Aos 67 anos, Leilane Neubarth segue chegando de scooter à sede da Globo, no Jardim Botânico, de segunda a sexta. Mantém, há mais de 40 anos, uma rotina sobre duas rodas que começa no início dos anos 1980 e atravessa toda a sua carreira no jornalismo.
Da recusa em casa ao primeiro salário na TV
Leilane entra na Globo em 1979, ainda estagiária. Tinha pouco mais de 18 anos quando decide que quer uma moto. Em vez de apoio, ouve da mãe uma frase que a acompanha até hoje: “Te dou um revólver que é mais barato e mais rápido.”
A resposta não demove a jovem repórter em formação. Entre um plantão e outro, ela guarda parte do salário e transforma a recusa em combustível. Compra sua primeira moto, uma Honda 250cc, e inicia um percurso que mistura independência, desafio familiar e vontade de ocupar espaços onde quase não havia mulheres.
No início dos anos 1980, motociclistas mulheres ainda chamam atenção nas ruas do Rio. O trânsito é menos denso do que hoje, mas o preconceito grita mais alto. A imagem de uma repórter recém-chegada à televisão, de macacão e capacete, contraria o figurino esperado de uma profissional que começa a aparecer diante das câmeras.

Quatro décadas no trânsito do Rio
O hábito que nasce da economia de estagiária vira marca de trajetória. Amigos e colegas relatam ver Leilane cruzando as ruas do Jardim Botânico, cortando a Lagoa e o Leblon em scooters de modelos diferentes, sempre rumo aos estúdios de jornalismo.
Mesmo em fases de maior exposição, quando apresenta telejornais diários e programas na GloboNews, ela recusa a logística confortável de carro com motorista, táxi ou aplicativo. Prefere o caminho mais direto: subir na scooter, enfrentar o trânsito intenso da zona sul e estacionar bem perto da porta da emissora.
A cena reaparece em um vídeo recente, gravado na despedida de Leilane do jornalismo diário na GloboNews. Entre memórias de reportagens e coberturas, surge a imagem da apresentadora chegando de capacete, estacionando a scooter e entrando apressada na redação. A rotina discreta, cultivada desde a juventude, vira parte do retrato público da jornalista veterana.
O percurso diário de scooter ganha simbolismo extra pelo cenário. Circular com moto em bairros como Jardim Botânico, Lagoa e Leblon, marcados por carros de luxo, congestionamentos crônicos e vagas escassas, reforça a opção por um estilo de mobilidade que contrasta com a lógica predominante do automóvel.
Pioneirismo feminino em duas frentes
A história de Leilane se constrói em dois ambientes tradicionalmente masculinos: o jornalismo de televisão e o universo das motos. Ela entra na emissora em 1979, em uma redação com poucos rostos femininos em posições de destaque. Ao mesmo tempo, escolhe a moto como veículo principal quando quase não se via mulher pilotando no dia a dia.
O gesto de comprar a própria Honda 250cc, após a negativa da mãe, passa a simbolizar mais do que um simples meio de transporte. Representa a recusa em aceitar o roteiro traçado para mulheres jovens de classe média naqueles anos e a escolha por um caminho de autonomia, tanto profissional quanto pessoal.
Quatro décadas depois, a jornalista que começou como estagiária ocupa espaço consolidado na grade da Globo e mantém intacto o hábito de chegar ao trabalho sobre duas rodas. A imagem de Leilane “jovem”, enfrentando resistências para pilotar, dialoga hoje com uma apresentadora experiente, que transforma esse mesmo hábito em referência para outras mulheres.
Nas redes sociais, em especial no Instagram, onde atualiza seguidores sobre rotina e bastidores de sua vida profissional, a scooter volta e meia aparece. O detalhe reforça a construção de uma figura pública que valoriza simplicidade no deslocamento, mesmo ocupando posição de destaque na TV aberta e em canais de notícias.
Impacto na mobilidade e na cultura das motos
A rotina de Leilane, mantida de forma quase silenciosa por mais de 40 anos, começa a ser lida também como gesto político. Em meio ao trânsito travado e à multiplicação de aplicativos, uma jornalista conhecida recusa o carro e aposta em um veículo mais leve, econômico e rápido.
A escolha ajuda a dar visibilidade a alternativas de mobilidade urbana que fogem do padrão do automóvel. Em um momento em que se discute sustentabilidade e redução de emissões, a imagem de uma apresentadora veterana de scooter pela zona sul reforça, ainda que de forma indireta, a ideia de transporte mais ágil e menos dependente de grandes veículos.
No campo simbólico, o impacto é ainda mais nítido. Ao longo dos anos, a presença de Leilane no trânsito urbano ajuda a desmistificar o uso de motos por mulheres, especialmente em áreas nobres, onde a moto costuma ser vista ora como objeto de luxo, ora como veículo associado apenas à precariedade.
O efeito atinge também a cultura interna da Globo. A figura de uma profissional sênior que escolhe um trajeto autônomo, sem carro oficial ou aparato, reforça outro tipo de poder: o de decidir como se deslocar, em que ritmo e em que condições.
Da biografia pessoal ao debate público
A história da scooter atravessa hoje a biografia de Leilane com força semelhante à de suas coberturas jornalísticas. A narrativa de superação, que começa com uma frase dura da mãe e um cofrinho de estagiária, acompanha cada nova fase na TV.
À medida que sua trajetória ganha mais espaço em entrevistas e redes sociais, cresce a chance de que esse detalhe biográfico se transforme em ponto de partida para discussões mais amplas. A pauta sobre mulheres motociclistas, segurança no trânsito, infraestrutura para duas rodas e igualdade de gênero no mundo do trabalho encontra, em sua rotina, um exemplo concreto.
O próximo passo provável é ver Leilane abordando o tema com mais profundidade, seja em conversas com seguidores, seja em participações em eventos e debates sobre mobilidade. A experiência acumulada em mais de 40 anos de scooter, somada ao peso de sua voz na mídia, tende a influenciar tanto jovens jornalistas quanto mulheres que cogitam trocar o carro pela moto.
Se políticas públicas para motociclistas ganharem força nos próximos anos, o caso de uma apresentadora veterana que insiste em cruzar o Jardim Botânico de scooter deve seguir citado. A história de Leilane se estende para além da biografia e entra, gradualmente, no imaginário de uma cidade que ainda aprende a dividir o asfalto.
O que aconteceu com a jornalista Leilane Neubarth?
Leilane Neubarth se despede do jornalismo diário na GloboNews, mas segue na Globo e mantém o hábito de ir à emissora de scooter, que conserva há mais de 40 anos.