Aos 68 anos, Edson Celulari usa a vitrine do Sem Censura, da TV Brasil, para falar de instabilidade. O ator descreve o fim dos contratos longos na TV Globo como um divisor de águas para sua geração e alerta os mais jovens: sem persistência, a carreira artística não se sustenta.
De estrela fixa a ator por obra
Celulari pertence a um grupo de veteranos que viu a emissora onde construiu a imagem de galã desmontar, em poucos anos, o modelo de vínculos duradouros. No lugar do salário mensal e da segurança de décadas, vieram contratos curtos, por obra certa, renovados a cada novela ou série.
No estúdio do Sem Censura, comandado por Cissa Guimarães, ele traduz essa virada em termos simples. “Tive o privilégio de pegar uma época da Globo em que tínhamos contratos mais longos, mas a realidade de um ator, a questão de trabalho, é muito dura. No mundo inteiro é assim. Termina um trabalho, começa do zero novamente”, afirma.
A frase resume o sentimento de muitos artistas que deixaram o elenco fixo da emissora e passaram a circular entre produções de diferentes empresas, inclusive a própria Globo, mas sempre em regime de temporário. O ator, que esteve em Fuzuê, exibida entre 2023 e 2024, hoje volta aos Estúdios Globo apenas quando é escalado para projetos específicos.
Mercado “aberto” e menos estável
Na conversa, Celulari evita o tom de lamento e prefere a análise fria de quem atravessa a transição em pleno exercício da profissão. “O audiovisual hoje está muito difícil, porque esses contratos que sempre existiram, os mais longos, estão mais raros agora. Então, o mercado está mais aberto. Então, é não desistir e seguir em frente”, diz.
Aberto, na prática, significa uma arena maior e mais povoada. Com dezenas de plataformas de streaming disputando atenção do público e pressionando orçamentos, a Globo reestrutura o quadro de artistas exclusivos e aposta em elencos montados sob demanda. produtores independentes seguem a mesma lógica. O resultado é um rodízio constante de atores, roteiristas e diretores em projetos de curta duração.
Para quem passou anos com carteira assinada na dramaturgia da emissora, a mudança impõe adaptação imediata. Entre um trabalho e outro, é preciso negociar novos papéis, testar formatos, financiar peças de teatro ou aceitar participações menores para manter a visibilidade. “Se tem alguma coisa a se falar para alguém que quer ir para esse nosso lado da arte é não desistir. É muito difícil, sempre será difícil”, reforça Celulari.
Teatro apaixonado, cachê menor
O programa coloca frente a frente a experiência de quem viveu o auge da teledramaturgia e a realidade de quem circula entre diferentes frentes do entretenimento. Cissa Guimarães, que também é atriz, faz a ponte entre esses mundos. “Quando você está na Globo, é uma coisa certa, você tem uma obra certa para fazer lá. Quando você faz teatro, o dinheiro é menor”, observa.
A apresentadora lembra que, mesmo com incentivos como a Lei Rouanet, o palco raramente garante o padrão salarial da TV. Muitas vezes, o ator aceita cachês modestos para manter-se em cena, preservar o vínculo com o público e não desaparecer em um mercado cada vez mais volátil. O teatro, que sempre funcionou como espaço de criação autoral e risco artístico, vira também refúgio em tempos de incerteza.
Celulari assume essa via sem hesitar. Em 16 de julho de 2026, ele estreia O Beijo no Asfalto, clássico de Nelson Rodrigues, no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Divide o palco com Eduardo Sterblitch e Luísa Arraes, dois nomes de gerações posteriores que também transitam entre TV, cinema, internet e palco para compor renda e carreira.
Carreira em modo reinvenção
O relato do ator no Sem Censura expõe, em primeira pessoa, um processo mais amplo de precarização do trabalho artístico. Ao abandonar os contratos fixos, a principal produtora de novelas do País redefine a régua do setor. Outras emissoras e produtoras tendem a seguir esse modelo mais flexível, menos custoso e, para os profissionais, bem mais arriscado.
No estúdio, a discussão extrapola os dramas de quem já é conhecido do público. O casal de empreendedores Victória Cristina e Bruno Marcelino, o modelo Nil Marinho e o jornalista e antropólogo Ernesto Xavier ouvem o desabafo do veterano e ajudam a desenhar o mapa de um mercado em que a visibilidade não garante estabilidade. Muitos atores, lembram, financiam do próprio bolso curtas, peças e projetos autorais à espera de editais, patrocinadores ou da chance de serem vistos por um grande player.
Celulari também volta ao início da trajetória para mostrar que a instabilidade não atinge apenas contracheques. Conta que o pai resistiu à ideia de ter um filho artista, desconfiado da falta de garantias da profissão, antes de aceitar a escolha. Décadas depois, a preocupação se confirma em escala ampliada, agora com um sistema que institucionaliza o recomeço permanente.
Mesmo assim, o ator evita a nostalgia fácil. Prefere falar em vocação, disciplina e estratégia. Trabalha no teatro, aceita convites pontuais para cinema e mantém portas abertas na TV sob o novo regime, por obra. É a forma que encontra de atravessar uma era em que, como ele próprio resume, “termina um trabalho, começa do zero novamente”.
Quem ganha, quem perde e o que vem pela frente
Na prática, sai na frente quem consegue diversificar. Artistas que escrevem, produzem, dirigem e atuam em múltiplas plataformas aumentam as chances de manter o fluxo de renda e de trabalho. Os que dependiam da regularidade do contracheque televisivo, por sua vez, sentem a mudança de forma mais dura. Aposentadorias, planejamento financeiro e vida familiar entram na conta de cada contrato assinado.
Teatro e cinema, historicamente fragilizados, sofrem um duplo impacto. Ao mesmo tempo em que viram alternativa para atores sem contrato fixo, lidam com bilheterias incertas e editais disputados. A expansão do streaming abriu novas janelas de exibição, mas espalhou o público e intensificou a concorrência, inclusive com produções estrangeiras.
No encerramento da entrevista, o conselho de Celulari condensa esse cenário de riscos e apostas. “O mercado está mais aberto. Então, é não desistir e seguir em frente”, diz. A frase serve como mantra para uma geração que chega agora e para veteranos que, como ele, aprendem a viver em regime de reestreia constante.
Os próximos anos devem consolidar o modelo por obra como padrão. Em resposta, artistas tendem a se organizar mais, pressionar por regras claras e buscar saídas coletivas e individuais para reduzir a insegurança. Enquanto isso, no palco do Glaucio Gill, um dos rostos mais conhecidos das novelas brasileiras volta a começar do zero, diante de uma plateia de cada vez.
O que Edson Celulari falou sobre o fim dos contratos na Globo?
Ele disse que viveu a fase dos contratos longos, mas que hoje esses vínculos são raros. Segundo o ator, isso torna o trabalho “muito duro” e sempre recomeçado.
Como Edson Celulari descreve a crise no audiovisual para atores veteranos?
Ele afirma que o audiovisual “está muito difícil” e que os contratos longos “estão mais raros”. O mercado, embora mais aberto, oferece menos estabilidade até para nomes conhecidos.
O que Edson Celulari quer dizer ao afirmar que atores “começam do zero” após cada trabalho?
Quer dizer que, encerrada uma novela, filme ou peça, o ator precisa buscar um novo emprego do início, sem continuidade automática, como em outras profissões com vínculo fixo.
Como está Edson Celulari atualmente em relação à carreira?
Ele segue ativo em contratos por obra na TV, atuou em Fuzuê entre 2023 e 2024, prepara a estreia de O Beijo no Asfalto no teatro e participa de projetos de cinema.