 emendas. O capital era tratado internamente como “cotas pessoais privadas”, consolidando o desvio de finalidade e a materialidade do peculato (crime que ocorre quando um funcionário público se apropria ou desvia dinheiro e bens do Estado em proveito próprio ou alheio, valendo-se das facilidades do cargo).
Bloqueio no STF
A decisão do ministro Flávio Dino, assinada na última segunda-feira (6), expõe a gravidade institucional da captura do orçamento. O magistrado sublinhou os indícios contundentes levantados pela Polícia Federal de que a atuação da rede buscava fraudar a legislação e beneficiar figuras políticas sem o crivo do voto popular.
“A espantosa ascendência que alguns servidores da Câmara dos Deputados parecem atribuir ao investigado Valdemar Costa Neto contrasta com a ausência de título jurídico que lhe permita dispor do orçamento público, sejam quais forem os valores, sejam quais forem os seus destinatários. Os espaços constitucionalmente permitidos às emendas parlamentares não degradam o Erário à condição de patrimônio privado, passível de aquisição, transação ou quotização”, cravou Dino na peça judicial.
Procurada para comentar as graves acusações de desvio de finalidade orçamentária, a defesa de Valdemar Costa Neto não enviou respostas até o fechamento desta reportagem. A equipe do NC News tentou gravar pessoalmente, mas não foi atendida.
Entre os servidores investigados pelo Supremo, apenas Garigham Amarante se manifestou publicamente, limitando-se a declarar que não comentaria o inquérito por exercer uma função estritamente “técnica” na Câmara.
Entenda o Caso
A “Operação Transparência” é uma ofensiva investigativa que visa desarticular o uso distorcido das emendas parlamentares no Congresso Nacional. Essas ferramentas orçamentárias foram criadas originalmente para permitir que deputados e senadores direcionem investimentos para obras e serviços essenciais em suas bases eleitorais. No entanto, a falta de rastreabilidade técnica transformou o mecanismo na principal moeda de troca política de Brasília.
A revelação de que Valdemar Costa Neto — cacique do PL e fiador do projeto político do presidenciável Flávio Bolsonaro — comandava a destinação de dezenas de milhões de reais escancara um mercado paralelo no Legislativo. O inquérito documenta de forma inédita como líderes partidários sem mandato eletivo conseguiram aparelhar a burocracia da Câmara dos Deputados para lotear o dinheiro do contribuinte, burlando a fiscalização estatal e corroendo a integridade do Orçamento da União.