Pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) no Distrito Federal enfrentam uma espera que pode chegar a quase nove anos para conseguir uma consulta com oftalmologista. Dados do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) mostram que há pessoas na fila desde 2017, enquanto mais de 60 mil solicitações seguem sem atendimento na rede pública.
O cenário preocupa especialistas porque parte da fila é formada por pacientes classificados como prioritários, ou seja, pessoas que correm risco de perder a visão caso não recebam diagnóstico e tratamento rapidamente. Apesar da gravidade, muitos continuam aguardando atendimento por longos períodos.
O que mostram os dados
O painel Fila SUS, divulgado pelo MPDFT, revela um tempo médio de espera de 853 dias para consultas em oftalmologia. Há registros de pacientes que acumulam 3.272 dias na fila — quase nove anos. Além disso, mais de 1,7 mil pessoas aguardam desde antes da pandemia de Covid-19 e ainda não foram chamadas.
Os números também indicam que a demanda aumentou nos últimos anos. Somente entre os pacientes que solicitaram atendimento em 2025, mais de 15 mil ainda permanecem na fila de espera.
Casos urgentes preocupam especialistas
Entre os pacientes cadastrados, mais de 4 mil foram classificados na prioridade 1, categoria reservada para situações com risco iminente de perda irreversível da visão. Em condições normais, esses casos deveriam receber atendimento em poucas semanas, mas acabam aguardando junto com pacientes de menor gravidade.
Já a prioridade 2 concentra mais de 28 mil pessoas que, embora não necessitem de atendimento imediato, deveriam ser avaliadas em curto prazo para evitar a evolução das doenças.
Idosos estão entre os mais afetados
Os dados mostram que cerca de metade da fila é composta por pacientes com idade entre 60 e 95 anos. Nessa faixa etária, doenças como catarata, glaucoma, degeneração macular e complicações provocadas pelo diabetes são mais frequentes e podem causar perda permanente da visão quando não tratadas precocemente.
Segundo especialistas, quanto maior o tempo de espera, maiores são as chances de agravamento do quadro clínico e até mesmo de cegueira em alguns casos.
Judicialização cresce diante da demora
Sem conseguir atendimento pela fila regular do SUS, muitos pacientes recorrem à Justiça para tentar acelerar o acesso às consultas e exames.
De acordo com os dados apresentados pelo MPDFT, aproximadamente 1,4 mil pessoas já ingressaram com ações judiciais para garantir atendimento na especialidade de oftalmologia.
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal foi procurada para comentar a situação, mas não havia se manifestado até a publicação das informações.
Entenda o contexto
Para conseguir uma consulta com oftalmologista pelo SUS no Distrito Federal, o paciente precisa ser atendido primeiro em uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Caso haja necessidade, o médico faz o encaminhamento para o sistema de regulação, que organiza a fila conforme a prioridade clínica. Entretanto, o elevado número de solicitações acumuladas tem provocado atrasos de anos no atendimento, afetando principalmente idosos e pacientes com doenças que exigem diagnóstico precoce para evitar perda permanente da visão.